segunda-feira, 29 de janeiro de 2024

Confraternização

 

 
Na Madrugada dos Tempos - Parte 18

As culturas sobrevivem enquanto se mantiverem produtivas, enquanto forem sujeito de mudança e elas próprias dialogarem e se mestiçarem com outras culturas.
Mia Couto Escritor e Biólogo moçambicano
Nascido em 1955


Quando Mirsulo e Savirio entraram na casa da reunião, perceberam de imediato que não seria uma vulgar refeição aquela para a qual foram convidados.

Erem, por baixo da sua pele de leão, com a imponente cabeça da fera sobre a sua, usava peles novas e luzidias que repousavam sobre os ombros e antebraços, assim como uma túnica branca e limpa. Zia usava uma tiara com penas coloridas de várias aves e uma túnica decorada com riscas de várias cores pintadas à mão. Também os tornozelos, os pulsos e o pescoço ostentavam tiras de couro cuidadosamente entrançado.

Os restantes convivas, sentados no chão, em pedras ou toscos tambores de madeira, postavam-se na forma de um U, em volta da fogueira central, voltados para a entrada. Estavam também ataviados com as peles mais novas e aquilo que acharam de melhor. Apesar da maior parte do fumo se escoar pelo buraco no meio do telhado, havia uma atmosfera nublosa envolta nos aromas da carne que estralejava no fogo.

O barulho das conversas parou de imediato assim que os convidados Hati assomaram à entrada. Traziam as mesmas roupagens que, por si só, distinguiam-se em qualidade das dos seus anfitriões. Uma das jovens netas de Erem indicou os lugares entre o chefe e a companheira para os dois importantes dignitários e outros para Tibaro e os companheiros. Logo ao lado de Lemi e as suas duas esposas.

O chefe estrangeiro, antes de se focar nas pessoas que o esperavam, fez uma rápida apreciação da casa da reunião; paredes mais ou menos direitas, mistas de colunas de madeira e pedras desbastadas, os espaços preenchidos com lamas secas. Dois grandes troncos apoiavam o telhado, também composto por traves grosseiras e colmo.

De imediato, vários jovens de ambos os sexos, netos de Erem e Lemi, começaram a apresentar aos convidados travessas de madeira com tiras de carnes secas, carnes grelhadas ou mesmo cruas. Outras travessas traziam pequenos abrunhos e figos secos.

Todos continuavam calados, de olhos fixos nos convidados.

Ciente da atenção que recebia, Mirsulo sentou-se e sorriu para Erem e Zia, antes de fazer um gesto a Savirio para que o imitasse. Seguidamente, pegou uma das tiras de carne e começou a mastigar com satisfação, olhando para a petrificada audiência.

Este pareceu ser o sinal para que todos voltassem à normalidade e as conversas e risos voltaram ao salão como se nunca tivessem sido interrompidos.

Savirio estava contrariado por ser separado de Tibaro, que fora encaminhado para junto de Naci e os restantes filhos do chefe e por ficar junto de Zia que se portava friamente para com ele.

Os dois chefes conversavam sobre a casa da reunião, com Mirsulo a elogiar a força da sua arquitetura e a questionar porque as restantes construções não seguiam os mesmos moldes. Erem explicou-lhe em traços largos a ajuda prestada por Alim e Beki, porém, se a casa da reunião era uma obra para todos, onde todos colaboravam, as casas individuais eram trabalho de cada um e da sua família. Levaria mais tempo a assumir construções melhoradas nas casas mais antigas de Barinak, embora já as houvesse nas zonas recentes.

O chefe Hati não pareceu compreender o que lhe era explicado; para ele era bastante simples; diria a cada família que disponibilizasse um ou dois homens, que trabalhariam por alimentos e construir-lhe-iam uma boa e confortável casa.

Erem olhou-o com estranheza e disse que teria de caçar muitos dias para poder alimentar assim tantas pessoas.

— As pessoas deviam estar agradecidas por viver sob a proteção do déms pótis. — Desta vez até o mal-encarado Savirio interveio. — Tratando-se da casa dele, até poderiam trabalhar sem receber nada. De todas as formas, com o que recebe de todos os caçadores, pescadores e agricultores, tem alimentos mais do que suficientes para ele, a família e os trabalhadores.

— Não, não. — Negou Erem. — Já me falaram desse vosso costume, mas aqui as coisas são diferentes. Cada um trabalha para si e para a sua família. Juntam esforços para melhores resultados e aquilo que lhes é retirado trabalho é para alimentar os doentes, as viúvas e os órfãos.

— O que te impede de tirar mais um pouco? — Sorriu conspicuamente Mirsulo. — Não és tu quem decide?

— Sim, mas… — o chefe de Barinak começava a sentir-se desconfortável —… mando, porque estão todos de acordo que assim seja. Sabem que sou justo e olharei por eles quando precisarem.

— Precisamente. — O curandeiro estava cada vez mais interessado na conversa. — Esse trabalho, essa responsabilidade para com eles deve ser recompensada.

— Os outros podem não aceitar… — Lemi, que se mantivera calado até ali, aparentemente distraído da conversa, virou-se para os convidados. — … na certa revoltavam-se e quereriam escolher outro chefe.

— Para que te servem os homens que te são leais? — Mirsulo fez a pergunta a Erem, voltando-se depois para Lemi. — A própria família? Não terias o seu apoio?

— Aqui somos todos irmãos perante Swol! — Sentenciou Zia subitamente. — Fazer o que pedes é viver como as pulgas e os piolhos; a comer o que os outros produzem com o seu esforço!

— A mulher não devia falar sem que lhe fosse pedido! — Indignou-se Savirio, tomando a posição de uma criança amuada.

— Também nisso somos diferentes, Mirsulo de Hatiweik. — Indignou-se a Xamã, ignorando o curandeiro. — Swol criou o homem e a mulher diferentes, mas como duas partes da mesma coisa. As duas faces do mesmo rosto, as duas mãos ou os dois pés do mesmo corpo!

— Mas a boca é só uma! — Replicou Savirio. — Devias calar-te e não entrar na conversa dos homens!

Zia levantou-se intempestivamente.

— Calem-se… ambos! — Erem alterou-se, carrancudo. — Não quero discussões neste dia de festa.

A cacofonia de conversas cruzadas parou subitamente, quase em simultâneo, sob a ordem seca do chefe de Barinak. Todos se olharam confundidos e os elementos dos Hati trocaram olhares de avaliação e suspeição com os seus anfitriões. A tensão na sala subiu repentinamente e todos se perguntaram se aquele que estava sentado ao seu lado era um amigo ou inimigo.

