Debaixodosceus.pt e Amazon.com: Uma parceria de sucesso
2017 Publicação "Daquele Além Marão"
2020 Foi criada a nova imagem
2017 Apresentação na Casa dos Transmontanos do Porto
2022, Pela primeira vez, publicação em capa dura além de capa mole
2017 Apresentação na Confeitaria Luso-brasileira
2020 Publicação "Entre o Preto e o Branco"
2017 Apresentação no CITICA de Daqueles Além Marão
2016 Apresentação no CITICA de "Lágrimas no Rio"
2016 Publicação de Lágrimas no Rio
2016 Apresentação no ISLA de "Lágrimas no Rio"
2015 "Terras de Xisto" - A primeira publicação
2022 Publicação de "A Caixa do Mal"
2022 Devido ao seu sucesso, "Lágrimas no Rio" tem 2ª edição
2022 Publicação "Na Sombra da Mentira"
2022 Publicação "Depois das Velas se Apagarem"

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Terras de Xisto - 1ª parte - A festa fatal







Corriam os primeiros anos do século XX.
Na longínqua Lisboa, reinava despreocupado o bom rei D. Carlos e o mundo parecia ordenado e em paz;
O rei, reinava, o governo legislava, os regedores mandavam, os proprietários enriqueciam e os pobres trabalhavam…
Engordavam os primeiros, enriqueciam os segundos e morriam de fome os últimos.
Tempos duros aqueles, com o pão de cada dia arrancado à força de braço nos terrenos de xisto. Longínquas as terras, agora tornadas próximas por auto-estradas lavradas nas montanhas e máquinas possantes que devoram quilómetros.
Nos remotos montes do Norte do país, muito para trás dos montes, havia uma aldeia igual a tantas outras.
Vista de cima, até não era pequena, com quase dois quilómetros de ponta a ponta. O casario estendia-se ao longo de uma sinuosa rua monte acima ramificando-se em pequenos becos. O ponto mais baixo da rua central era dominado pelo palacete setecentista onde vivia a família mais importante da região e no extremo mais alto pela Igreja tornada rica pelo fervor dos pobres e ostentação dos ricos.
O extremo da aldeia, próximo do palacete, estava sossegado e as luzes das casas apagadas há algum tempo. Já passava das 23:00 horas e amanhã avizinhava-se um novo dia de árduo trabalho.
O céu excepcionalmente sem nuvens daquela noite de Inverno era dominado pela lua cheia cujos raios prateados iluminavam a paisagem.
Passadas apressadas de tamancos de madeira perturbaram a paz da noite ecoando rua fora.
Na casa verde junto da fonte, as pancadas violentas na porta acordaram a jovem mulher que ainda há pouco adormecera.
- Ò ti Maria – Uma voz esganiçada de jovem gritava num dueto com as pancadas na porta – Ti Maria, abra a porta!
A jovem ergueu-se gritando um “Quem é?” mal-humorado enquanto desamarrotava a camisa de noite e se cobria com uma pequena manta. Usava cabelos negros compridos que lhe chegavam ao meio das costas, tinha um nariz fino e afilado e olhos azuis.
As pancadas e os chamamentos repetiam-se como se a não ouvissem: - Ò ti Maria!
- Mafarricos te levem rapaz! Já lá vou! – Gritou novamente enquanto atravessava a cozinha e se dirigia para a entrada.
- Acuda à porta depressa. – Os gritos insistiam.
Abriu a porta com brusquidão surpreendendo o ofegante adolescente escanzelado de cabelos negros revoltos que a olhava entre o surpreendido e o assustado.
- Que foi? Que queres rapaz, que acordas as almas deste mundo e do outro? – Maria, senhora dos seus vinte e poucos anos, enfrentou o jovem.
- Venha depressa. – Ofegou – Venha depressa, foi o Ti Zé…
Estas últimas palavras disse-as já em corrida de regresso para onde viera, tamanqueando rua fora e insistindo – Venha depressa.
- Espera, rapaz! – Gritou ela – Rapaz! Tiago! Espera! Que aconteceu com o meu Zé? Fala!
Era inútil. Já não a ouvia, batendo os tamancos de volta para donde viera.
