sexta-feira, 2 de julho de 2021
Um Grande Orgulho
terça-feira, 29 de junho de 2021
Idiossincrasia
Este texto é uma obra de ficção. Embora possa incluir referências a eventos históricos e figuras reais, a história, os diálogos e as interpretações são fruto da imaginação do autor. Qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, é mera coincidência.
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Image by Gerd Altmann from Pixabay |
— Sim, ouviu bem. Peço desculpa! — Humberto mostrava-se verdadeiramente contristado a falar com o Inácio, quando se encontraram casualmente ao sair do bloco de apartamentos onde ambos residiam. — Por toda a razão do mundo que
eu pudesse ter, nada me dava o direito de falar consigo da forma como falei.
Ele estava consciente da expressão apatetada de Inácio, de quem
era vizinho vai para dez anos, que não sabia como reagir a esta sua nova atitude
completamente discordante da que sempre lhe conhecera.
Como a maior parte
dos habitantes de prédios, conheciam-se mais ou menos superficialmente, fruto de
contactos esporádicos em reuniões de condomínio, ou na frequência das áreas
comuns do edifício, como as garagens, átrios, escadas ou elevadores. A relação entre
ambos, porém, sempre fora tensa e desagradável, devido ao péssimo feitio de
Humberto, que explodia ao mínimo contratempo e partia para o insulto pessoal e
a ameaça física. Não era, de resto, apenas com Inácio esta atitude, a fama dele
alargava-se a todo o bloco… e à maior parte dos locais frequentados por ele.
— Mas que se passa consigo? — Interrogou o baixo e anafado
vizinho, entre o receoso e o divertido. — Está doente? Alguma doença em fase
terminal?
— Não, Graças a Deus que não… penso eu. — Humberto sorriu,
para maior espanto do interlocutor. — Apenas estou a pôr a mão na consciência e
a perceber que não tenho agido bem consigo estes anos todos e, principalmente ontem,
quando discutimos por causa do seu cão a ladrar no corredor quando você entrava
em casa. O barulho incomoda-me e peço-lhe por favor que evite que o animal o faça
naquele local onde ecoa imenso. Tenha um bom dia.
Com estas palavras, voltou-lhe as costas e caminhou pelo
passeio, deixando o vizinho olhando-o assombrado, segurando a porta da entrada
com uma mão e o saco de papel da padaria na outra.
Humberto tinha consciência do seu péssimo feitio e muitas
das vezes arrependia-se, algumas horas depois, das coisas que dizia ou fazia. Mas
o simples relembrar da situação, trazia de volta o azedume e acabava por rematar
com um sentenciador “Foi-lhe bem feita!”
Não era nenhum “hércules”. Nos seus quarenta e muitos anos,
sempre fora magro, alto e seco de carnes; era a violência latente nas suas
palavras e gestos, aliada à transfiguração instantânea de uma pessoa educada
noutra sem qualquer filtro, que surpreendia e deixava sem reação as “suas
vítimas”. Não poucas vezes, se vira envolvido em trocas de socos com alguns
objetos da sua raiva, menos preparados ou educados, ou que simplesmente não
aceitaram ser desaforados de ânimo leve. A coisa resolvia-se em poucos segundos;
ou ficava-se, ou os presentes envolviam-se e separavam os contendores,
permitindo-lhe manter a face (intacta).
A sua existência decorria num mundo onde as pessoas pareciam
fazer fila para o desfeitear, desprezar, ou simplesmente aborrecer e ele fazia
questão de se manifestar ruidosa e odiosamente, sempre que tal acontecia. Mesmo
no emprego, a maior parte dos colegas de trabalho, temiam-no ou evitavam-no, apesar
de lhe reconhecerem a diligência e eficiência profissionais. A grande exceção
era Lucília, sua mulher, que conhecera nesse mesmo emprego e com quem
casara, rendido aos seus encantos e à surpreendente capacidade de dulcificar o
seu comportamento. Apenas a ela aquiescia quando censurado e só a ela
reconhecia o seu problema. Após a violenta discussão com Inácio na noite
anterior, Lucília, cansada e envergonhada dos problemas com os vizinhos, repreendeu-o
asperamente e apresentou-lhe um ultimato: Ou ele mudava de atitude, ou ela mudava
de casa… sozinha.