— Savirio…! — Rosnou Mirsulo entre dentes, desagradado. — Deixa-me ser eu a falar.

— Não recebemos bem os nossos convidados. — Erem admoestou Zia num tom mais suave, apesar do seu rosto crispado. — Vamos perdoar-lhes a diferença de ideias e evitar discussões.

— Quando um convidado nos vem insultar na nossa própria casa… — ia continuar a xamã.

— Zia… — o chefe não terminou a frase, mas o seu rosto triste dizia tudo.

Ela virou-lhes as costas e saiu intempestivamente, percorrendo a sala em passos largos sob os olhares interrogativos de todos.

Savirio abriu a boca para dizer algo, mas o simples olhar furioso de Mirsulo fê-lo fechá-la sem emitir um som e retornar ao seu mutismo amuado.

Erem deitou um olhar rápido a todos os convivas; bastaria uma palavra sua e a sala transformar-se-ia num campo de batalha. Ergueu-se com um sorriso e fez um gesto na direção da entrada. Seis homens e mulheres fizeram a sua aparição, três deles ressoando peles esticadas sobre molduras de madeira, dois saltavam e gritavam enquanto abanavam cabaças cheias com pequenos seixos e outro soprava notas agudas através de um osso furado.

Com tão intempestiva entrada, a audiência logo esqueceu o pequeno incidente e batia as palmas e soltava gritos de incentivo. O entusiasmo aumentou e houve exclamações de espanto quando um grupo de vários guerreiros entrou em corrida e começou a executar um conjunto de saltos e cabriolas em volta e por cima da fogueira.

O chefe e o curandeiro Hati assistiram em silêncio às acrobacias e presenciaram o drama traumático de dois indivíduos cobertos de peles, onde quase só se viam os olhos, a “matar” um e depois outro dos dançarinos e fugirem com vários objetos. Seguidamente os restantes perseguiram-nos, sempre em redor da fogueira e travaram uma acrobática luta que resultou na derrota dos “peludos”. Os vencedores colocaram um pé sobre os vencidos e soltaram urros de vitória ecoados pela vibrante assistência e um crescendo da cacofonia dos instrumentos musicais.

Tão depressa os dançarinos saíram em corrida, como entrou outro, a cabeça coberta com um espantoso crânio de auroque, que foi ameaçando a assistência com roncos e os afiados chifres. Três dançarinos, com tiras de tecido em volta da cabeça e envergando túnicas, simularam o ataque ao “animal” que os derrubou e os fez correr em volta da fogueira.

Outros três, vestidos conforme as tradições de Barinak, fingiram-se surpreendidos pela refrega e envolveram-se na “luta”. Um dos que envergava túnica fez-se de morto, assim como um dos outros. Os dois grupos uniram-se, dançaram juntos, perante o espanto do “auroque”, até que, juntos, ergueram um dos homens de Barinak que simulou uma estocada mortal sobre a fera.

A besta caiu como morta para gáudio da assistência que irrompeu em aplausos e gritos de “Naci, Naci, Naci” enquanto os dançarinos saiam transportando o crânio de auroque numa procissão vitoriosa.  

Os instrumentos musicais aumentavam o ruído ensurdecedor da assistência em crescendo, até que se calaram subitamente, deixando apenas alguns aplausos tardios e murmúrios excitados e felizes.

Os agravos do início da cerimónia foram apagados da memória de todos, inspirados pelas imagens dos dois povos a lutar para eliminar uma ameaça comum.

 

ANTERIOR

A SEGUIR

18 - O Conselho de Barinak


  Forjando Alianças
Introdução
Share:

sexta-feira, 29 de dezembro de 2023

O Conselho de Barinak

 

 
Na Madrugada dos Tempos – Parte 17
 
 

Os meus conselhos devem servir para que você se lhes oponha. É possível que depois da oposição

venha a pensar o mesmo que eu; mas nessa altura já o pensamento lhe pertence.

Agostinho Silva

Filósofo, poeta, ensaísta, professor e filólogo português

(1906-1994)

Depois do choque inicial e da alegria dos hati, que se encontravam a acompanhar o ferido Tibaro, pela chegada dos seus conterrâneos, foi a altura de tratar dos assuntos mais práticos. Zia e as suas noras, Damla e Nadire, organizaram junto do povo a libertação temporária de algumas casas, para hospedar os estrangeiros. Os visitantes, no entanto, não mostraram grande simpatia pela ideia de serem separados. Os burros que acompanhavam a comitiva traziam o material para erguer as tendas com capacidade para os alojar a todos e aceitariam apenas que lhes indicassem o local para as montar.

Apesar da alegria de ver o seu filho vivo e a recuperar, o aspeto de Barinak, de que tanto ouvira falar, deixara-o tremendamente desiludido. Não passava de inúmeros casebres, onde as pessoas viviam como se fossem selvagens, sem roupas adequadas… e sem se lavar, conforme o seu nariz que não cessava de o informar. O próprio déms pótis vivia numa palhota daquelas, em vez de ter uma verdadeira casa com várias divisões, onde residir com toda a família. Como eram pobres e desengraçadas aquelas casas redondas comparadas com as belas e alvas casas de Hatiweik.

Erem levou Mirsulo e Savírio a ver o santuário, do qual os dois estrangeiros ouviram falar lá na sua terra, mas eles não pareceram muito impressionados. O curandeiro caminhou por entre as pedras, afagando com mais atenção aquelas que haviam sido diligentemente esculpidas por Asil. O chefe estrangeiro olhou pensativamente para o círculo inacabado e decidiu, contra a vontade do companheiro, que deveriam orar a Tarunte naquele local, como agradecimento pela salvação de Tibaro.

Mais tarde, os estrangeiros reuniram-se aos seus homens para serem iniciadas as montagens dos alojamentos onde passariam a noite.

Erem e Zia observaram o afã dos estrangeiros a erguer as tendas onde pernoitariam e logo ali comentaram a fantástica tenda central, maior que quatro das casas de Barinak juntas. Parecia impossível como podiam ter tanto tecido para tantas tendas, tão grandes e como montavam as estruturas tão rápido, prendendo-as ao chão com estacas e cordas. As roupagens deles, as armas, por ali se via possuírem conhecimentos muito superiores. Podiam ser um amigo poderoso, ou um inimigo muito perigoso.

