quinta-feira, 23 de maio de 2024

Lançamento "Depois das Velas se Apagarem"


 

Ao longo dos últimos anos, fruto das participações em antologias e das publicações em sítios da “internet” e no meu próprio blogue, escrevi uma abundante quantidade de contos, que periodicamente organizo e publico em livro.

Por esta razão, “Depois das Velas se Apagarem” é um livro composto por uma compilação desses contos, nunca publicados em livros exclusivamente meus e orientados para um tema. O primeiro conto, “Na Pele do Lobo” foi parcialmente publicado eletronicamente, em episódios, mas a história é consideravelmente maior e poderá aqui usufruir da sua totalidade.

Apesar do título, algo tétrico, não se trata de um livro de terror, mas sim da luz, ou da ausência dela e, ao longo das suas mais de trezentas páginas, os assuntos abordados são os mais diversos que possam imaginar.

“Depois das Velas se Apagarem”, entramos no mundo da escuridão, ou daquilo que não é visível com a luz.

Se “Na Pele do Lobo” a componente sobrenatural é visível na forma de uma terrível epidemia que grassa em volta de um remoto mosteiro do século XIII, outros há como, “Por Acidente”, no qual a escuridão paira nos nossos dias, no comportamento insano movido pelo ciúme. Também há espaço para outros, como “Candy” que traz à luz uma presença doce, mas que não é deste mundo, ou como “Para um Bem Maior” ou “A Promessa” onde, uma abordagem bem disposta, se confunde a falta de sorte com a subtil mão do sobrenatural.


Por Um Bem Maior

O que é importante frisar aqui é que a escuridão pode estar no sobrenatural, mas também na alma humana, individualmente, como em “Brindemos a Laurinda” ou “Água e Sangue” ou coletivamente, quando são as luzes da civilização que se apagam, como em “Desolação” ou “Na Margem do Lago”.

É por esta razão que nem toda a maldade é sobrenatural.

Acompanhe-me nesta história e venha conhecer personagens mágicos e fascinantes, como “Lavínia”, almas errantes como em “Expiação” e em “Inquietação” ou mesmo uma velha lenda trazida à luz, como em “A Moura do Castelejo”.


A Moura do Castelejo


Não podemos, porém, esquecer a construção de uma lenda; “Alva, a Bela”, passada durante a ocupação romana da península ibérica e mais especificamente de trás-os-montes, tem todos os ingredientes para ser uma história contada por gerações no desfiar dos anos. Em pleno ruir do império, as invasões bárbaras e o seu impacto no quotidiano de uma villa romana, são o pano de fundo para o aparecimento de um personagem cuja simples presença irá moldar para sempre as vidas e a consciência daquelas pessoas e das gerações futuras.

Espero que gostem tanto como eu desta minha nova obra e apreciem cada uma das histórias e dos seus personagens. Sintam-se parte dos mundos que criei e vivam os ambientes descritos e abram bem os olhos para ver o que há “Depois das Velas se Apagarem”.

Obrigado pela vossa leitura e preferência.

Saber mais ou encomendar “Depois das Velas se Apagarem”

 As encomendas podem também ser feitas por e-mail (manuel.amaro@debaixodsceus.pt) ou pelas redes sociais do Facebook ou Instagram. O importante é ler. 


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sexta-feira, 29 de março de 2024

Os Refugiados

 

 
Na Madrugada dos Tempos - Parte 20

 

A guerra é uma parteira: das entranhas do mundo faz emergir um outro mundo.

Não o faz por cólera nem por qualquer sentimento.

É a sua profissão: mergulha as mãos no Tempo,

com a altivez de um peixe que pensa que ele é que faz despontar o mar.

Mia Couto

Escritor e Biólogo moçambicano

Nascido em 1955

 

Mirsulo e a sua comitiva partiram há algumas semanas, levando consigo o ferido Tibaro, agora em franca recuperação.

Para Barinak fora um encontro muito produtivo. Apesar de não terem conseguido saber como fazer o tão desejado cobre, obtiveram um bom acordo com o sal, que seria trocado por pontas de lança e de seta. Além disso, de modo a conseguir trazer mais sal de cada viagem, Mirsulo iria entregar dois burros já domados e levou com ele um homem que iria aprender a lidar com os animais. Seriam pagos com a primeira entrega de oito cestas de um cotovelo de largo e dois de fundo, cheias de sal.

É verdade que socorreram um estranho e fizeram tudo para o ajudar, sem esperar nada em troca, mas essa era a lei de quem habita grandes espaços desertos. A vida é escassa e preciosa, por isso, os humanos devem ajudar-se reciprocamente e, mesmo na caça, só matar aquilo que se planeja comer.

Mergulhado nestes pensamentos, Erem ajudava a abrir a cova para mais um monólito, que chegaria dentro de dois dias. Já se avistava, numa colina a norte, o grupo de dez diligentes homens e mulheres que o fazia rolar sobre troncos. Seria o oitavo, de um total de vinte e quatro. O chefe do clã mudava assim o tema das suas preocupações; a ideia inicial era ter dez monólitos quando fizessem as festas das fogueiras[1], mas estavam com um atraso de dois. Não era grave, mas o décimo monólito seria o representante da estação e não estaria lá.

A festa das fogueiras era uma ocasião importante; seria escolhido um casal de adolescentes que envergaria respetivamente uma pele de auroque macho e uma de fêmea. O macho, ostentando enormes cornos, dançaria com a fêmea e simulariam o acasalamento. As crianças correriam em volta deles atirando as flores colhidas nos dias anteriores, para a união ser abençoada e produza muitas crias para alimentar os humanos. Ao anoitecer, as fogueiras acender-se-iam em vários pontos da aldeia e os jovens, para mostrar a sua força e coragem, fariam saltos mais ou menos acrobáticos por cima delas. Era uma noite de alegria e felicidade onde se festejava o milagre da vida e da fecundidade… naquela noite seriam concebidas algumas crianças que haveriam de nascer ao aproximar-se o fim do inverno. Naci, que partira entretanto para Hatiweik a fim de ir buscar a sua nova esposa, iria apresentá-la a Barinak nessa altura, buscando a bênção de Swol.