Humberto não conseguia conceber a sua existência de regresso
à solidão dos tempos antes dela. Quando discutia no emprego, bastava um
vislumbre da sua presença, para que o possante dragão que cuspia fogo pelas
ventas, se transformasse num dócil cordeiro, ou no mais cordial dos colegas de
trabalho. Quando regressava a casa, era como se saísse de um túnel quente, escuro
e sujo e entrasse num imenso vale ensolarado, fresco e florido. A sua “fada do
lar” recebia-o com o “solvente de mau-humor” que só ela possuía. Por isso, decidiu
que aquele dia seria o primeiro do resto da sua vida mais tolerante e afável.
Envolvido nessas doces vibrações, sonhava acordado com a
admiração e alegria que esperava ver mais logo nos belos olhos da sua doce
Lucília. Ignorou de forma estoica o buzinar insolente do camionista quando se
demorou a atravessar a passadeira, não resmungou, como sempre fazia, pelo ruído
das motos e deu os bons dias a muitos dos conhecidos, alguns dos quais se
imobilizaram no passeio, para confirmar se tinham ouvido bem.
No Pão Quente, não se incomodou pelo facto do funcionário ter
atendido primeiro os que estavam sentados, nem por ter três outros clientes à
sua frente. Quando chegou à sua vez, sorriu e saudou o empregado, deixando-o
ainda mais nervoso e confundido. Quando este pousou o saco de papel com o seu
pedido em cima do balcão, um dos pães rodou para o tampo de granito e ele colocou-o
rapidamente de volta à embalagem. Humberto estremeceu e arregalou os olhos,
corou, mas controlou-se e expeliu ruidosamente o ar do peito.
— Meu caro. — Avisou apaziguadoramente para o jovem
funcionário que parara de respirar, pois percebia ter cometido uma falta, embora
não soubesse ainda qual. — Esse pãozinho, rolou num balcão duvidosamente limpo
e você apanhou-o com a sua mãozinha descuidada, pois a luva ficou ali em cima
da prateleira. Importa-se de o substituir?
Como um foguete e
quase em pânico, o rapaz calçou a luva de plástico, pegou novo pão da caixa e
trocou-o pelo “conspurcado”. O sorriso condescendente de Humberto estremeceu e
desmoronou-se quando, o solícito funcionário, arremessou a unidade recusada para
a caixa onde se encontravam os restantes pães para venda.
“Lembra-te, este é o primeiro dia de uma nova vida!”
Humberto recomendou para si próprio, quando virou as costas ao balcão onde
deixara as moedas para pagamento, sem agradecer nem se despedir. “Pelo menos aquele
pão já não será para mim.”
Regressou a casa, satisfeito consigo mesmo, enquanto
contornava alguns dejetos canídeos abandonados no passeio. Evitou os seus comentários
a meia voz contra os amantes de animais, porcos, ignorantes e menos
inteligentes que o seu animal de estimação. Não insultou a criança que quase o
atropelou com a bicicleta nem se sentiu incomodado com o cão que o veio farejar,
no limite da trela do dono.
Estava realmente um belo dia de primavera, com sol e uma
temperatura amena, os pássaros chilreavam nos fios elétricos e nos beirais dos
telhados. Tudo para ser feliz, não percebia como podia estar sempre zangado.
Em frente à porta de entrada, com o saco do pão debaixo do
braço enquanto procurava a chave no bolso, recebeu sobre o ombro os generosos
dejetos de uma das pombas, “que a estúpida da velha do quinto esquerdo insistia
em alimentar”. Algumas pingas, perante o olhar escandalizado dele, caíram sobre
os alimentos.
Simultaneamente, a porta do prédio abriu-se e de forma
intempestiva, Inácio saiu, arrastado pelo enorme e trapalhão Retriever que
possuía, quase derrubando Humberto. O saco de papel estatelou-se no chão; pães
rolaram pelo passeio em todas as direções.
— Grandessíssima besta! — Explodiu Humberto, descontrolado,
apontando o indicador espetado diretamente aos olhos do outro. — Que tens nessa
cabeça de balofo gorduroso? Não sabes controlar o “cavalo”? Em qual das pontas
da trela está o animal inteligente? Devia de te rebentar essas fuças!
sábado, 29 de maio de 2021
Suspenso
Este texto é uma obra de ficção. Embora possa incluir referências a eventos históricos e figuras reais, a história, os diálogos e as interpretações são fruto da imaginação do autor. Qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, é mera coincidência.