Correu para o interior da casa gemendo – Mafarrico… que terá acontecido? Aquele endemoninhado já se meteu em sarilhos outra vez.
Vestiu uma saia, cobriu-se com um xale e saiu correndo atrás do rapaz.
Agora eram os tamancos dela que ecoavam na rua ritmados com a respiração ofegante em crescendo com a sua aflição:
- Não há ninguém na rua… que terá acontecido… está toda a gente para lá…
O seu marido, Zé, não perdia uma festa... nem os problemas. Era normal, como era grande e forte, haver sempre alguém com um copito a mais que resolvia medir as forças com ele. A maior das vezes saia vitorioso, arranhado, pisado, mas vitorioso.
Maria sentia-se cada vez mais inquieta e, ao chegar à taberna, onde começavam os archotes iluminados, ouvia já o burburinho que havia para lá da esquina.
O frio mordia-a nas pernas mal protegidas e queimava-lhe as mãos e o rosto deixando-a corada. O seu respirar ofegante transformava-se em nuvens de vapor que saiam da boca.
Reduziu a velocidade instantaneamente assim que encontrou o ajuntamento.
Todos se começaram a calar e a abrir alas à sua chegada, rostos apreensivos, preocupados, ou mesmo zangados.
- Que aconteceu? – Perguntava à direita e à esquerda sem que lhe respondessem – Que houve, vizinha? – Perguntava à mais próxima que a olhava tristemente com as lágrimas nos olhos. – Diga-me por amor de Deus o que aconteceu Ti Eduardo. – Perguntou, sem parar os passos cada vez mais curtos, ao homem dos olhos grandes que desviou o olhar para o chão.
Acabou chegando ao centro do ajuntamento… uma obscena poça de sangue negro como a noite estendia-se no meio do círculo.
Uma nascente de lágrimas brotou dos olhos de Maria ao deparar com tão terrível vestígio e colocando as mãos enclavinhadas ao peito, chorou desesperadamente:
- Ai, valha-me Deus, o meu Zé! Ai, meu Senhor Misericordioso, valei-me.
- Cala-te mulher! – A ordem com uma voz forte carregada de desprezo veio do outro lado da poça. – Cala-te que choras por quem o não merece. - Por entre os soluços, olhou surpreendida o fidalgo que a olhava com porte altivo com o pingalim na mão esquerda batendo no cano da bota – Maldita és que trouxeste a desgraça a minha casa.
Com as mãos no peito, ela olhava incrédula em todas as direcções à procura de uma alma caridosa que lhe explicasse o que se passava e porque era ela a causa da fúria do Senhor Samões, o homem mais importante da aldeia.
- Esse sangue que aí vês, pertence ao meu filho que acabaram de levar daqui entre a vida e a morte vítima do maldito assassino que é o teu marido. – Apontou o pingalim ao peito dela, como se tratasse de uma espada e ameaçou – Cautela, Maria Sobreiro, hoje mesmo o Zé Sobreiro há-de ser caçado como um cão e trazido de rastos aos meus pés para responder pelo crime que cometeu. Se te atravessares no meu caminho ou dos meus homens hás-de levar tamanha tareia que nunca mais poderás andar pelo teu pé. Palavra de André Samões. Que sejas maldita tu e o perro canalha com quem te casaste com a minha bênção, amaldiçoada a hora. A ele, hei-de esfola-lo de chibatada como a um miserável que é e tu, se me voltas a aparecer à frente, mato-te com as minhas próprias mãos.
Terminou a ameaça com uma chibatada na diagonal muito perto do rosto da tão apavorada como espantada jovem e fez meia volta empurrando da sua frente os mais lentos à medida que se afastava em passos rápidos e decididos.

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quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Traição II

Este texto é uma obra de ficção. Embora possa incluir referências a eventos históricos e figuras reais, a história, os diálogos e as interpretações são fruto da imaginação do autor. Qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, é mera coincidência.



Entrou cambaleante na casa de banho da discoteca e o cheiro intenso a urina e vómito atingiu-o com força.