Mirsulo e Savírio recolheram-se à tenda principal e mandaram chamar os homens que haviam ficado na aldeia com Tibaro. Era óbvio que queriam saber de tudo sem serem ouvidos e sem interferências. Erem, por sua vez, foi para a casa da reunião e mandou chamar Alim, Tailan e Lemi. Este último chegou apoiado num pau e com aspeto bastante débil; já estava febril há vários dias e as mezinhas de Nehir não pareciam nutrir qualquer efeito.

Erem queria saber o que achavam os seus amigos/conselheiros, dos visitantes e como deveriam agir para com eles. Todos concordavam que deveriam agir com cautela. Alim já conhecia Hatiweik, o seu povo e o déms pótis anterior, Taramor, que deveria ser o pai de Mirsulo; não achava que fossem perigosos, a menos que houvesse algo que eles quisessem muito e fosse-lhes recusado. Eram uma povoação com muita gente e aqueles homens que faziam parte da comitiva era uma pequena amostra de quantos podiam ser reunidos para a guerra. Negociara várias vezes com pessoas de lá e, embora tivesse de deixar algumas das coisas que trocara, como pagamento por comerciar, nunca teve problemas com eles.

— Não entendo. — O chefe franziu o sobrolho. — Deixar coisas? Então ias trocar coisas com o povo e tinhas de deixá-las?

— Não todas. — Esclareceu Alim. — Como era de fora de Hatiweik, tinha de pagar o que eles chamam taxa de comércio. Deixava uma cabra, às vezes três galinhas.

— A quem? — Erem insistiu.

— Ao déms pótis. — O antigo comerciante sorriu.

— O chefe? — Também Lemi estava confuso. — Ele andava pelas casas a pedir as coisas aos comerciantes?

— Não! — Alim soltou uma gargalhada. — Toda a povoação é cercada por muros altos e só se consegue entrar por dois ou três passagens onde estão homens do déms pótis a guardá-las. Se estás a sair da povoação com coisas que estás a comerciar, ou não és de lá e estiveste a fazer negócio, ou és de lá e vais negociar para outro lado. De ambas as formas tens de pagar a taxa ao déms pótis. Os homens e mulheres que vivem lá dentro também têm de pagar pelas coisas que fazem e trocam, também aqueles que trabalham os campos fora dos muros, ou os pastores e caçadores.

— Assim ele tem tudo sem fazer nada… — Concluiu Tailan. — Já vi essa povoação há muito tempo, mas nunca estive lá dentro.

— A verdade, — acrescentou Alim —, é que ele assegura a defesa da povoação com homens armados e esses homens recebem bens pelo seu trabalho. Claro que ele tem de tudo para si e para a sua família sem precisar de ir pescar, caçar ou trabalhar a terra. Mas todos pagam com a satisfação sabendo que não vão ser atacados por ninguém porque terão quem os defenda. Se alguém roubar alguma coisa a outro é castigado com chicotadas ou podem até cortar-lhe uma mão, os homens do déms pótis encarregar-se-ão disso.

Os outros três exibiram expressões de espanto e horror.

— Nós também cuidamos uns dos outros e se alguém achar que outro lhe tirou algo que lhe pertence vêm até mim e aceitam a minha decisão. — Observou Erem. — Se nos atacarem, vamos defender-nos. Todos caçamos, trabalhamos as terras e temos porções de comida iguais, eu encarrego-me de que assim seja… ninguém tem de me dar nada por isso.

— Se tivesses muita gente para todo o trabalho, não terias de o fazer. — Explicou Alim com simplicidade. — Só precisarias de dar as ordens.

O chefe calou-se por momentos, meditando nas explicações do conselheiro.

— Então achas que Mirsulo tem muitos homens e mulheres prontos a servi-lo, dentro da sua povoação? — Lemi mostrou-se preocupado. — E, portanto, uma grande força para lutar?

— Não tenho dúvidas. — Retorquiu o visado como o acenar de confirmação de Tailan. — Se, apenas para ir buscar o corpo do filho, traz consigo tantos homens como conseguiríamos juntar para uma luta, terá muitos mais, para defender a sua povoação e para manter a alimentação de todos.

— Devemos temê-lo, portanto. — Concluiu Erem com os olhos fixos no vazio.

— No mínimo, respeitá-lo e agradá-lo. — Alim acenou afirmativamente com a cabeça.

— … sem mostrar medo ou fraqueza. — Acrescentou Lemi, por entre o seu respirar difícil. — Devemos ser hospitaleiros, mas apresentarmo-nos como iguais.

— Agora que já tem o filho dele, e vivo, ao contrário do que esperava, que acham que fará agora? — O chefe enfrentou os seus conselheiros.

— Como o acho um chefe bom e justo, — começou Alim —, acho que quererá regressar à sua terra rapidamente para mostrar a todos que o seu herdeiro está vivo.

— Também pode voltar mais tarde com ainda mais homens e levar todos os alimentos que temos. — O tio do chefe continuava a temer a força do hóspede. — Viram que estamos preparados para nos defendermos, mas que somos poucos, comparados com eles.

— Não me parece que seja esse o modo de agir deste povo. — Interveio Tailan. — Como nós, estão fixos numa localização. Não são como os nómadas que podem destruir tudo numa região e depois simplesmente mudar-se. Eles devem preferir manter a amizade com os vizinhos, aumentando as possibilidades de comércio e mais vantagens para ele e sua família.

— Também concordo. — Afirmou Alim.

Lemi sentia-se um pouco perdido nesta nova teia de relações. Antigamente, as tribos seminómadas festejavam quando se encontravam e apenas se deviam temer nos períodos de fome.

— Então, — concluiu Erem —, devemos temê-los, mas mostrarmo-nos iguais. Respeita-los, mas não demonstrar fraqueza. — O chefe sorriu. — O meu filho Naci concordaria com essa última parte. O resto, duvido muito.

Tailan e Lemi acenaram afirmativamente.

— Naci tem-se dado muito bem com os estrangeiros. — Ressentiu-se Alim com uma expressão triste. — Mais com esses estrangeiros, do que com todos nós que vivemos aqui e partilhamos estas terras com ele. Pode ser que a sua atitude em relação a nós mude daqui para a frente.

— Pois chamemos então os nossos hóspedes. — O chefe ergueu-se decidido. — Partilharemos aqui a última refeição do dia com eles. Chamem as vossas mulheres e filhos. Vou escolher os nossos melhores para dançarem em volta da fogueira… dançarão a vitória sobre os homens-macaco e como caçamos e matamos os nómadas que nos roubavam. Perceberão que desafiar-nos tem consequências.

Os outros homens levantaram-se de seguida imitando o chefe. Tailan, com uma expressão divertida, curvou respeitosamente a cabeça e respondeu:

— Será como dizes déms pótis.