— Vai-te depressa, é o meu marido!
A frase chegou-me
ao cérebro em uníssono com o som característico de uma chave a ser introduzida
numa fechadura.
Saltei na cama,
atordoado e fiquei sentado a olhá-la, um pouco incrédulo.
Ela fitou-me com
os seus olhos azuis. Duas pérolas refulgentes na obra de arte que era o rosto
emoldurado pelo cabelo encaracolado escuro.
Por uns instantes,
uns segundos apenas, gelamos, um frente ao outro, soerguidos na cama onde há
tão pouco tempo havíamos dado largas à paixão. Os seus peitos alvos e fartos,
de mamilos quase invisíveis de tão rosados, subiam e desciam nervosamente, acompanhando
o respirar entrecortado.
— Depressa! — O
tom sussurrado e suplicante, trouxe-me de volta à realidade em simultâneo com o
ruído de passos pesados no corredor.
— Disseste-me que ele
não vinha hoje! — Protestei, recolhendo as roupas de cima da poltrona que havia
aos pés da cama. Dei graças pelos meus hábitos de, mesmo enlouquecido pelo
desejo, amontoar a roupa toda no mesmo sítio.
— Deve ter trocado
o serviço, que queres que te faça? — O sussurro irritado insistia na urgência.
— Não seria melhor
acabar com isto de uma vez? — Engoli em seco.
— Estás cansado de
viver? — A retórica foi suficientemente elucidativa.
Os passos chegaram
junto à porta do quarto e o manípulo rodou devagar. Escondi-me na casa de banho, onde sabia que existia uma saída para o corredor e vesti-me rapidamente, no
escuro, enquanto espreitava pela frincha da porta. Na penumbra do quarto,
consegui divisar o marido; cerca de um metro e noventa de homem, cabelo cortado
à escovinha, envergando o uniforme da PSP e ainda com a arma e o cassetete
suspensos da cintura.
— Que porra de
situação. — Lamentei-me calçando o segundo sapato e observando-o a espreitar a
jovem esposa, que se fingia adormecida.
Esgueirei-me para
o corredor às escuras e em passos largos e silenciosos, encaminhei-me para a
porta de saída do apartamento. Uma manada de cavalos enlouquecidos corria
desenfreadamente no meu peito, enquanto tentava, sem sucesso, abrir a porta que
fora fechada com a chave.
Conseguia escutar
murmúrios do quarto. Devia estar a tentar “acordá-la” para fazer aquilo que
tinha feito comigo nas últimas horas… Porque diabos haveria de voltar tão cedo?
Em vão, apalpei no
topo da credencia pelas chaves que me permitiriam sair daquela situação…
Os murmúrios terminaram
de repente e o corredor iluminou-se com a luz proveniente da casa de banho que
eu acabara de abandonar.
Corri para sala e
olhei em volta; aquela divisão que conhecia tão bem, onde cada maple e cadeira
tinha uma recordação agradável, em busca de um sítio para me esconder. A única
coisa que me pareceu mais adequada foi o sofá; com um salto acrobático, consegui
literalmente mergulhar para a parte traseira, comprimindo-me o mais que pude
entre a parede e as costas.
O som de passos a
entrar na sala… a televisão começou a funcionar… o ruído do cinturão a ser
pousado na mesa de apoio e um peso brutal caiu sobre o sofá, esmagando-me ainda
mais. Quase não consegui suster um gemido.
Deixei-me ficar,
naquela posição tremendamente incómoda, enquanto ouvia a sessão de zapping a
decorrer. Ao fim do que me pareceu uma eternidade, levantou-se novamente, dando
descanso às minhas dilaceradas costelas e ouvi os passos que se dirigiam à
cozinha.
Aproveitei a
oportunidade e corri para a varanda, cuja porta abri muito devagar e passei
para o exterior… não consegui tornar a encostar a corrediça, que me pareceu
ficar presa em qualquer coisa.
Corria uma aragem
fria do fim do verão… o céu sem estrelas era providencial e espreitei para a
rua… quatro andares abaixo. Lembrei-me naquela altura que, de futuro, deveria incluir,
como requisitos na minha lista de escolhas femininas, aquelas que vivessem no
rés-do-chão, vá lá, no máximo primeiro andar… e que os maridos não fossem
polícias, ou qualquer tipo de agente que incluísse armas.