Apoiou-se na laje molhada semeada de bocados de papel que servia de lavatório e enfrentou aquele rosto sério que o olhava todos os dias. O cabelo raiado de fios brancos estava molhado de chuva e de transpiração. Olheiras negras acentuavam-lhe a vista cansada.
As pernas tremiam-lhe, estava e sentia-se um trapo. Além de ligeiramente bêbado… ou completamente.
Já há muito tempo não bebia assim e a capacidade para dominar os efeitos da bebida há muito que vinha a reduzir.
Fez um trejeito de desprezo para ele próprio enquanto a cabeça oscilava ligeiramente num desequilíbrio mais ou menos controlado:
-        Na mesma noite desrespeitaste três das tuas regras essenciais. – A voz rouca e entaramelada sentenciou para o espelho enquanto erguia uma das mãos e contava pelos dedos – Bebeste de mais, fizeste sexo com uma desconhecida e essa desconhecida tinha quase idade para ser tua filha. Estás a ficar velho, a perder qualidades e o respeito pela tua própria forma de vida!
Inclinou-se e passou água no rosto por várias vezes. Limpou-se e atirou com os papéis para o lavatório.
Endireitou-se mirando-se numa caricatura de pose altiva sentenciando:
-        Quem te viu e quem te vê!
Trôpego, abandonou a divisão apalpando as chaves do carro no bolso do casaco molhado e dirigiu-se para a saída do edifício.
À porta foi abordado por uma jovem magra, molhada como ele, que tremia de frio e excitação com os braços envolvidos no corpo numa tentativa de se aquecer. O cabelo que de tão loiro era quase branco, escorria sobre a cabeça e pingava copiosamente sobre os ombros. Os olhos de um azul celeste olhavam-no com receio e admiração enquanto se lamentava:
-        Fechaste o carro enquanto fui fazer xixi e molhei-me toda quando regressei para dar com o nariz na porta.
Ele olhou-a como se fosse a primeira vez que a via, passou a mão pelo rosto e esfregou os olhos com força.
-        Estás bem? - Ela insistiu tentando espreitar por entre os dedos dele e soltando um risinho acriançado – Bebeste um bocadinho de mais não foi?
Simão, oscilante, olhou-a e devolveu-lhe um sorriso triste e cansado:
-        É, miúda, bebi um bocadinho demais. Foi isso. Agora vou-me embora.
-        Há pouco não me chamavas miúda. – Provocou a jovem em tom irritado.
-        Tens razão, há pouco não. Só que há pouco eu era um pouco mais cretino do que sou agora. Desculpa-me – Passou-lhe a mão pelo rosto numa carícia antes de se afastar em passos largos para a saída.
Desconcertada, deixou-se ficar um pouco a olha-lo saindo calmamente, mas com pouca confiança:
-        Já tens o que querias não é, filho da puta? – Explodiu ao mesmo tempo que as lágrimas irrompiam dos olhos claros. – Também não vales nada, não passas de um velho caquético e baboso. Nem conseguiste dar a segunda!
Correu para a casa de banho, furiosa, soltando uivos de indignação e deixando boquiabertos aqueles com quem se cruzou.
Ele não escutou, ou ignorou-a e saiu para a chuva forte não se preocupando sequer em acelerar o passo. As gotas que lhe castigavam o rosto eram bem vindas e já nem sentia a roupa encharcada.
Abriu a porta do BMW cinzento metalizado com alguns anos e atirou-se para o assento do condutor. Pousou a cabeça no volante tentando recompor-se.
Tinha saído com alguns colegas de trabalho para jantar e festejar o aniversário de um deles, no fim, com outros três, decidiu terminar a noite numa discoteca e assim fizeram. Com o passar das horas e o consumo de álcool em crescendo, um a um foram-se indo embora restando apenas ele.
Quando estava quase para desistir também, reparou na miúda loira (não deveria ter mais de 18 anos... se os tivesse) que o olhava com insistência.
Não era muito bonita mas debaixo da intoxicação alcoólica os seus “instintos de macho caçador” foram ativados e num instante estavam a dançar na pista... tinha noção que poderia ter exagerado um pouco nos seus movimentos mas o que é certo é que pouco depois estavam aos beijos dentro do seu carro.