Pelo canto do olho, o chefe do clã viu um dos miúdos do grupo de Tailan aproximar-se em corrida.

— Erem! — A voz esganiçava fez-se ouvir ainda antes de parar a corrida. — Estão a chegar… — estava ofegante —… estão a chegar…

— Quem está a chegar? — Ele fingiu um ar aborrecido. — Fala, rapaz!

 — Muita gente… — o miúdo ainda não conseguira recuperar o fôlego —… vem aí muita gente… com trouxas e animais… muitos! Estão a ir para a casa da reunião.

Sem perceber que tipo de invasão seria aquela, Erem meteu-se ao caminho em passos largos, o que resultou num abandono geral do trabalho; todos o seguiram, mortos de curiosidade.

Ao aproximar-se da casa da reunião estremeceu. Havia um grande grupo de pessoas, como o rapaz dissera, com trouxas, crianças e animais. Eram principalmente mulheres, mas havia alguns homens entre elas. Sem contar, eram quase tantos quantos os habitantes de Barinak. Não sabia o que dizer e caminhou entre eles, atordoado, olhando-os e sendo olhado com curiosidade.

— Erem! — Uma voz feminina chamou de entre os estranhos. — És tu, Erem?

Procurou a origem da voz e localizou uma mulher, já entrada nos anos, bastante magra e com o rosto tisnado do sol e coberto de rugas. Havia qualquer coisa de familiar nela.

— Erem! — Ela insistiu. — És mesmo tu! Sou Cira!

O nome acertou-lhe como uma pedrada e uma onda de recordações; era sua tia, uma das irmãs de Birol. Correu a abraçá-la e interpelou-a com uma enxurrada de perguntas. Queria saber que estava ali a fazer, onde estava o resto do clã, quem era aquela gente…

Gradualmente, mais dos habitantes de Barinak apareciam e vinham questionar os recém-chegados. Havia estranheza por verem o seu chefe a conversar alegremente com um deles, mas alguns reconheceram a irmã de Birol e saudaram-na mais ou menos efusivamente.

Cira tinha muito que contar. Com lágrimas nos olhos, começou a narrativa:

“Após nos separarmos, seguimos sempre na direção da nascente do lago salgado. Retomamos a vida nómada, Birol estava obcecado em ver a grande catarata, para desagrado de alguns dos nossos que foram abandonando o clã assim que passávamos perto de alguma povoação.

O lago salgado, porém, crescia imenso a cada mudança de lua. Encontrávamos várias aldeias abandonadas e a terras, começando a salgar, estavam repletas de vegetação morta e despovoadas de pessoas e animais. Começamos a passar fome e o meu irmão não queria ouvir as vozes do clã que diziam para nos afastarmos do lago.

Por fim, chegamos a uma área muito extensa de terras encharcadas. Já não tínhamos comida há alguns dias e a água potável estava a acabar, toda a que nos rodeava era salgada ou cheirava mal. Acabamos por perceber que havíamos percorrido uma grande distância a embrenhando-nos num enorme pântano. A passagem que usamos foi-se estreitando até chegar a um sítio sem saída. A única solução era recuar, virados para Ner[2] até conseguirmos uma passagem que nos tirasse dali.

Birol já estava com febre e sentindo-se fraco há algum tempo. A fome e a sede que passamos naquela armadilha mortal acabaram com ele e com mais uns quantos dos mais fracos. Quando finalmente encontramos uma passagem, estávamos reduzidos a metade dos que começaram e mais mortos que vivos. Logo a seguir encontramos uma nascente de água doce e foi a nossa salvação.

Estávamos desvairados e perdidos, sem saber o que fazer. Retomamos a caminhada seguindo as estrelas-guias até encontrar uma povoação. Mas eles não nos quiseram lá. Tinham um muro de troncos em volta das casas e só nos deixavam montar as tendas no exterior. Podíamos entrar durante o dia, mas ao anoitecer tínhamos de sair.

Aí aconteceu a divisão; o meu irmão mais novo, Okan, revoltado por termos sido guiados numa caminhada para a morte, não quis mover-se mais; perdera a mulher e dois filhos, restava-lhe apenas uma menina. Ficaria ali, o povo da aldeia acabaria por os aceitar. A prima Ezgi e a maioria escolheu continuar para poente. Eu e o meu filho Demir e a mulher, Gizem, decidimos que voltaríamos para trás à tua procura. O Clã do Rio Brilhante, depois de tantos invernos a crescer e a tornar-se um dos maiores, destruiu-se completamente. O crescimento do lago salgado e a insistência louca do meu irmão reduziu-nos a nada.

Depois disso temos caminhado por essa terra imensa até que, no inverno passado, parámos numa povoação chamada Annakos a poente daqui. Já tínhamos ouvido falar de Barinak por caçadores e pastores, que ficava a poucos dias de distância e do seu amado chefe. Embora não soubéssemos o nome, já suspeitávamos de quem se tratava. Mais uns dias e empreenderíamos a viagem para cá. Aconteceu que, uma tribo nómada de Ner atacou a povoação, matou muita gente e roubaram tudo o que puderam levar. Perdemos Demir nesse ataque e acho que toda a população se dispersou, deixando Annakos vazia.

Pela minha parte, se tinha de fugir, que fosse para junto do meu sobrinho e da minha família. Esta gente que me acompanha sabia da minha intenção e resolveu seguir-me. Também eles vieram ao som das histórias do santuário que aqui se constrói e que protege este povo.”

Erem olhou o aspeto desolado daquele grupo, com carinho, mas, ao mesmo tempo preocupação. Era um número muito grande de bocas a alimentar.

Alim chegou, espantado com a quantidade de pessoas que ali via reunidas. Foram chamá-lo que estava junto de Lemi, de quem se tornara muito amigo. Este último não viera porque estava cada vez mais debilitado e já não andava. Tailan apareceu quase a seguir, acompanhado pelos cerca de cinco outros homens que atualmente o seguiam para todo o lado. Falava-se em lutas entre os “estrangeiros” de Barinak, a liderança dele era contestada.