Eu estava a ficar
gelado rapidamente. Na sala, o homem retomara o zapping e de repente, olhou na
minha direção, para a porta mal fechada, de onde devia estar a sentir corrente
de ar. Ergueu-se e começou a experimentar a corrediça para verificar porque
encravava, vi a sua perna sair para a varanda e era óbvio que teria de passar à
próxima e ainda mais assustadora tática de esconderijo: debrucei-me sobre a
balaustrada e fiquei suspenso no vazio, agarrado aos ferros.
O coração parecia
querer saltar-me pela boca. Sentia o corpo todo tremer descontroladamente,
sabendo que não aguentaria muito tempo assim. Abaixo de mim, ligeiramente
desalinhada de uma eventual trajetória descendente, via a varanda do terceiro
piso… conseguira saltar para ali? E depois para a seguinte? Dei graças por não
haver ninguém na rua.
Escutei o ruído do
isqueiro e a longa baforada que se seguiu… as mãos começavam a doer… se eu o
enfrentasse, ele contentar-se-ia com uns socos ou… o mais certo era atirar-me
da varanda ou dar-me um tiro… choraminguei silenciosamente a minha estupidez por
me ter arrastado para aquela situação.
Estava a achar que
não aguentava muito mais, quando vi o morrão do cigarro a voar para a rua, numa
trajetória que me pareceu eterna, até ressaltar em pequenas faúlhas no asfalto.
A porta da varanda fechou-se.
Tentei regressar à
placa salvadora, mas os meus braços não tinham força para erguer o peso do
corpo. Com os pés, tateei freneticamente em busca de algo que me apoiasse um
pouco e facilitasse a tarefa. Os dedos estavam a fraquejar e iriam falhar a
todo o momento. Olhei de novo a varanda abaixo de mim. Tinha de ser! Baloucei-me
e larguei os ferros, lançando-me no vazio. Falhei a balaustrada abaixo de mim por uns milímetros e com os braços agitando freneticamente numa vã tentativa de me agarrar, entrei numa
queda silenciosa e interminável.
Saltei na cama,
sufocado e encharcado em suor.
quinta-feira, 29 de abril de 2021
O Teu Brilho Esta Noite
Este texto é uma obra de ficção. Embora possa incluir referências a eventos históricos e figuras reais, a história, os diálogos e as interpretações são fruto da imaginação do autor. Qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, é mera coincidência.
Estava uma noite serena e morna. Pequenos diamantes
refulgiam sobre o puro veludo negro da noite, guardando a descomunal lua de
prata, que pairava sobre a paisagem. O ambiente ideal para meditar ou sonhar,
naquele terraço do hotel, com vista sobre a cidade de luzes douradas na margem
contrária do rio. A perturbar tão idílico ambiente, estava o som de fundo de
vozes, risos e copos a tilintar. O homem de estatura média, cabelo escuro e
barba aparada, segurando o copo com o líquido dourado e reluzente, preferia o
silêncio da noite estival, à animação que decorria nas suas costas.
André, assim se chamava, ponderara muito, antes de aceitar
comparecer àquela festa, especialmente aquela. Perdera o hábito de frequentar
tais convívios e transformara-se num autêntico eremita. Desperdiçara mais de três
anos, numa embriaguez permanente, enquanto escrevia crónicas com língua
viperina, para as revistas “cor-de-rosa”. Meses de recuperação alcoólica,
disseram-lhe que não poderia viver daquela maneira e afastou-se do gin e da
sociedade. Em vão recebia convites de conhecidos, para que fosse a este ou
aquele convívio, na esperança de serem contemplados, para o bem ou para o mal, num
dos artigos que repentinamente deixaram de jorrar da sua caneta. Desaparecera
do mundo, refugiara-se no seu apartamento e num contrato com uma revista, a
escrever o que lhe pediam. Na verdade, fora mais do que um problema alcoólico a
afastá-lo da sociedade; havia aquela mulher, que não via há uns anos e que lhe
deixara um vazio imenso, a mesma cuja eventual presença o fizera aceitar este
convite. Sofia, era a mulher que nunca conseguiu esquecer, talvez por ser a
única que não se deixou prender na sua teia depressiva e resolveu seguir em
frente, antes que ele a deixasse.