O sexo foi atrapalhado e louco como se lembrava ter sido noutras ocasiões semelhantes há mais anos do que gostava de reconhecer. Mas uma vez mais provou a si próprio que, ao contrario do que se diz, o álcool não tira a ereção... pelo menos não completamente. Enfim, não foi nenhum Kama Sutra, para ele chegava, se ela queria mais, temos pena. Talvez outro dia.
Agora, porém, sentia-se um pouco mais afetado pela bebida. Meteu a chave na ignição inclinando a cabeça por baixo do volante e viu um dos lenços de papel utilizados no chão. Com uma expressão de repulsa pegou-lhe com a ponta dos dedos e atirou-o pela janela.
Nesse preciso momento uma mão enorme entrou pela janela aberta, agarrou-o pelo cabelo curto e tentou puxa-lo pela abertura. Graças ao facto do cabelo ser curto conseguiu libertar-se para olhar, incrédulo para um homem baixo de olhar feroz que gritava algo e tentava agarra-lo novamente. Por trás dele, a miúda de há pouco exibia um ar de triunfo.
-        Mas que queres? Que é que te deu? - O assustado Simão afastava-se o mais que podia da mão sapuda que por sorte pertencia a um braço curto.
-        Vou partir-te as putas das ventas, filho da puta. Meteste-te com a minha irmã? - Gritava o energúmeno. - Sabes que é uma menor? Cabrão!
-        Eu?!? Ela é que se meteu comigo. - Enquanto isso conseguiu fechar o vidro e a mão precipitou-se rapidamente para o exterior para não ser trilhada.
Uma sequência de pontapés na porta e muros no vidro acompanhados de insultos foi a resposta do indivíduo.
Tremendo, debaixo da agressão teimosa que o veículo recebia, conseguiu por o motor a trabalhar e tentou abandonar o parque quase passando por cima agressor. A chuva no para brisas, a luz dos faróis e o chão molhado tornavam a tarefa de conduzir embriagado quase impossível.
Ao contornar a primeira fila de carros estacionados, o indivíduo, qual búfalo, saiu bufando do meio das viaturas e atirou-se sobre o capô. O aterrorizado condutor guinou algumas vezes atirando-o ao chão e acelerou.
-        Mas que sorte da merda. - Simão estava agora mais consciente, afastada a embriagues com o pavor que sentia – A cabra da gaja tinha que ter um filho da puta de um touro por irmão.
No inicio da nova fila de carros, uma vez mais a sua némesis surge à frente do veículo. Agora armado com um guarda chuva que atirou contra o para brisas ao saltar para o lado para evitar ser colhido.
-        Valha-me Deus! No que eu me meti. - Gemeu contemplando a racha no para brisas – Minha Nossa Senhora de Fátima! Se me livro desta não quero saber mais de gaja nenhuma. Só vou ter olhos para a minha mulher. Vou ser um modelo de virtude!
Já na chegada à cancela de saída do parque (que por acaso estava aberta) passou como um foguete para a estrada sem cuidados com o transito e ainda a tempo de perceber o vingativo individuo a sair do meio das viaturas estacionadas quase a apanha-lo outra vez.
Por sorte não havia veículos na estrada àquela hora tardia e conseguiu com alguma dificuldade e manobras perigosas a chiar os pneus estabilizar o automóvel para circular na faixa de rodagem certa.
-        Fonix! - Gemeu – O que me havia de calhar no “fim da festa”. Os olhos seguiam constantemente para o retrovisor com medo de divisar alguém a segui-lo. - Parecia o puto do Rocky. Cabrão!
Ainda com as mãos e as pernas a tremer, a velocidade a que se afastava do local fazia-o gradualmente sentir-se mais seguro.
Escapara de uma situação perigosa apenas com um para brisas estalado e algumas amassadelas na chapa. Muita sorte.
-        Só vou ter olhos para a minha mulher... - Reiterou – Modelo de virtude...
Segurava o volante com força reduzindo, mas não parando, nos semáforos vermelhos enquanto pensava na sua promessa.
-        Não posso começar já... amanhã é dia de estar com a doce Eduarda.