— São nómadas? — Perguntou Alim diretamente a Erem.

— Não. — Respondeu o chefe do clã sem hesitar. — A maioria vem de Annakos, já estive lá, numa das minhas últimas caçadas. — Foram atacados e a aldeia foi destruída.

— Querem ficar aqui? — Tailan mostrou-se desagradado. — Não podemos aceitar tanta gente. Vejam só; quase só mulheres e crianças! Não podemos alimentar tanta gente.

Humilde e pacientemente, o grupo de refugiados mantinha-se praticamente em silêncio. Continuavam sentados no chão, agarrados aos seus pertences, olhando com esperança para os três homens que decidiriam o seu futuro.

— Algumas crianças já são crescidas, já trabalham. A maioria das mulheres são jovens, de certeza que poderão alimentar-se. Trazem alguns homens e alguns animais… — Alim observou, aproveitando o que de bom se conseguiria obter.

— Teremos de ver o que podemos fazer. — Disse Erem pensativamente.

Zia e Nehir aproximaram-se, também surpreendidas com aquela quantidade de estranhos de uma só vez. Ambas reconheceram a velha Cira e logo se abraçaram e beijaram-se, chorando de alegria com o reencontro. A curandeira, no entanto, começou de imediato a verificar entre os refugiados os que estavam feridos ou doentes.

— Mas… — Tailan estava espantado. — Estão mesmo a pensar em aceitá-los? Que faremos a tantas bocas?

— São bocas, mas também são braços e cabeças. — Erem olhou diretamente o amigo. — Estranho que sejas quem mais reclama, quando, também tu, foste um estranho em Barinak.

Ele não gostou de ser recordado e virou o rosto, contrariado, vendo chegar Fikri e Remzi, os filhos de Lemi, chamados da equipa que arrastava o monólito. Sabia serem críticos daqueles que continuavam a chamar estrangeiros e apelou à sua opinião: — Fikri, o teu primo pensa receber esta gente em Barinak. Que te parece?

O visado e o irmão olharam demoradamente para o grupo, aparentando não ter reconhecido a tia, pois eram muito novos quando saíram do Clã do Rio Brilhante. Quando os olhos de Fikri tornaram para o membro do conselho que o questionava, já a habilidade diplomática herdada de Lemi se sobrepunha à sua habitual impulsividade; percebera o conflito e que tinha de tomar uma posição. Ou estava do lado do primo, ou daquele homem, que detestava e admirava ao mesmo tempo.

— Porque está o nobre Tailan preocupado com mais estrangeiros a chegar aqui? — Ele colocou o braço sobre o ombro do irmão mais novo para que este não se manifestasse. — Todos sabem a minha opinião, não ma pediram quando vos aceitaram, mas também não era necessário, porque Erem é o nosso chefe e confiamos nas suas decisões. — Exibiu um pequeno sorriso para o primo. — Além de tudo, apesar de eu não gostar, os estrangeiros em Barinak têm sido muito úteis.

— Veremos o que dirá Naci quando regressar. — Respondeu Tailan com azedume.

— O meu filho, foi buscar a sua nova esposa fora do clã. — Ripostou Erem. — De resto, também pessoas do teu povo procuraram homem ou mulher entre nós e os nossos entre os vossos. Não defendias tu a união?

O rosto de Tailan fechou-se contrariado e cruzou os braços sobre o peito. Sempre fora um homem impressionante, que respirava energia e liderança. Agora, permanentemente seguido pelos seus protetores, estava habituado a que a sua vontade se impusesse sem necessidade de se justificar.

— Entre os nossos povos, sim. — Ele respondeu lentamente, sopesando cada uma das suas palavras. — Entre aqueles que vivem, nascem e crescem em Barinak.

Zia aproximou-se, entretanto, sentindo a tensão que se formava. Mesmo que inconscientemente, Tailan e o seu séquito estavam perfeitamente agrupados frente a frente com os vários elementos do Clã do Leão das Montanhas.

— Verás, que será bom para todos. — Erem deu um passo em frente e pousou conciliadoramente a sua mão sobre o braço de Tailan. — Não vês aqui novas esposas para os nossos homens? Crianças que em pouco tempo serão caçadores, pastores, pescadores? Mais braços para ajudar a construir o santuário. Em breve não se distinguirão de nós.

— O que eu vejo, — o chefe dos estrangeiros replicou com uma careta e sem perder a pose defensiva —, é uma grande quantidade de bocas a alimentar e um grupo perseguido por inimigos. Sabe se virão atrás deles? Eu não os quero junto de mim. — Com esta sentença, virou costas e afastou-se rudemente, seguido pelo séquito de guarda-costas.

Erem olhou para Zia, que se mantivera calada todo o tempo e depois tornou para o grupo que se afastava. Tailan, porém, ainda tinha mais um aviso e interrompeu brevemente a marcha para o fazer: -- Devias estar preocupado era em preparar para te defenderes, em vez de construir um santuário e estar a receber quem não se pode defender sozinho.



[1] Correspondia aproximadamente à primavera

[2] Norte

         
    

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quinta-feira, 29 de fevereiro de 2024

Forjando Alianças


Na Madrugada dos Tempos - Parte 19


Para vencer - material ou imaterialmente - três coisas definíveis são precisas: saber trabalhar, aproveitar oportunidades, e criar relações. O resto pertence ao elemento indefinível, mas real, a que, à falta de melhor nome, se chama sorte.

Fernando Pessoa (1888-1935)

Escritor português

 

Mirsulo estava feliz. Aqueles homens e mulheres, apesar de culturalmente mais atrasados, recebiam-nos como irmãos e, principalmente, salvaram a vida do primogénito. É verdade que tinha muitos filhos das suas quatro esposas, mas Tibaro, além de mais velho, sempre fora o seu favorito. Era aquele que lhe recordava ele próprio, quando era mais jovem.