Apreciou o copo quase vazio, sabendo perfeitamente que não
deveria ter aceitado aquela bebida e ponderou deitar o resto no canteiro ali ao
lado. Decidiu-se por não desperdiçar aquela fuga à sua disciplina e esgotou o
conteúdo do copo, inclinando despudoradamente a cabeça para trás, para não
perder nem uma gota. Tendo consciência dos efeitos do álcool no seu já
destreinado organismo, olhou em volta em busca de um local onde pousar o
recipiente esgotado e foi quando a viu.
Atravessando uma das enormes portas que davam acesso ao
terraço e olhando em volta, como se procurasse alguém, ali estava Sofia; trazia
um vestido preto sem alças que contornava os peitos e acentuava a sua cintura
fina, continuando numa saia que abria num gracioso leque terminada por um
rendilhado preto sobre o joelho. Nos pés, calçava sapatos também negros, onde
reluziam alguns brilhantes em volta do tornozelo. Mas era o seu cabelo
acobreado escuro, natural, solto e luxuriante, envolvendo o rosto de linhas
firmes e nariz aquilino, que faziam com que não se conseguisse tirar os olhos
dela. O seu sorriso, enquanto cumprimentava os conhecidos, continuava
deslumbrante e toda ela irradiava luz, ofuscando a própria iluminação
artificial.
Quando ela o viu, foi como se uma nuvem tapasse o sol e o
resplandecente sorriso transformou o belo rosto com um ar preocupado e triste.
Ele apercebeu-se que estava sem respirar e soltou um suspiro involuntário,
enquanto o copo tremeu ligeiramente na sua mão.
— Olá, André. — A voz quente envolveu-o, assim que ela se
aproximou em passos calculados para que a sua passagem fosse notada. — Há muito
que não te via… estás mais magro. Fica-te bem!
— Em compensação, tu estás cada vez mais bonita. Parabéns.
Continuas a atrair os olhos de toda a gente… — ele aproximou o rosto do dela
para um cândido beijo, enquanto sussurrava — … homens e mulheres.
— Vejo que continuas a ser um comentador acutilante. — Ela
sorriu, sem corresponder ao beijo, mas sem se afastar. — Fico feliz por
aceitares o meu convite. Vai ser agora que me vais brindar com umas linhas num
dos teus artigos de gosto duvidoso, naquela revista execrável?
— A revista execrável paga-me o ordenado, sem ter de
arriscar a vida nas guerras deste mundo, como fazia antes… fazíamos. — André
encostou-se à balaustrada da varanda e cruzou os braços sobre o peito, sem
soltar o copo vazio. — De resto, não fui o único a procurar uma “atividade”
mais segura e rentável, deves recordar-te porque me tornei um “vampiro dos
costumes”.
— “Touché.” — Reconheceu Sofia com um sorriso maroto. —
Penso que estás a definir o meu casamento com um rico industrial da hotelaria
como uma “atividade segura e rentável”. Já sei que ninguém consegue esgrimir
palavras contigo sem sofrer uma estocada mortal.
— Ambos trocamos um jornalismo de ação… por atividades
diferentes. — Ele retribuiu o sorriso e a ironia. — Por mim, teve de ser mesmo
assim; os industriais da hotelaria nunca quiseram nada comigo, apenas os
editores de revistas execráveis… pelo menos também não tenho de dormir com
nenhum. Mas descansa — continuou — nunca escreveria nada sobre ti… pelo menos
de mal e o tipo de matéria que eventualmente sairia, não interessa aos meus
patrões.
— Fico feliz que assim seja. — Ela pousou suavemente uma mão
sobre a dele, num gesto de uma cumplicidade antiga, que o fez estremecer. —
Espero que essa trégua abranja o meu futuro marido.
— Não há aqui nenhuma trégua, para isso teria de haver uma
guerra, não te parece? — André endireitou-se enquanto tentava, sem sucesso,
agarrar a mão dela que recuava.
— Oh, mas há, meu querido. — Ela cruzou candidamente as mãos
sobre o ventre. — Uma guerra fria! Há quase dez anos que tens os misseis
apontados na minha direção, à espera de uma “causam belli”.
— Não é verdade. Nunca estive zangado contigo… — defendeu-se
ele. — … apenas desiludido. Aproveitares a minha reportagem para surgires de
repente com o fim da tua carreira ao lado desse… palhaço.
— Eu?!? Aproveitei a tua reportagem? — Ela soltou uma
gargalhada nervosa e cínica. — Depois de te pedir encarecidamente que não
fosses… estiveste fora um ano!