 

Anterior


A seguir

16 - A Embaixada

18 - Confraternização


Introdução



Share:

sábado, 2 de dezembro de 2023

Agora é que me Livro

Foi em junho de 2022 que tive o prazer de viajar até à bela cidade de Oliveira do Hospital para assistir à apresentação do livro “Viagens”, da minha amiga Lucinda Maria e que eu, através das Produções Debaixo dos Céus, tive a honra de publicar. Foi uma belíssima e bem frequentada cerimónia que certamente encheu de orgulho a autora e a sua patrocinadora, a Câmara Municipal de Oliveira do Hospital. Mas não foi, porém, para falar desse evento que iniciei esta publicação, como poderão depreender da imagem com que a ilustro, mas sim para falar da Mafalda Correia, produtora da rubrica “Agora é que me livro”, transmitida na Rádio Boa Nova.
iPhone - Foto 2022-06-05 22_50_00 (2)

 

A Mafalda fora-me apresentada virtualmente uns meses antes, por outro amigo, para que pudesse fazer parte de um grupo de Facebook que organizo e que se intitula “Um Conto Por Mês”. Neste grupo, desafio os membros a escreverem e publicarem um conto completamente novo todos os meses. O Vítor Paulo Fernandes, o qual é um dos colaboradores, propôs-me a entrada de “uma amiga que escrevia muito bem” e que aceitei de bom grado. Numa época de tão pouco interesse pela literatura, aqueles que leem devem ser estimados e os que leem e escrevem, valorizados.
Mafalda Correia

 

De todas as formas, a Mafalda foi uma enorme mais-valia para o nosso grupo, além de uma visão mais jovem, abordou temas interessantes e que foi ótimo ver como eram vistos por aqueles da sua idade. No conto “O Muro”, narra uma história de um amor separado pelo infame Muro de Berlim, onde são enaltecidas as virtudes de saber esperar e a convicção de que não há mal que sempre dure…. Em “A Menina que Deixou de Sorrir”, assistimos a uma abordagem ao estilo de Saramago e do seu imortal “Ensaio sobre a Cegueira”, onde os sentimentos, mesmo os que nos parecem mais exagerados, são imprescindíveis para a nossa vida e felicidade. Também tivemos “Perfeição: A Sociedade Imperfeita” onde de uma maneira muito simples nos mostrou como os mais belos sentimentos e intenções podem sucumbir ao peso dos valores materiais. E não posso deixar passar “A Vida é o Que Acontece Quando Estamos a Fazer Planos”, uma frase extraída da sensacional poesia do saudoso John Lennon. Numa visão talvez mais madura do que seria de esperar da sua idade, mostra-nos como não nos devemos deixar abater quando somos derrubados, mas sim erguer, redefinir objetivos e prosseguir.
Mafalda Correia-Publicações

 

Por tudo isto, a jovem Mafalda já me havia chamado a atenção e tive pena de, quando me foi apresentada, não estar preparado para falar melhor com ela e saborear um pouco da personagem extraordinária que parece estar em projeto naquela adolescente educada, simpática e graciosa. Mas não foi aquela a última vez que ouvi falar da Mafalda; há poucos meses, li o anúncio da rubrica radiofónica “Agora é que me Livro” onde é ela própria a responsável. Confesso que não ouvi todas as emissões, mas aquelas que o fiz, deu para perceber que, além de uma voz excelentemente radiofónica, a sua escolha para o conteúdo deles é interessante e bastante profissional. Decidi aí que teria de escrever algo sobre esta prometedora jovem.
Para fazer esta publicação, além da inevitável visita à página de Facebook, que, quer queiramos, quer não já é a nossa forma de apresentação ao mundo, fiz uma busca pela internet que me revelou ainda mais e serviu para aumentar o meu respeito pela Mafalda.
Mafalda Correia-Notícias

 

Além de aluna de mérito no próprio agrupamento escolar, o reconhecimento desta menina, filha do verão, espalha-se já além das fronteiras do concelho; Representou a região de Coimbra num concurso de leitura e recentemente, em conjunto com Daniela Guímaro, obteve a vitória nacional no Euroscola. Este programa anual, criado no âmbito da cidadania, premiou o trabalho desenvolvido por estas duas jovens, intitulado “Corrupção, o mais velho vírus devorador das democracias”.

Mafalda Correia-Corrupção, o mais velho vírus devorador das democracias.jpg

 

Resta-me acrescentar que estão de parabéns os seus pais, além desta extraordinária jovem, por saberem dar-lhe a educação e mostrar-lhe os caminhos possíveis, pois pouco mais se pode fazer. A escolha deve ser dos filhos. Rezamos para que os tenhamos dotado de ferramentas capazes para enfrentar as armadilhas da vida e que o seu intelecto os torne melhores do que nós fomos.
A grande verdade é que todo o lavrador pode semear do melhor que existir, a boa colheita, porém, não se obtém apenas com boas sementes, mas também com terra boa e fértil.

Achei curioso que a frase de apresentação que a Mafalda escolheu para o seu perfil no “livro dos rostos” (Facebook), seja uma das extraordinárias frases que o grande Fernando Pessoa deixou: “Não sou nada, nunca serei nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo”. Minha querida amiga; eu diria que cada um de nós é um mundo, (mesmo correndo o risco de sacrilégio ao contradizer o nosso Álvaro de Campos) e por vezes, o mundo que nós somos, é maior que o próprio universo. Nós, aqueles que escrevem e amam a palavra escrita, vivem para contar aos outros esse universo.
Espero que gostes desta pequena homenagem e, sem paternalismos baratos, a idade permite-me deixar alguns conselhos, à laia de benção para ti, amiga e irmã das letras;
Voa alto, muito acima das cabeças da humanidade, porque tens tudo o que é preciso para isso. Que os bons ventos da Fortuna te embalem em Felicidade e Realização. Não te deixes, porém, iludir pelos caminhos fáceis, nem pelos créditos sem trabalho. O que vale a pena, é sempre difícil de conseguir, de outra forma todos o teriam. Não gastes o teu tempo, no entanto, a bater contra uma porta fechada, a menos que tenhas certeza que o que está do outro lado vale realmente a pena. Por último, ama e não esqueças aqueles que te amam e estão à tua volta a desejar e a ajudar o teu sucesso, eles serão os únicos que estarão a teu lado quando os caprichos da Fortuna te falharem.