Olhou Erem de perfil, enquanto este contava uma peripécia de caça a Savirio. Era um rosto de linhas firmes, nariz forte e queixo bem delineado. Os seus olhos castanhos olhavam diretamente nos do seu interlocutor, sem se desviarem. Gostou daquele homem assim que o viu; alguém que se preparava para se defender de um grupo de jovens guerreiros armados com um bando de velhos, mulheres e crianças…, mas alguém que se defenderia mesmo assim, nunca se renderia sem luta. Naci, o filho, era sem dúvida da mesma cepa, embora talvez um pouco mais impetuoso.

— Tenho uma oferta para te fazer. — Mirsulo interrompeu Erem, que o olhou com curiosidade. — Salvaste o meu filho, um estranho, sem esperar nada em troca. Quero oferecer-te uma filha! Desejo que o teu filho Naci, sei que não tem mulher, tome como esposa Tuana, uma das minhas filhas. Será muito bom ter um neto com o sangue de tal bravo.

Se Savirio o olhou com incredulidade, Erem olhou com satisfação.

Foi o curandeiro quem primeiro reagiu à proposta: —Uma das tuas filhas? Para viver no meio… deles?

— Sim. — O chefe hati estava decidido e encarou o seu companheiro de viagem com uma expressão que o silenciou. — Mandarei um dos meus construtores para construir uma casa digna da filha de Mirsulo. — Depois tornou o olhar para o chefe de Barinak. — Isto, se concordares.

— Será uma grande alegria receber a tua filha, que será como se a minha fosse. — Afirmou Erem alegremente. — O teu construtor terá muitos ajudantes.

— Quero também propor-te outra troca. — Mirsulo estava imparável. — Vejo, pela variedade de carnes salgadas que me apresentas, que tens acesso a abundância de sal; que queres trocar por alguns cestos de tempos em tempos?

— O sal que temos vem da grande água a dois dias daqui. — Esclareceu Erem simplesmente. — Os comerciantes que o tiram da água trocam a qualquer um.

— Sim, eu sei. — O chefe hati sorriu. — Mas fica a dois dias de viagem para ti, para mim são mais de quatro e outros tantos de volta. Antes, íamos a uma mina de sal a menos de três dias para Ner [1]de Hatiweik. Há algumas luas, um grande bando de nómadas apossou-se da aldeia e da mina e não negoceiam, ou simplesmente pedem coisas impossíveis. Se trocasses sal comigo, os meus carregadores fariam apenas dois dias de viagem. Que quererias em troca?

Erem fitou o rosto largo e sincero do seu homólogo enquanto pensava se deveria pedir já o que lhe interessava, ou se começaria por outra coisa qualquer. Após uns segundos, como impaciente que era, resolveu ir logo diretamente ao assunto: — Quero saber como se consegue isto. — Apontou a reluzente placa de cobre, decorada com gravações, que Mirsulo trazia ao peito.

Savirio olhou com espanto para Erem e depois para o seu chefe, com a expressão: “Eu não te disse?”

O chefe dos hati olhou para a placa enquanto a acariciava pensativamente. Depois, num gesto rápido, tirou a tira de couro com que a suspendia ao pescoço. Sob o olhar atento do seu curandeiro e, exibindo um sorriso nervoso, colocou-a em Erem que ficou visivelmente agradado.

Lemi bateu as palmas com satisfação pelo gesto.

— Salvaste o meu filho! — Reafirmou Mirsulo gravemente. — És meu irmão! — Agora diz-me, irmão, queres o quê exatamente? Estes adornos? — Exibiu as pulseiras que subiam em espiral pelos braços em grossos fios.

— Preciso de armas melhores. — Respondeu Erem, aliviado por poder falar francamente. — Temos sido atacados e roubados por estranhos que trazem armas como as vossas; as lanças espetam-se melhor e as facas não se partem e são mais compridas.

— Obter o cobre não é fácil. — Explicou o chefe hati. — É precisa grande magia para roubar o sangue de fogo das pedras.

— Magia? — Lemi e Erem surpreenderam-se.

— Sim, claro, como acham que conseguiria fazer uma coisa tão dura como pedra? — Savirio adiantou-se. — Só os mágicos é que atiram pedras para o fogo e transformam-nas no sangue da terra. Um líquido grosso que corre em brasa e queima tudo em que tocar.

— Também temos sido atacados aqui e ali por esses bandidos. — Informou Mirsulo, desviando a conversa. — Não se atrevem muito próximo de Hatiweik porque sabem que está bem protegida atrás dos muros. Mas atacam as casas dos agricultores que existem em volta, matam, roubam e destroem tudo. São os mesmos que se apoderaram das minas de sal. Os meus espiões dizem que vieram de Ner, são muito numerosos e não param de chegar mais.

— Deveríamos tê-los atacado quando se apoderaram das minas e eram menos. — Censurou Savirio. — Conforme te recomendaram o teu filho e os chefes guerreiros.

— Mesmo quando eram menos, — Mirsulo não ficou contente com a censura do curandeiro —, continuavam a ser muitos e morreriam muitos dos nossos para os destruir. Os nossos homens estão habituados a exigir tributos a comerciantes reticentes, castigar ladrões e a expulsar desordeiros. Lutar contra guerreiros armados e acostumados à guerra    será muito diferente.

— Antes o problema era difícil, agora é praticamente impossível… — insistiu Savirio.

— Chega! — Ordenou o chefe hati estendendo a mão com a palma para baixo na direção do seu subordinado. — Se se tratasse de um simples bando de salteadores já estavam eliminados. Mas são um número muito grande de guerreiros, que correm nas costas de cavalos, armados com lanças e flechas.

— Cavalos? — Lemi arregalou os olhos? — Como conseguem subir nas costas dos cavalos?

— Também não sabemos. — Mirsulo mostrou-se desanimado. — Sempre usamos burros como animais de carga, alguns deixam-se montar, principalmente aqueles que nascem dos que apanhamos selvagens. Mas os cavalos, é quase impossível apanhá-los com vida, quanto mais montá-los.

— A solução é unir forças. — Sugeriu Lemi, calando-se de imediato e desculpando-se com um olhar a Erem.

— Estariam prontos a lutar ao nosso lado? — Mirsulo mostrou-se interessado. — Há outros povoados nossos amigos… realmente, se nos uníssemos todos…

— Teria de falar com todo o meu povo. — Erem fez uma expressão de desagrado. — Não poderia simplesmente dizer-lhes para caminharem para a morte.