— Foi complicado… — Ele acalmou-se perturbado pelas
recordações. — Fui sequestrado e…
— Bem sei! — Sofia atirou com irritação. — Segui cada
notícia, contactei todos os que conhecia, chateei, persegui um secretário de
estado, para que se interessassem pelo teu problema. — Perante o olhar de
espanto dele, ela fez uma careta cínica. — Achas que te libertaram pelos teus
lindos olhos? Ou pelo teu talento jornalístico?
— Não sabia…
— Bem sei que não! Pedi que não dissessem. — Ela volveu o
olhar ao chão. — Também não deves saber que abortei três meses após a tua
partida…
— Meu Deus! — O espanto de André dizia tudo. — Que
aconteceu? O nosso filho, estavas grávida?
— Quando te foste também ainda não sabia. Não sei o que foi,
alguma incompatibilidade, deficiência, stress, sei lá. Agora também não
interessa, não quero falar disso. — Sofia falou rapidamente enquanto atirava
tudo para trás, com um gesto e uma expressão triste. — Isto não está a correr
nada como eu esperava. Queria que ficássemos amigos, tenho saudades das nossas
conversas…
— Só das conversas? — Ele baixou a cabeça para lhe poder ver
os olhos verdes que lhe devolveram o olhar nervosamente. — Nunca deixei de te
amar…
— Meu querido. — Sofia ergueu a cabeça, endireitou os ombros
e deu um passo atrás. — O que foi não volta a ser! Estou casada e feliz há dez
anos. Gosto muito de ti e gostava muito que fossemos amigos, mas só isso.
— Que esperavas? Que festejasse contigo? — André
enfureceu-se. — Regresso de uma das piores experiências da minha vida para
encontrar a mulher com que amava casada com o playboy dos hotéis!
— E que esperavas tu? — Por uns instantes os olhos dela faiscaram
de raiva. — Foste embora na altura em que mais precisava de ti, porque a tua
carreira, ou o teu desejo de morte, era mais forte! Preferias a adrenalina de arriscar
a vida nas reportagens dos conflitos, do que a alternativa de uma existência
medíocre de classe média… ao meu lado. — O rosto suavizou-se e acariciou-lhe ternamente
a face. — Acabaste por deixar tudo na mesma, para te tornares ainda mais amargo,
do que já eras em tempos de paz.
— Vem comigo! — Pediu André tentando segurar a mão gelada que
lhe acariciava a face. — Deixa tudo isto, as luzes, a riqueza desse homem que
não vale nada. Sabes que o negócio dos hotéis é a capa para a venda de armas
nos conflitos, por isso nos encontrávamos os três, muitas vezes, durante o
nosso trabalho.
— Também nós e tu mais do que eu, vivemos desses mesmos
conflitos. — Ela puxou a mão suavemente. — Por mim já tinha demasiado tempo,
suja de terra nos campos de batalha, ou nos hotéis bombardeados, sempre à
espera que o meu quarto fosso próximo atingido e pedia que, quando o fosse,
atingisse em cheio e não me deixasse estropiada ou a sofrer. — Sofia pousou os
olhos no chão. — Chama-me fútil, mas estou numa vida cómoda rodeada pelo luxo e
tudo o mais que quiser. Não vou retroceder.
André fitou a mulher com estranheza, como se a visse pela
primeira vez. Aquela não era a sua antiga companheira, aquela que partilhou o
perigo com ele, em mais de uma dezena de conflitos por esse mundo fora. Que tivera
nos seus braços, escondidos entre os escombros, durante os bombardeamentos. Não
era a mulher que tirara fotos fantásticas que ilustraram os seus relatórios
apaixonantes e que fizeram as páginas principais de revistas e jornais. Afinal,
também ele já não era o repórter de guerra, mas sim um frívolo cronista, mais ocupado
com quem dorme com quem na sociedade. Já não contava histórias de morte e paixão
pela liberdade, mas sim os podres da existência humana em tempos de paz, vivida
às custas de outras guerras.
— Este senhor está a incomodar-te, querida? — Ao lado dela
apareceu um homem, ligeiramente mais baixo, praticamente careca, mas
impecavelmente vestido com um fato de corte moderno. — Queres que chame os
seguranças? — Exibiu um sorriso de superioridade, enquanto abraçava a mulher
pela cintura. — Como estás, André? Quem é a “vítima” do teu desprezo pela
sociedade esta noite? Espero que não a minha doce Sofia.