 

Mafalda Correia-Parlamento

 

Muito sucesso!
mafalda correia - Mote

 


Outras ligações 

1-4-2022 Daniela e Mafalda ganham “distrital” do Euroescolas
https://www.diariocoimbra.pt/noticia/81141

1-4-2022 Escola Secundária de Oliveira do Hospital vence Sessão Distrital do Concurso EUROSCOLA de Coimbra
https://ipdj.gov.pt/-/agrupamento-de-escolas-de-oliveira-do-hospital-vence-sessao-distrital-do-concurso-euroscola-de-coimbra

10-10-2022 distinção do Município oliveirense as alunas Mafalda Correia (10º ano),
https://www.folhadocentro.pt/jose-francisco-rolo-assinala-surto-de-investimento-no-concelho-apesar-do-contexto-economico-adverso/

24-4-2023 Oliveirense Mafalda Correia vai representar a região de Coimbra na final do Concurso Nacional de Leitura
https://correiodabeiraserra.sapo.pt/oliveirense-mafalda-correia-vai-representar-a-regiao-de-coimbra-na-final-do-concurso-nacional-de-leitura/

30-5-2023 ‘Euroscola’: Mafalda Correia e Daniela Guímaro levaram Oliveira do Hospital à vitória distrital
https://radioboanova.sapo.pt/euroscola-mafalda-daniela-vitoria-distrital/

30-5-2023 MAFALDA CORREIA E DANIELA GUÍMARO VENCEM FASE FINAL DO EUROESCOLA
https://lagosb.blogspot.com/2023/05/mafalda-correia-e-daniela-guimaro.html

9-6-2023 «Corrupção, o mais velho vírus devorador das democracias»
https://www.forum.pt/opiniao/corrupcao-o-mais-velho-virus-devorador-das-democracias

7-10-2023 Oliveira do Hospital “valoriza força realizadora das gentes do concelho e o seu empreendedorismo”
https://www.diariocoimbra.pt/noticia/110949

9-10-2023 Mafalda Correia, uma das vozes da Rádio Boa Nova, conquista prémio de Mérito Escolar no Dia do Município
https://radioboanova.sapo.pt/mafalda-correia-uma-das-vozes-da-radio-boa-nova-conquista-premio-de-merito-escolar-no-dia-do-municipio/

11-11-2023 Alunos do Agrupamento de Escolas de Oliveira do Hospital estiveram no Parlamento Europeu em Estrasburgo
https://correiodabeiraserra.sapo.pt/alunos-do-agrupamento-de-escolas-de-oliveira-do-hospital-estiveram-em-estrasburgo/

Share:

quarta-feira, 29 de novembro de 2023

A Embaixada

 

 
Na Madrugada dos Tempos – Parte 16

O que faz que os homens formem um povo é a lembrança das

grandes coisas que fizeram juntos e a vontade de realizar outras.

Ernest Renan

Escritor e historiador francês.

(1823-1892)

Os dias estavam mais claros e o frio já não mordia os ossos com a mesma intensidade. Havia um vento suave que acariciava a planície e trazia o cheiro de primavera. As montanhas distantes, porém, continuavam com os cumes alvos, os ursos não deviam aparecer por enquanto, mas não tardariam.

Erem sentia-se cansado e não ficou nada aborrecido quando os caçadores disseram que não havia necessidade de fazer parte dos grupos. Graças à franca colaboração com os estrangeiros residentes e agora reforçados com os companheiros do convalescente Tibaro, havia homens e mulheres suficientes para a caça. Os seus quase quarenta e oito anos pesavam-lhe e o frio do inverno parecia não lhe ter ainda saído dos ossos, mesmo ali, sentado ao sol à porta da sua casa redonda.

Com os olhos fechados, deixando-se levar pela letargia, começou a chegar-lhe ao ouvido um rufar longínquo. Ergueu-se subitamente desperto. Recentemente acordaram que haveria sempre duas pessoas de vigia, durante o dia, no alto de um monte próximo. Quando fosse avistada a aproximação de alguém, faria ressoar com pancadas um enorme tronco oco que arrastaram para lá. Sequências de uma pancada, intervalada com duas batidas rápidas, significava uma pessoa, duas pancadas, três, seriam três ou mais. O batuque era constante e isso era alarmante.

O chefe correu até ao topo da colina onde já tinham chegado outros aldeãos que discutiam acaloradamente. Os vigias, um era uma das suas sobrinhas e outro um neto de Tailan, apontaram nervosamente o extremo norte da planície. Distinguia-se perfeitamente um grupo de cerca de trinta indivíduos armados de lanças que descia o caminho em direção ao casario de Barinak, logo atrás havia mais uns quantos que parecia arrastarem algo. Chegariam primeiro ao agrupamento de casas onde Tailan e a maioria dos estrangeiros residia.

— Depressa, vão ter com Lemi e Tailan, que reúnam os homens que houver por aí e vão para o extremo do povo no caminho da montanha. — Erem enviou os vigias, sentindo-se preocupado por a maioria dos homens se encontrar na caça ou a arrastar as pedras do santuário. — Que levem armas. — Depois voltou-se para outro dos homens: — Corre a avisar Zia do que aqui vimos. Ela que reúna as mulheres capazes de lutar e vão lá ter também.

Acompanhado de vários dos que já se encontravam no alto da colina, Erem apressou-se na direção que indicou ser o ponto de encontro onde esperariam os forasteiros que se aproximavam. Se viessem com más intenções teriam de lutar. O que o preocupava era que, mesmo conseguindo igualar o número de inimigos, seria com mulheres pouco habituadas a usar as armas e os homens que, como ele, já não estavam na melhor das formas. O seu coração apertava-se com a ideia de que viriam em busca dos assaltantes que estavam agora mortos e atirados do penhasco para onde era arremessado o lixo da aldeia.

Atravessou o “bairro” dos estrangeiros, onde já não passava há muito, que era simbolicamente separado do resto do povoado por um pequeno regato, afluente do largo rio que fornecia água e peixe à população. As construções alinhavam-se ao longo do trilho calcado a que chamavam o caminho da montanha que serpenteava até ao limite do casario. Reparou, com admiração, que já havia muitas casas e poucas tendas, desde a sua autorização para que fossem construídas. Como era cada vez mais difícil encontrar pedra suficiente e a pouca distância, para todas as casas, várias delas já eram completamente construídas em adobe e apenas cobertas de colmo; havia-as quadradas, redondas, retangulares, as tradicionais redondas de pedras empilhadas eram uma minoria. Com a utilização dos ângulos retos, havia vários exemplos de habitações geminadas partilhando o telhado. Qualquer uma delas tinha uma área muito superior à da humilde palhota de Erem e possuir mais do que uma divisão. Algumas tinham até as paredes alvas como a neve, cobertas do que parecia ser um pó que, embora sujasse as mãos, não saía da superfície.