— Ou para a vitória. — Acrescentou Savirio.

Fez-se um silêncio pesado entre eles enquanto cada um se refugiava nos seus próprios pensamentos.

Erem interrompeu as meditações: — Mas quanto ao cobre. Que temos de fazer para o conseguir?

— Em troca do sal… — começou Mirsulo fazendo uma expressão pensativa —…, poderemos dar-vos pontas de seta e de lança. O problema é que não há tanto cobre como possas pensar. Não são quaisquer pedras que os mágicos querem, têm de ter uma cor e um aspeto que eles exigem. Temos de escavar muito para encontrá-las, outras vezes, são trazidas por comerciantes provenientes de Hewsos[2], mas não dizem de onde vieram exatamente.

Zia, ultrapassado o aborrecimento, regressou ao convívio e sentou-se pesadamente ao lado de Savirio, para desagrado deste. Erem dedicou-lhe um sorriso triste a que ela correspondeu.

— Os teus mágicos poderiam ensinar-nos quais as pedras a procurar… — sugeriu Lemi, espreitando por cima da cabeça de Zia.

O curandeiro hati voltou a deitar um olhar de alarme ao seu chefe.

— Estamos a falar sobre o cobre. — Erem informou a mulher. — Mirsulo diz-nos que são mágicos que produzem o cobre, queimando umas pedras.

— Nunca ouvi falar dessa magia. — Entendida no assunto, a xamã emitiu a sua opinião. — O poder dos deuses é pedido em muitas ocasiões, nem sempre conseguido. Que fazem essas pedras queimadas?

— Transformam-se no sangue da terra! Vermelho, fumegante e queima tudo em que toca. Quando arrefece fica duro como a pedra. — Explicou Savirio, com ar de superioridade.

— E qual o deus que abençoa essa transformação? — Questionou ela assumindo a mesma postura.

— Mas que queres saber tu, mulher, destes assuntos de homens? — A agressividade do curandeiro regressara.

— Não me vais voltar a fazer sair da minha própria casa! — Rosnou Zia entre dentes, mas suficientemente alto para que os mais próximos ouvissem. —Tal como o sol e a lua, também o homem e a mulher foram criados diferentes e iguais no Primeiro Amanhecer! Se Da Pater é o deus pai, Da Mater é mãe, irmã e esposa! A mulher não está abaixo do homem, mas a seu lado! — Os seus olhos pareciam soltar chispas na direção de Savirio. — Eu sou a sacerdotisa de Swol, xamã do Clã do Leão das Montanhas. Sou a voz e a mão do deus. Sou xamã, caçadora, guerreira e mãe, mais do que tu alguma vez serás! És meu convidado e ouço o que dizes, tu deves respeitar a mim e a minha casa!

— Ouço-te, esposa de Erem e xamã! — Mirsulo tomou a dianteira rapidamente, calando Savirio com um gesto. — O curandeiro-maior do meu povo respeitará a tua posição, apesar de seres mulher e isso ser diferente dos nossos costumes. — Depois olhou diretamente para ele. — Se ele não se sentir bem, tem a minha autorização para se retirar. Não te voltará a afrontar.

Savirio corou da cabeça aos pés e olhou o seu chefe de soslaio por várias vezes sem conseguir evitar de resmungar baixinho o seu descontentamento.

— Para responder às tuas perguntas sobre os deuses que presidem à transformação das pedras — retomou Mirsulo — é Tarunte, claro, deus da guerra do fogo e da vida.

— Tharun é o deus do trovão, da guerra e do fogo, sim. — Respondeu ela, corrigindo o nome. — Mas não o da vida. Da Pater e Da Mater criaram o primeiro homem e a primeira mulher, eles sim, os deuses da vida e puseram-nos à guarda de Swol e Mensis. O Senhor do Dia ilumina-nos e faz crescer as colheitas e os animais e a Senhora da Noite vela sobre a escuridão e guia a fertilidade da mulher que dá os filhos dos Homens.

— Se teu esposo permitir — num ato de apaziguamento, Mirsulo soltou uma das suas pulseiras de cobre em espiral e ofereceu-a diretamente a Zia, depois de um rápido olhar a Erem — recebe este penhor do meu respeito pela xamã e voz dos deuses do Clã do Leão das Montanhas.



[1] Proto Indo-Europeu: Esquerda (que acabará por ser o ponto cardeal norte) por oposição ao sol do meio-dia.

[2] Proto Indo-Europeu: Madrugada é uma das deusas do panteão, mas também um dos pontos cardeais que dará origem ao Leste.

 

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segunda-feira, 29 de janeiro de 2024

Confraternização

 
Na Madrugada dos Tempos - Parte 18

As culturas sobrevivem enquanto se mantiverem produtivas, enquanto forem sujeito de mudança e elas próprias dialogarem e se mestiçarem com outras culturas.
Mia Couto Escritor e Biólogo moçambicano
Nascido em 1955


Quando Mirsulo e Savirio entraram na casa da reunião, perceberam de imediato que não seria uma vulgar refeição aquela para a qual foram convidados.

Erem, por baixo da sua pele de leão, com a imponente cabeça da fera sobre a sua, usava peles novas e luzidias que repousavam sobre os ombros e antebraços, assim como uma túnica branca e limpa. Zia usava uma tiara com penas coloridas de várias aves e uma túnica decorada com riscas de várias cores pintadas à mão. Também os tornozelos, os pulsos e o pescoço ostentavam tiras de couro cuidadosamente entrançado.

Os restantes convivas, sentados no chão, em pedras ou toscos tambores de madeira, postavam-se na forma de um U, em volta da fogueira central, voltados para a entrada. Estavam também ataviados com as peles mais novas e aquilo que acharam de melhor. Apesar da maior parte do fumo se escoar pelo buraco no meio do telhado, havia uma atmosfera nublosa envolta nos aromas da carne que estralejava no fogo.