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sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Traição I

Este texto é uma obra de ficção. Embora possa incluir referências a eventos históricos e figuras reais, a história, os diálogos e as interpretações são fruto da imaginação do autor. Qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, é mera coincidência.



Na penumbra da sala o silêncio impunha-se pesadamente apenas interrompido a espaços pelo crepitar do fogo na lareira.
Lá fora o vento rugia naquela tempestuosa manhã de Janeiro atirando as gotas de chuva com força contra a vidraça.
Ele estava afundado no sofá individual ao pé da lareira com os pés esticados sobre um pequeno banco e o olhar vidrado fixo perdido sobre o telemóvel que repousava na mesa de apoio.
O homem, já nos últimos anos dos quarenta, estava bastante magro e com olheiras profundas no rosto pálido. Os fios de prata no cabelo ondulavam na luz errática da fogueira.
Estremeceu com o súbito toque do telemóvel. Aquela melodia escutada tantas vezes trouxe-lhe memórias de ocasiões felizes... e outras nem tanto.
No ecrã do equipamento o rosto sorridente de um homem de cabelos desgrenhados claros. O nome “Ricardo” piscava ao ritmo da musica.
Após uns segundos de hesitação, soergueu-se, clicou para atender e encostou o telemóvel ao ouvido sem falar. Do outro lado uma voz grave e enérgica interpelou:
-        Olá bom dia dorminhoca. Tudo bem?
-         Bom dia... - A resposta foi rouca e arrastada e do outro lado fez-se um silêncio fruto da surpresa de não ser a pessoa esperada. - Desculpa, sei que esperavas a Sandra.
-        Hmm, sim. Ela está? - A voz passara de decidida a cautelosa.
-        Não, ela não está. De facto estava mesmo aqui a pensar se deveria ou não ligar-te.
-        Ligar-me?!? - Havia incredulidade no tom – Mas nós conhecemo-nos?
-        Na verdade não, já agora, eu sou o marido da Sandra, Fernando.
-        Ricardo. - A resposta tardou um pouco – Mas continuo sem perceber...
Um sorriso cansado perpassou nos seus lábios:
-        Queria ter uma pequena conversa contigo, não te importas que te trate por tu, pois não?
-        Como disse, não nos conhecemos, mas não, não me importo.
-        É verdade, não nos conhecemos, mas temos uma coisa muito importante em comum... a minha mulher Sandra.
A afirmação soou como um tiro que provocou um momento de silêncio nervoso antes de uma patética tentativa de ganhar tempo:
-        Como? Não estou a perceber.
-        Não adianta negar. - O sorriso alargou-se – Eu sei de tudo. Os encontros nos motéis, os jantares, os passeios nos jardins... até a conferência há dois meses atrás em Londres...
Nem o respirar se escutava no outro extremo da comunicação.
-        … de todas as formas não te posso censurar. Ela é uma mulher muito bela e inteligentíssima,  uma combinação irresistível.
-        Mas... quando soubeste? - Não adiantava negar.
-        Oh, já sei há muito tempo. Quase que posso dizer desde o início.
-        Não posso crer... e não disseste nem fizeste nada? Há quanto tempo achas que aconteceu?
-        Deverá fazer dois anos em Março. Estou certo?
O silêncio do interlocutor consentia.
-        No inicio não me apercebi de nada, claro. Nada pelo menos que me fizesse suspeitar disto. - Fernando continuou –  Apenas, de repente, a nossa relação morna de um casal da nossa idade com muitos anos de casamento, tornou-se muito mais ativa sexualmente. Como já não era há muitos anos. - Limpou uma lágrima que correu no rosto – Ela procurava-me mais frequentemente e não se negava tantas vezes aos meus “avanços”.
A chuva parara entretanto e o latido de um cão ouviu-se trazido pelo vento que amainara.
-        Eu estava feliz, ela estava feliz, como poderia suspeitar? Nem reparava nas frequentes trocas de SMS, no falar mais baixo ao telemóvel em algumas circunstancias... estava cego.