O chefe chegou ao extremo da povoação. Os invasores ainda não se avistavam devido ao relevo do caminho sobre uma suave colina. O seu olhar analítico observou como a linha de árvores não andava longe do casario e como seria fácil um atacante mal-intencionado chegar por ali, em vez de o fazer pelo caminho. Começavam, entretanto, a chegar alguns aldeãos, com ar preocupado, mas todos traziam lanças ou ferramentas com que pudessem causar dano. Olhou o simples punhal de cobre que trazia à cintura e perguntou-se se não deveria ter ido buscar a sua lança também.

O vento suave carregava as nuvens que obscureciam o sol, a espaços; o frio que se fazia sentir lembrava que a primavera ainda era uma criança e o inverno não andava longe.

Quando os invasores chegaram ao alto da elevação, já havia perto de quarenta elementos a esperá-los e eles imobilizaram-se à vista das primeiras casas, parecendo conferenciar.

Zia foi a última a chegar. Trazia um grupo de dez ou quinze crianças armadas de fundas. Numa guerra, toda a ajuda é pouca, dizia o sorriso dela para o olhar interrogativo do chefe.

Àquela distância, já se podiam distinguir os recém-chegados; com exceção de dois deles, todos trajavam igual; a cabeça tapada com chapéus castanhos, túnicas cintadas que desciam até ao joelho, tendo depois as canelas e os pés cobertos por peles. Além da lança, onde reluziam as pontas de cobre, traziam o que parecia ser um pedaço de madeira forrado a pele. Era óbvio que se tratava de gente preparada para combater. Os outros dois aparentavam um aspeto diferente, com longas túnicas; uma cor de sumo-de-uva e a outra preta, cabelos longos a cair até aos ombros e grandes barbas.

Não se ouvia um murmúrio do lado dos defensores de Barinak, quando um dos invasores se afastou dos restantes e caminhou para a povoação em passo largo, mas pausado, erguendo bem as mãos nuas.

— Saudações e paz, vos envia Mirsulo, déms pótis[1] de Hatiweik. — Falou o homem numa voz forte e clara, embora com sotaque carregado. — Que Tarunte, deus da guerra e da paz, vos dê muitos filhos e alimento para todos. — Pousou a mão direita sobre o coração e fez uma curta e respeitosa vénia.

— Saudações e paz, estrangeiro. — Erem adiantou-se. — Que nos quer Mirsulo, com tantos homens preparados para a guerra?

— Peço perdão em nome do meu senhor. — O homem parecia versado em diplomacia. — Os caminhos são perigosos e Hatiweik tem muitos inimigos. Os homens são para proteção e não para a guerra. Mirsulo veio pessoalmente buscar o seu filho Tibaro, para o honrar enterrar junto dos seus antepassados. Disseram-nos que se encontrava com Erem, déms pótis de Barinak.

Levantou-se uma onda de murmúrios felizes entre os atemorizados defensores.

— Eu sou, Erem, filho de Birol. — Continuou o chefe. — Mas o teu senhor está enganado, Tibaro não morreu. Está vivo e recupera dos seus ferimentos.

Após uma rápida expressão de alegria, o emissário perdeu toda a compostura e partiu numa corrida a reunir-se aos seus.

Desta vez foram os dois elementos que se destacaram do grupo e avançaram rapidamente, seguidos de perto pelo emissário. O homem de preto tinha um ar austero e grave por baixo do chapéu de couro entrançado. As espessas barbas pareciam querer fugir em todas as direções de tão desengraçada carranca. O seguinte trazia os cabelos soltos decorados com pequenas esferas e apenas um fio em volta da cabeça suportando um disco reluzente no meio da testa. Iguais discos pendiam em cada uma das orelhas e um ainda maior ao pescoço, pousado sobre a túnica cor de vinho decorada com finos entrançados e pedaços de peles. O seu rosto visível por cima da barba aparada exibia confusão e alegria quando se dirigiu a Erem:

— És o guardião do meu filho e também o seu salvador? — O homem pousou a mão sobre o coração. — Se tal coisa é verdade, pois só acreditarei quando vir com os meus próprios olhos, serás o meu irmão mais querido que aqueles do meu próprio sangue!

Mirsulo, felicíssimo, agarrou e abraçou um atordoado Erem, antes que qualquer pessoa pudesse reagir. Ato contínuo, os soldados soltaram grandes gritos de alegria, embora mantendo a distância.

Confundido, mas agradado, ao mesmo tempo, Erem sorriu e pediu-lhe que o seguisse até ao convalescente. O acompanhante de Mirsulo, sem perder o seu ar austero, seguiu-os como uma sombra silenciosa. O caminhar dos dois chefes lado a lado foi o mote para o “desmobilizar das hostes” e os defensores dividiram-se, uns atrás deles e outros para junto dos soldados, a saciar a curiosidade.

Nehir, que se recusava sempre a participar nas atividades que envolvessem mortos e feridos, aguardava na sua tenda, tristemente, que começassem a chegar as primeiras vítimas. Qual não é o seu espanto, vê chegar o pai e um estrangeiro vestido com roupas estranhas, a conversar alegremente, logo seguidos por quase toda a aldeia misturada com outros estrangeiros.

O encontro entre Mirsulo e Tibaro foi comovente, o chefe estrangeiro não conseguiu deixar de verter uma lágrima. Apesar de ter dez filhos, aquele era o mais velho e o que ele esperava que lhe sucedesse. Não o conseguia dissuadir de participar nas caçadas… e esta quase lhe tinha sido fatal.

Apesar de quase não se conseguir ouvir, Tibaro falou com o pai e acalmou-o, dizendo que se sentia bem melhor e tecendo elogios à curandeira, à sacerdotisa, ao extraordinário chefe de Barinak e ao seu povo acolhedor. Foi o momento do silencioso companheiro de Mirsulo intervir e questionar diretamente o doente sobre o tipo de tratamentos que lhe fizeram.

Ao ver o esforço que Tibaro fazia para falar e notar que a sua respiração ficava cada vez mais ofegante, Nehir tocou no braço do estranho e pediu-lhe que não o maçasse mais; ela responderia a todas as perguntas.

O homem, que estava curvado sobre o doente, ergueu-se e deu um passo atrás, olhando-a com um misto de desdém e escândalo: — Quieta, mulher! — Ordenou rispidamente numa voz de barítono. — Quem te deu ordem para falar?