O barulho das conversas parou de imediato assim que os convidados Hati assomaram à entrada. Traziam as mesmas roupagens que, por si só, distinguiam-se em qualidade das dos seus anfitriões. Uma das jovens netas de Erem indicou os lugares entre o chefe e a companheira para os dois importantes dignitários e outros para Tibaro e os companheiros. Logo ao lado de Lemi e as suas duas esposas.

O chefe estrangeiro, antes de se focar nas pessoas que o esperavam, fez uma rápida apreciação da casa da reunião; paredes mais ou menos direitas, mistas de colunas de madeira e pedras desbastadas, os espaços preenchidos com lamas secas. Dois grandes troncos apoiavam o telhado, também composto por traves grosseiras e colmo.

De imediato, vários jovens de ambos os sexos, netos de Erem e Lemi, começaram a apresentar aos convidados travessas de madeira com tiras de carnes secas, carnes grelhadas ou mesmo cruas. Outras travessas traziam pequenos abrunhos e figos secos.

Todos continuavam calados, de olhos fixos nos convidados.

Ciente da atenção que recebia, Mirsulo sentou-se e sorriu para Erem e Zia, antes de fazer um gesto a Savirio para que o imitasse. Seguidamente, pegou uma das tiras de carne e começou a mastigar com satisfação, olhando para a petrificada audiência.

Este pareceu ser o sinal para que todos voltassem à normalidade e as conversas e risos voltaram ao salão como se nunca tivessem sido interrompidos.

Savirio estava contrariado por ser separado de Tibaro, que fora encaminhado para junto de Naci e os restantes filhos do chefe e por ficar junto de Zia que se portava friamente para com ele.

Os dois chefes conversavam sobre a casa da reunião, com Mirsulo a elogiar a força da sua arquitetura e a questionar porque as restantes construções não seguiam os mesmos moldes. Erem explicou-lhe em traços largos a ajuda prestada por Alim e Beki, porém, se a casa da reunião era uma obra para todos, onde todos colaboravam, as casas individuais eram trabalho de cada um e da sua família. Levaria mais tempo a assumir construções melhoradas nas casas mais antigas de Barinak, embora já as houvesse nas zonas recentes.

O chefe Hati não pareceu compreender o que lhe era explicado; para ele era bastante simples; diria a cada família que disponibilizasse um ou dois homens, que trabalhariam por alimentos e construir-lhe-iam uma boa e confortável casa.

Erem olhou-o com estranheza e disse que teria de caçar muitos dias para poder alimentar assim tantas pessoas.

— As pessoas deviam estar agradecidas por viver sob a proteção do déms pótis. — Desta vez até o mal-encarado Savirio interveio. — Tratando-se da casa dele, até poderiam trabalhar sem receber nada. De todas as formas, com o que recebe de todos os caçadores, pescadores e agricultores, tem alimentos mais do que suficientes para ele, a família e os trabalhadores.

— Não, não. — Negou Erem. — Já me falaram desse vosso costume, mas aqui as coisas são diferentes. Cada um trabalha para si e para a sua família. Juntam esforços para melhores resultados e aquilo que lhes é retirado trabalho é para alimentar os doentes, as viúvas e os órfãos.

— O que te impede de tirar mais um pouco? — Sorriu conspicuamente Mirsulo. — Não és tu quem decide?

— Sim, mas… — o chefe de Barinak começava a sentir-se desconfortável —… mando, porque estão todos de acordo que assim seja. Sabem que sou justo e olharei por eles quando precisarem.

— Precisamente. — O curandeiro estava cada vez mais interessado na conversa. — Esse trabalho, essa responsabilidade para com eles deve ser recompensada.

— Os outros podem não aceitar… — Lemi, que se mantivera calado até ali, aparentemente distraído da conversa, virou-se para os convidados. — … na certa revoltavam-se e quereriam escolher outro chefe.

— Para que te servem os homens que te são leais? — Mirsulo fez a pergunta a Erem, voltando-se depois para Lemi. — A própria família? Não terias o seu apoio?

— Aqui somos todos irmãos perante Swol! — Sentenciou Zia subitamente. — Fazer o que pedes é viver como as pulgas e os piolhos; a comer o que os outros produzem com o seu esforço!

— A mulher não devia falar sem que lhe fosse pedido! — Indignou-se Savirio, tomando a posição de uma criança amuada.

— Também nisso somos diferentes, Mirsulo de Hatiweik. — Indignou-se a Xamã, ignorando o curandeiro. — Swol criou o homem e a mulher diferentes, mas como duas partes da mesma coisa. As duas faces do mesmo rosto, as duas mãos ou os dois pés do mesmo corpo!

— Mas a boca é só uma! — Replicou Savirio. — Devias calar-te e não entrar na conversa dos homens!

Zia levantou-se intempestivamente.

— Calem-se… ambos! — Erem alterou-se, carrancudo. — Não quero discussões neste dia de festa.

A cacofonia de conversas cruzadas parou subitamente, quase em simultâneo, sob a ordem seca do chefe de Barinak. Todos se olharam confundidos e os elementos dos Hati trocaram olhares de avaliação e suspeição com os seus anfitriões. A tensão na sala subiu repentinamente e todos se perguntaram se aquele que estava sentado ao seu lado era um amigo ou inimigo.

— Savirio…! — Rosnou Mirsulo entre dentes, desagradado. — Deixa-me ser eu a falar.

— Não recebemos bem os nossos convidados. — Erem admoestou Zia num tom mais suave, apesar do seu rosto crispado. — Vamos perdoar-lhes a diferença de ideias e evitar discussões.

— Quando um convidado nos vem insultar na nossa própria casa… — ia continuar a xamã.

— Zia… — o chefe não terminou a frase, mas o seu rosto triste dizia tudo.

Ela virou-lhes as costas e saiu intempestivamente, percorrendo a sala em passos largos sob os olhares interrogativos de todos.

Savirio abriu a boca para dizer algo, mas o simples olhar furioso de Mirsulo fê-lo fechá-la sem emitir um som e retornar ao seu mutismo amuado.