O suspiro que se seguiu saiu mais audível do que pretendera:
-        Até que um dia, ao chegar a casa mais tarde que eu e a tirar as coisas da carteira, vi que trazia amarrotado um pano negro... onde consegui divisar as rendas. Mesmo através da sua atrapalhação fiquei sem qualquer dúvida que trazia, amarrotadas na carteira as calcinhas que vestira naquela manhã... Porque traria ela as calcinhas na carteira? Porque as tiraria?
-        Poderiam haver outros motivos para além de... - Ricardo tentou ajudar.
-        Pois poderia. Por isso não poderia ficar com a duvida. Ela disfarçou e escondeu... e eu fingi não ter reparado.
-        Ela deve ter pensado que não viste...
-        Mas vi. E andei louco de dor e confusão por uns dias atento a todos os seus movimentos, atitudes e horários... cada vez se aprofundavam mais as minhas suspeitas. Até que um dia à hora do almoço fui para a rua em frente à escola onde ela trabalha e esperei. Não tardou que a visse... e te visse com ela.
-        Sim, almoçamos muitas vezes juntos.
-        Para saber a extensão “do problema” contratei uma pessoa para a seguir durante uma semana e dar-me um relatório; fiquei a saber mais do que o que queria, o relatório era extenso o suficiente para incluir fotos, horários, os motéis e restaurantes que frequentavam e a altura aproximada em que começaram a ser vistos juntos. Um bom trabalho em suma.
-        Nunca nos apercebemos de nada...
-        Como eu disse, um bom trabalho. Mas o que me deixava louco era a sua naturalidade, a facilidade e o prazer com que fazíamos amor, a sua vontade e carinho. Parecia que continuava apaixonada por mim...
-        E continua. Ela disse-mo várias vezes. Sempre que lhe pedia para te deixar e vir viver comigo. Nunca o quis, dizia que te amava demais para poder viver sem ti e que o que existia entre nós era uma paixão que ela esperava que passasse um dia.
Foi a vez de Fernando ficar em silêncio por uns minutos. Ambos os homens calados a escutar a respiração do outro através do telemóvel.
-        Por fim acabei por me conformar. - Retomou a narrativa. - Aceitei que ela seria discreta o suficiente para me envergonhar e aceitei que deveria apreciar cada minuto da sua atenção, cada beijo e cada carícia como dádivas que poderia perder a qualquer momento.
-        Foi precisa muita coragem para uma decisão dessas.
-        Não não foi. Muita covardia isso sim, medo de ficar sem ela, sem a mulher que amo. Medo que se fosse e não tornasse mais. A vida sem ela seria insuportável. Mas nos últimos tempos é assim que tem sido mesmo com ela, insuportável.
-        Daí esta chamada. - Ricardo concluiu – Concluíste que não consegues viver assim e vens pedir-me que me afaste.
-        Falo-ias?
-        Se isso for o melhor para ela... sim. Também vou sofrer imenso. Deixei a minha mulher há uns meses porque achei que facilitaria a decisão da Sandra mas ainda não lhe disse.
-        Temes pressiona-la?
-        Sim, ela é adorável mas sob pressão é imprevisível. - Sentiu-se o sorriso na voz.
-        Consigo perceber que também a amas, não se trata apenas de um caso.
-        Não, não é. Desde o início, desde o primeiro riso, as primeiras palavras, fiquei completamente preso a ela. Julgava que depois de uma certa idade já não era possível uma paixão com tal intensidade.
-        E aqui estamos nós os dois... apaixonados pela mesma mulher.
-        Não tenho coragem de continuar a fazer-te o mal que temos andado a fazer. Até aqui achava que não sabias...
-        Que era um corno feliz...?
-        Não, nunca pensamos, pensei, em ti nesses termos. Eras apenas o outro que a impedia de vir para mim de vez.
-        Agora não interessa mais, não vale a pena estarmos a discutir sobre isto.
-        Que se passa? Zangaram-se? - O tom de voz não conseguia disfarçar a esperança.
As lágrimas corriam agora livremente pelo rosto de Fernando.
-        Não, caro amigo, a Sandra teve um acidente de automóvel esta noite quando regressava de tua casa. Faleceu de madrugada no hospital... O funeral é às 9h de amanhã e o corpo encontra-se na capela do hospital. Se quiseres podes aparecer... todas as pessoas que a amavam são bem-vindas.
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