Imediatamente, qual leoa a defender a cria, Zia colocou-se ao lado da filha: — Tu é que precisas de autorização para falar, homem! — Ela apontou-lhe o dedo ao peito. — És um convidado na tenda dela e nesta aldeia!

— Parem! — Interveio Erem olhando interrogativamente para Mirsulo.

— Elas têm razão, Savírio. — O chefe estrangeiro advertiu sem sorrir. — És um convidado aqui. Tens de respeitar os costumes. — Depois olhou diretamente para Erem e explicou. — Não estamos acostumados que as mulheres desempenhem estas funções e muito menos interpelem diretamente os homens.



[1] Proto-indo-europeu: “Senhor de sua casa”, derivará em déspota.



Anterior

A seguir

15 - Medicina Primitiva


17 - O Conselho de Barinak

Introdução


Share:

domingo, 29 de outubro de 2023

Medicina Primitiva

 

 
Na Madrugada dos Tempos – Parte 15
 

A arte da medicina consiste em distrair o paciente enquanto a Natureza cuida da doença.

Voltaire

Escritor, historiador e filósofo iluminista francês

(1694-1778)

Enquanto o grupo reunido por Himono e Kiala se apressavam noite dentro, Erem mandou quatro homens levar o jovem, que se debatia em aflição, para o santuário.

Transportaram o ferido numa padiola, logo seguidos por um dos estrangeiros, de nome Amanur e quase toda a população da aldeia. Passaram pela área ainda não preenchida do círculo que já contava com seis imponentes megálitos. Deitaram-no sobre a pedra que servia de mesa para os sacrifícios e mantiveram-lhe os braços seguros enquanto Zia invocava a atenção de Swol e Mensis.

O céu estava encoberto, mas as franjas das nuvens refletiam a luz forte da lua que brilhava bem acima delas. Não fora isso, estaria uma noite magnífica, de um céu estrelado onde Mensis governava invicta sobre as humildes estrelas, que eram as fogueiras do povo do céu.

O chefe apressou-se a ir buscar a sua cabeça de leão cerimonial e o cocar de penas da mulher. Vários homens acorreram a trazer madeira e fogo para acender no meio do círculo, aos pés da pedra sacrificial frente ao ídolo Swol. A cerimónia teria de ter tudo o que era exigido para obter o favor dos deuses.

Os mais próximos olhavam espantados enquanto Nehir esculpia e aguçava uma fíbula de corvo e utilizava os finos ossos das costelas para esvaziar o interior do osso maior. Em poucos minutos, obteve um pequeno tubo reluzente e afiado, que estendeu em oferta para o céu.

Zia, já devidamente ataviada com o seu cocar de penas de pomba, “cantava” a Swol, enquanto circulava em volta do monólito que o representava. Entoou a história, cantada por pais aos filhos durante incontáveis gerações, do dia em que Manu, o primeiro homem, abriu os olhos. Lembrou aos deuses como Swol e Mensis se apaixonaram por aquele ser indefeso e desceram dos céus para o ensinar a sobreviver sem garras nem dentes temíveis. Como Tharun atirou o fogo dos céus, fendendo em milhares de lascas o Grande Carvalho de onde nasceu o mundo, dando o fogo e criando as lanças para os homens. Lembrou como Swol, cuidou de Manu e usou o seu calor para derreter as neves e florescer as plantas e como o seu brilho atraiu os animais de todos os tamanhos e feitios para que ele se alimentasse. Cantou sobre Mensis que se transfigura no céu noturno e que vela sobre a noite, trazendo a luz sobre a escuridão e o poder sobre os espíritos das sombras.

Depois estendeu as mãos sobre o objeto que a filha lhe apresentava e invocou os nomes Da Pater e Da Mater[1] para que guiassem a mão de Nehir. Em seguida, pegou de num cesto de vime fechado, uma pomba completamente cinzenta e, após a exibir aos céus por poucos segundos, torceu-lhe o pescoço sem cerimónia.

Um dos homens estendeu uma pequena taça de barro a recolher o sangue que a sacerdotisa vertia ao abrir ao meio a ave sacrificada.

O círculo exterior do santuário estava preenchido por um enorme grupo de homens e mulheres, agora que se lhe juntavam os elementos da responsabilidade de Tailan. Erem, com a cabeça de leão sobre a sua, conduzia-os num som gutural grave, que fazia vibrar o peito e os próprios menires, ritmando com o bater de uma grossa vara numa pedra e acompanhado por alguns homens que ressoavam peles esticadas sobre quadrados de madeira.

A sacerdotisa tomou a taça com o sangue e aspergiu o ferido que se debatia cada vez com menos intensidade. Depois pintou uma linha vermelha no rosto do paciente desde o queixo até ao cabelo, dividindo-o ao meio e exclamou: — Em nós, existem Swol e Mensis, o rei do dia e a rainha da noite. Unidos no nosso corpo como um só! — Repetiu a linha vermelha no rosto da filha e incentivou: — Que os deuses guiem a tua mão!

Perante o olhar estarrecido de Amanur, Nehir, sussurrando o encantamento da cura, colocou a mão direita atravessada desde o queixo do moribundo cobrindo todo o pescoço. — Agarrem-no bem. — Avisou, enquanto com a esquerda, apontava a agulha de osso que preparara na parte mole logo abaixo da área tapada. De olhos postos no céu, que começava a ganhar cor, invocou a ajuda divina: — Swol! Salva o teu filho! Mensis, dá-me o poder da cura — Tornou a atenção para a mão que segura a agulha e, com a direita, deu-lhe uma pancada seca.

Um espirro de sangue aspergiu os mais próximos e no segundo seguinte, o som ofegante do ar a entrar e a sair começou a ouvir-se através da cânula. O paciente começou imediatamente a acalmar-se.

— Da Mater te proteja e mantenha os maus Ansu[2] afastados. — Pediu Nehir colocando a mão sobre a testa do ferido.

Amanur, ainda indeciso se o seu companheiro morria ou estaria salvo, continuava a agarrar-lhe o braço com força, até que a mão do, até aí moribundo, tocou-lhe, indicando que o magoava. Olhou para o rosto de Tibaro onde a tonalidade cinzenta começava a desvanecer-se. Os olhos dele estavam novamente abertos e vivos, aparentemente ainda a tentar perceber por onde respirava. A sua expressão exibia sofrimento pelo pescoço magoado.