Erem deitou um olhar rápido a todos os convivas; bastaria uma palavra sua e a sala transformar-se-ia num campo de batalha. Ergueu-se com um sorriso e fez um gesto na direção da entrada. Seis homens e mulheres fizeram a sua aparição, três deles ressoando peles esticadas sobre molduras de madeira, dois saltavam e gritavam enquanto abanavam cabaças cheias com pequenos seixos e outro soprava notas agudas através de um osso furado.

Com tão intempestiva entrada, a audiência logo esqueceu o pequeno incidente e batia as palmas e soltava gritos de incentivo. O entusiasmo aumentou e houve exclamações de espanto quando um grupo de vários guerreiros entrou em corrida e começou a executar um conjunto de saltos e cabriolas em volta e por cima da fogueira.

O chefe e o curandeiro Hati assistiram em silêncio às acrobacias e presenciaram o drama traumático de dois indivíduos cobertos de peles, onde quase só se viam os olhos, a “matar” um e depois outro dos dançarinos e fugirem com vários objetos. Seguidamente os restantes perseguiram-nos, sempre em redor da fogueira e travaram uma acrobática luta que resultou na derrota dos “peludos”. Os vencedores colocaram um pé sobre os vencidos e soltaram urros de vitória ecoados pela vibrante assistência e um crescendo da cacofonia dos instrumentos musicais.

Tão depressa os dançarinos saíram em corrida, como entrou outro, a cabeça coberta com um espantoso crânio de auroque, que foi ameaçando a assistência com roncos e os afiados chifres. Três dançarinos, com tiras de tecido em volta da cabeça e envergando túnicas, simularam o ataque ao “animal” que os derrubou e os fez correr em volta da fogueira.

Outros três, vestidos conforme as tradições de Barinak, fingiram-se surpreendidos pela refrega e envolveram-se na “luta”. Um dos que envergava túnica fez-se de morto, assim como um dos outros. Os dois grupos uniram-se, dançaram juntos, perante o espanto do “auroque”, até que, juntos, ergueram um dos homens de Barinak que simulou uma estocada mortal sobre a fera.

A besta caiu como morta para gáudio da assistência que irrompeu em aplausos e gritos de “Naci, Naci, Naci” enquanto os dançarinos saiam transportando o crânio de auroque numa procissão vitoriosa.  

Os instrumentos musicais aumentavam o ruído ensurdecedor da assistência em crescendo, até que se calaram subitamente, deixando apenas alguns aplausos tardios e murmúrios excitados e felizes.

Os agravos do início da cerimónia foram apagados da memória de todos, inspirados pelas imagens dos dois povos a lutar para eliminar uma ameaça comum.

 


17 - O Conselho de Barinak
19 - Forjando Alianças
Na Madrugada dos Tempos
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sexta-feira, 29 de dezembro de 2023

O Conselho de Barinak

 

 
Na Madrugada dos Tempos – Parte 17
 
 

Os meus conselhos devem servir para que você se lhes oponha. É possível que depois da oposição

venha a pensar o mesmo que eu; mas nessa altura já o pensamento lhe pertence.

Agostinho Silva

Filósofo, poeta, ensaísta, professor e filólogo português

(1906-1994)

Depois do choque inicial e da alegria dos hati, que se encontravam a acompanhar o ferido Tibaro, pela chegada dos seus conterrâneos, foi a altura de tratar dos assuntos mais práticos. Zia e as suas noras, Damla e Nadire, organizaram junto do povo a libertação temporária de algumas casas, para hospedar os estrangeiros. Os visitantes, no entanto, não mostraram grande simpatia pela ideia de serem separados. Os burros que acompanhavam a comitiva traziam o material para erguer as tendas com capacidade para os alojar a todos e aceitariam apenas que lhes indicassem o local para as montar.

Apesar da alegria de ver o seu filho vivo e a recuperar, o aspeto de Barinak, de que tanto ouvira falar, deixara-o tremendamente desiludido. Não passava de inúmeros casebres, onde as pessoas viviam como se fossem selvagens, sem roupas adequadas… e sem se lavar, conforme o seu nariz que não cessava de o informar. O próprio déms pótis vivia numa palhota daquelas, em vez de ter uma verdadeira casa com várias divisões, onde residir com toda a família. Como eram pobres e desengraçadas aquelas casas redondas comparadas com as belas e alvas casas de Hatiweik.

Erem levou Mirsulo e Savírio a ver o santuário, do qual os dois estrangeiros ouviram falar lá na sua terra, mas eles não pareceram muito impressionados. O curandeiro caminhou por entre as pedras, afagando com mais atenção aquelas que haviam sido diligentemente esculpidas por Asil. O chefe estrangeiro olhou pensativamente para o círculo inacabado e decidiu, contra a vontade do companheiro, que deveriam orar a Tarunte naquele local, como agradecimento pela salvação de Tibaro.

Mais tarde, os estrangeiros reuniram-se aos seus homens para serem iniciadas as montagens dos alojamentos onde passariam a noite.

Erem e Zia observaram o afã dos estrangeiros a erguer as tendas onde pernoitariam e logo ali comentaram a fantástica tenda central, maior que quatro das casas de Barinak juntas. Parecia impossível como podiam ter tanto tecido para tantas tendas, tão grandes e como montavam as estruturas tão rápido, prendendo-as ao chão com estacas e cordas. As roupagens deles, as armas, por ali se via possuírem conhecimentos muito superiores. Podiam ser um amigo poderoso, ou um inimigo muito perigoso.

Mirsulo e Savírio recolheram-se à tenda principal e mandaram chamar os homens que haviam ficado na aldeia com Tibaro. Era óbvio que queriam saber de tudo sem serem ouvidos e sem interferências. Erem, por sua vez, foi para a casa da reunião e mandou chamar Alim, Tailan e Lemi. Este último chegou apoiado num pau e com aspeto bastante débil; já estava febril há vários dias e as mezinhas de Nehir não pareciam nutrir qualquer efeito.