— Já a descansei a ela e descanso-te a ti também, meu caro
Ricardo. — Respondeu o visado erguendo o copo vazio à guisa de um brinde. —
Façamos desta noite, uma noite de paz e… tréguas.
— Ah, a guerra fria! — O outro fingiu um olhar sonhador e
divertido. — Em tempos de paz, prepara-te para a guerra! Há que armazenar mais
e mais armas!
— Graças a isso, há
quem enriqueça mais e mais, sobre armazéns de armas, ou pilhas de cadáveres! —
Atirou André amargamente, fazendo com que Sofia arregalasse os olhos num aviso.
— Acutilância! — Divertido, Ricardo piscou um olho e apontou
o indicador ao outro, numa expressão marota. — Em todos os conflitos, ganha quem
tiver mais recursos! É uma lei da vida! — Apertou mais e agitou significativamente
a cinta de Sofia. — Julguei que tivesses aprendido alguma coisa nos anos de
guerra que ambos vivemos. — O sorriso desapareceu rapidamente enquanto olhava para
a mulher. — Temos de ir, querida, o presidente da câmara está ansioso por te
conhecer. — Depois tornou para André. — Aprecia o melhor que puderes desta
festa. Sei que o tema não te agrada, mas enfim, quando não podemos caçar,
comemos do que nos dão!
Sofia deixou que Ricardo a puxasse suavemente, deitando
apenas um último olhar contristado ao antigo companheiro.
André ficou ali, encostado na balaustrada, vendo os dois
afastarem-se, dividido entre o olhar triste de Sofia e o sorriso triunfante de
Ricardo. Com ela, ia-se o sol embora de vez e repousava sobre os seus ombros
uma noite eterna e fria, que teria de passar sem a mulher que amava.
— Aproveitemos o que nos dão, enquanto se dissipa o brilho de Sofia! — Concluiu para si próprio, afastando-se da parede e caminhando lentamente para o salão. — Preciso de uma boa bebida, para tirar este sabor amargo da garganta.
domingo, 11 de abril de 2021
Revista Divulga Escritor - Abril 2021
Já saiu a revista Divulga Escritor de abril 2021. Pela segunda edição consecutiva, as homenagens ao meu amigo e editor, desaparecido recentemente, aparecem pela voz de quem o conheceu, pessoalmente ou à distância. Todos os que, de alguma forma, contactaram com o Isidro Sousa, não ficaram indiferentes e reconheceram-lhe muitas qualidades e vontade de singrar na vida. O seu inesperado desaparecimento, chocou e continua a chocar a comunidade de escritores que com ele convivia.
segunda-feira, 29 de março de 2021
Os Anjos Têm Olhos Azuis (Republicação 2016)
Este texto é uma obra de ficção. Embora possa incluir referências a eventos históricos e figuras reais, a história, os diálogos e as interpretações são fruto da imaginação do autor. Qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, é mera coincidência.
quarta-feira, 17 de março de 2021
Histórias da Chuva e do Vento -- De novo os Pentautores
Mesmo em plena pandemia, a imaginação dos Pentautores não pára!
A convidada escolhida por Ana Paula Barbosa, Carlos Arinto, Jorge Santos, Manuel Amaro Mendonça e Suzete Fraga, desta vez foi Ana Maria Monteiro, membro do grupo "Tertúlia A Velha Escrita" que se reúne semanalmente.
Durante mais de duzentas páginas, os Pentautores e a sua convidada contaram algumas novas histórias.
Nas palavras da nossa convidada:
"Qualquer história poderá sempre ser da chuva, do vento, do que quisermos, pois nós próprios somos um acaso que se constrói ao sabor dos elementos que sujeitamos e nos sujeitam. Somos vento, chuva, tempestade, acalmia, onda, rio, nascente, leito, foz. Dificilmente as imagens animadas, que ganham corpo dentro de nós enquanto lemos, serão apagadas algum dia. Esse é o poder da palavra escrita — fica impressa, por vezes marcada a fogo dentro do leitor."
Não perca, por isso, mais esta fantástica antologia e venha ouvir as histórias da Chuva e do Vento.