— Podem deixá-lo. — Anunciou Nehir para todos os que agarravam o ferido. — Swol ajudou-nos por agora, mas os próximos tempos é que dirão se se salva ou não.

— Os outros têm de chegar com a cabeça do auroque antes do nascer do sol. — Zia sussurrou preocupada para a filha, antes de gritar para a audiência com os braços no ar: — Swol seja louvado!

— Swol! — Responderam os presentes em êxtase, fazendo ressoar as suas vozes nas pedras do círculo inacabado.

A curandeira colocou, cuidadosamente, um pouco de mel em volta do novo ferimento para evitar infeções e segurar a agulha de osso que lhe permitia respirar. Depois untou-lhe o pescoço com uma pasta de urtiga e lavanda para reduzir a dor e a inflamação.

— Vai viver? — Perguntou Amanur, quase para ninguém em especial.

— Está salvo para já. Mas não pode falar e só poderá beber, não comer. Só respira por este buraco. — Confirmou Nehir sobre os gritos de graças dos acólitos. — Temos o mau Ansu[3] que está no pescoço e que o pode matar ainda. Se o tirarmos de lá, daqui a uns dias poderemos tirar o osso que lhe pus. Precisamos da cabeça do auroque. Vem, reza connosco.

— Rezar? — O outro hesitou com um trejeito da boca. — Ao vosso deus? Swol? O nosso é Tarunte, o deus do trovão.

— Também adoramos Tarhun, deus do trovão e da guerra. — Esclareceu Nehir com estranheza. — Mas é Swol, o rei dos céus, quem comanda a vida. Ele salvou o teu companheiro. — Encolheu os ombros e juntou-se ao coro.

Desconfiado, Amanur quedou-se de joelhos junto de Tibaro. O seu amigo estava salvo para já. Seria Swol ou Tarunte o seu salvador? Aquele círculo inacabado de pedras era tão rude quanto intimidante e o ídolo grosseiramente talhado no menir central parecia escarnecer dele.

A curandeira e a xamã mandaram distribuir uma infusão de folhas de secas de papoila e ajoelharam-se, sentando-se sobre a parte anterior das pernas, sempre implorando a ajuda do deus. Todos os presentes colaboravam no som ressonante e profundo que parecia preencher todo o espaço e ressaltar nas pedras.

Rompiam os primeiros alvores da madrugada quando o grupo de oito homens, alagados em transpiração, surgiram no santuário. Quatro deles transportavam a descomunal cabeça segurando-a com esforço pelos longos cornos. Os outros quatro traziam as patas traseiras e dianteiras em cestos de vime. Os gritos de graças, que já duravam há uma eternidade, calaram-se abruptamente. O tamanho do troféu era maior do que alguma vez alguém havia visto.

Alguns homens e mulheres, entorpecidos pela imobilidade e atordoados pelos efeitos da infusão, acudiram a animar o fogo que era pouco mais do que umas pequenas chamas que refulgiam entre os troncos quase consumidos. Gerou-se de imediato uma atividade frenética e curiosidade em volta dos recém-chegados.

Amanur falou apressadamente com Kiala e Himono, apontando alternadamente para Nehir e Zia, contando tudo o que se passara durante a sua ausência. Ambos olharam com espanto para Tibaro e apertaram-lhe os braços com alegria, vendo-o a recuperar as cores.

A Xamã, assim que achou a fogueira digna do sacrifício, reuniu seis guerreiros que com ela dançaram em volta da dos despojos do auroque, pousados no chão aos pés da pedra sacrificial onde estava ainda deitado Tibaro. A cada três passos, apontavam as lanças para a cabeça decepada, simulando atacá-la.

Os gritos de Swol dos assistentes e os de ameaça dos dançarinos, o rufar das peles deixava-os a todos como que hipnotizados, a transpirar e de olhos esbugalhados. Por fim, a um grito de Zia, com as mãos erguidas, todos se imobilizaram e o silêncio caiu como uma pedra em todo o espaço. Numa aproximação ritual, Erem, imponente debaixo da temível pele de leão, caminhou rodopiando artisticamente uma clava que desfechou com força na cabeça do auroque.

— Swol! — Gritou Zia. — Salva o nosso irmão! — Como um eco, toda a assistência repetia as suas palavras. — Envia o mau Ansu[4] para junto de Welnos[5]! — Nova pancada com a clava. — Oferecemos-te este ser magnífico, que deu a vida para que o nosso povo não tenha fome!

Com estas palavras, os guerreiros ergueram a cabeça decepada e colocaram-na sobre a fogueira onde começou a crepitar. Zia e Erem colocaram as patas dianteiras da besta a cada um dos lados da cabeça. As traseiras seriam depois atiradas ao rio para que o auroque nunca consiga completar-se e perseguir os seus matadores.

Durante horas, sob o olhar atento dos estrangeiros, homens e mulheres cantaram e dançaram em volta do fogo onde os restos da besta se consumiam, embora alguns desistissem e fossem e abandonando a cerimónia.

Quando apenas já pouco restava identificável na fogueira, eram apenas seis os membros do clã que ainda se mantinham a acompanhar o chefe, a xamã e a curandeira.

Tibaro acabara por adormecer na sua “cama” de pedra coberto com uma pele negra e só quando os cânticos foram substituídos pelas conversas dos resistentes é que despertou novamente. Zia e Nehir ajudaram-no a erguer-se e logo se aproximaram os seus companheiros, que até ali se haviam mantido sentados em pedras a assistir. O paciente foi levado para a tenda de Nehir onde continuaria o seu descanso tão necessário à recuperação.

Erem, visivelmente cansado, despediu-se dos “resistentes” e dirigiu-se para a sua cabana, logo seguido por Zia. Mas os acontecimentos não haviam acabado naquela manhã, onde o sol já ia alto; no largo em frente à sua casa, o cativo jazia, ainda amarrado ao poste, com a cabeça pousada numa poça de sangue e lama. A pouca distância dele estava a pedra que utilizaram para o matar.



[1] Deus pai e deusa mãe.

[2] Espíritos

[3] Espírito

[4] Espírito

[5] Deus do submundo



ANTERIOR

A SEGUIR

14 - Decisão Difícil

16 - A Embaixada

Introdução
Share:

Em Destaque

Na Madrugada dos Tempos

    Em “Na Madrugada dos Tempos” é contada uma história passada na alvorada da civilização e, embora me tenha preocupado com o rigor d...

Receba as últimas novidades

Receba as novas publicações por correio eletrónico:

Mensagens populares

Número total de visualizações de páginas

Publicações aleatórias

Colaborações


Imprimir

Print Friendly and PDF