Erem queria saber o que achavam os seus amigos/conselheiros, dos visitantes e como deveriam agir para com eles. Todos concordavam que deveriam agir com cautela. Alim já conhecia Hatiweik, o seu povo e o déms pótis anterior, Taramor, que deveria ser o pai de Mirsulo; não achava que fossem perigosos, a menos que houvesse algo que eles quisessem muito e fosse-lhes recusado. Eram uma povoação com muita gente e aqueles homens que faziam parte da comitiva era uma pequena amostra de quantos podiam ser reunidos para a guerra. Negociara várias vezes com pessoas de lá e, embora tivesse de deixar algumas das coisas que trocara, como pagamento por comerciar, nunca teve problemas com eles.

— Não entendo. — O chefe franziu o sobrolho. — Deixar coisas? Então ias trocar coisas com o povo e tinhas de deixá-las?

— Não todas. — Esclareceu Alim. — Como era de fora de Hatiweik, tinha de pagar o que eles chamam taxa de comércio. Deixava uma cabra, às vezes três galinhas.

— A quem? — Erem insistiu.

— Ao déms pótis. — O antigo comerciante sorriu.

— O chefe? — Também Lemi estava confuso. — Ele andava pelas casas a pedir as coisas aos comerciantes?

— Não! — Alim soltou uma gargalhada. — Toda a povoação é cercada por muros altos e só se consegue entrar por dois ou três passagens onde estão homens do déms pótis a guardá-las. Se estás a sair da povoação com coisas que estás a comerciar, ou não és de lá e estiveste a fazer negócio, ou és de lá e vais negociar para outro lado. De ambas as formas tens de pagar a taxa ao déms pótis. Os homens e mulheres que vivem lá dentro também têm de pagar pelas coisas que fazem e trocam, também aqueles que trabalham os campos fora dos muros, ou os pastores e caçadores.

— Assim ele tem tudo sem fazer nada… — Concluiu Tailan. — Já vi essa povoação há muito tempo, mas nunca estive lá dentro.

— A verdade, — acrescentou Alim —, é que ele assegura a defesa da povoação com homens armados e esses homens recebem bens pelo seu trabalho. Claro que ele tem de tudo para si e para a sua família sem precisar de ir pescar, caçar ou trabalhar a terra. Mas todos pagam com a satisfação sabendo que não vão ser atacados por ninguém porque terão quem os defenda. Se alguém roubar alguma coisa a outro é castigado com chicotadas ou podem até cortar-lhe uma mão, os homens do déms pótis encarregar-se-ão disso.

Os outros três exibiram expressões de espanto e horror.

— Nós também cuidamos uns dos outros e se alguém achar que outro lhe tirou algo que lhe pertence vêm até mim e aceitam a minha decisão. — Observou Erem. — Se nos atacarem, vamos defender-nos. Todos caçamos, trabalhamos as terras e temos porções de comida iguais, eu encarrego-me de que assim seja… ninguém tem de me dar nada por isso.

— Se tivesses muita gente para todo o trabalho, não terias de o fazer. — Explicou Alim com simplicidade. — Só precisarias de dar as ordens.

O chefe calou-se por momentos, meditando nas explicações do conselheiro.

— Então achas que Mirsulo tem muitos homens e mulheres prontos a servi-lo, dentro da sua povoação? — Lemi mostrou-se preocupado. — E, portanto, uma grande força para lutar?

— Não tenho dúvidas. — Retorquiu o visado como o acenar de confirmação de Tailan. — Se, apenas para ir buscar o corpo do filho, traz consigo tantos homens como conseguiríamos juntar para uma luta, terá muitos mais, para defender a sua povoação e para manter a alimentação de todos.

— Devemos temê-lo, portanto. — Concluiu Erem com os olhos fixos no vazio.

— No mínimo, respeitá-lo e agradá-lo. — Alim acenou afirmativamente com a cabeça.

— … sem mostrar medo ou fraqueza. — Acrescentou Lemi, por entre o seu respirar difícil. — Devemos ser hospitaleiros, mas apresentarmo-nos como iguais.

— Agora que já tem o filho dele, e vivo, ao contrário do que esperava, que acham que fará agora? — O chefe enfrentou os seus conselheiros.

— Como o acho um chefe bom e justo, — começou Alim —, acho que quererá regressar à sua terra rapidamente para mostrar a todos que o seu herdeiro está vivo.

— Também pode voltar mais tarde com ainda mais homens e levar todos os alimentos que temos. — O tio do chefe continuava a temer a força do hóspede. — Viram que estamos preparados para nos defendermos, mas que somos poucos, comparados com eles.

— Não me parece que seja esse o modo de agir deste povo. — Interveio Tailan. — Como nós, estão fixos numa localização. Não são como os nómadas que podem destruir tudo numa região e depois simplesmente mudar-se. Eles devem preferir manter a amizade com os vizinhos, aumentando as possibilidades de comércio e mais vantagens para ele e sua família.

— Também concordo. — Afirmou Alim.

Lemi sentia-se um pouco perdido nesta nova teia de relações. Antigamente, as tribos seminómadas festejavam quando se encontravam e apenas se deviam temer nos períodos de fome.

— Então, — concluiu Erem —, devemos temê-los, mas mostrarmo-nos iguais. Respeita-los, mas não demonstrar fraqueza. — O chefe sorriu. — O meu filho Naci concordaria com essa última parte. O resto, duvido muito.

Tailan e Lemi acenaram afirmativamente.

— Naci tem-se dado muito bem com os estrangeiros. — Ressentiu-se Alim com uma expressão triste. — Mais com esses estrangeiros, do que com todos nós que vivemos aqui e partilhamos estas terras com ele. Pode ser que a sua atitude em relação a nós mude daqui para a frente.

— Pois chamemos então os nossos hóspedes. — O chefe ergueu-se decidido. — Partilharemos aqui a última refeição do dia com eles. Chamem as vossas mulheres e filhos. Vou escolher os nossos melhores para dançarem em volta da fogueira… dançarão a vitória sobre os homens-macaco e como caçamos e matamos os nómadas que nos roubavam. Perceberão que desafiar-nos tem consequências.

Os outros homens levantaram-se de seguida imitando o chefe. Tailan, com uma expressão divertida, curvou respeitosamente a cabeça e respondeu:

— Será como dizes déms pótis.


 

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16 - A Embaixada

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