Debaixodosceus.pt e Amazon.com: Uma parceria de sucesso
2017 Publicação "Daquele Além Marão"
2020 Foi criada a nova imagem
2017 Apresentação na Casa dos Transmontanos do Porto
2022, Pela primeira vez, publicação em capa dura além de capa mole
2017 Apresentação na Confeitaria Luso-brasileira
2020 Publicação "Entre o Preto e o Branco"
2017 Apresentação no CITICA de Daqueles Além Marão
2016 Apresentação no CITICA de "Lágrimas no Rio"
2016 Publicação de Lágrimas no Rio
2016 Apresentação no ISLA de "Lágrimas no Rio"
2015 "Terras de Xisto" - A primeira publicação
2022 Publicação de "A Caixa do Mal"
2022 Devido ao seu sucesso, "Lágrimas no Rio" tem 2ª edição
2022 Publicação "Na Sombra da Mentira"
2022 Publicação "Depois das Velas se Apagarem"

sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

Acordar

Este texto é uma obra de ficção. Embora possa incluir referências a eventos históricos e figuras reais, a história, os diálogos e as interpretações são fruto da imaginação do autor. Qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, é mera coincidência.

 


Rosa mexeu-se debaixo dos cobertores. Manteve a cabeça coberta pois não queria sair para o ar, que sabia estar frio. Ainda estava meio a dormir e deixou-se estar a ouvir os barulhos da casa: conseguia escutar os sons na cozinha: portas dos armários a fechar e talheres e pratos em movimento. A sua mãe deveria estar a preparar o pequeno almoço, bem quentinho, que ela devoraria num ápice. Depois sairia a correr para ir ter com a sua melhor amiga, despachando um veloz “Até logo, mãe!”,  para as brincadeiras e correrias, mesmo quando tinha de ir à fonte buscar a água, nos tempos em que não havia canos que a entregassem em casa. Mas essas eram memórias antigas; o tempo em que vivia com a mãe, o pai, o avô e a avó numa modesta casinha. Já todos partiram, envoltos nas brumas da memória, há muito, muito tempo…

Relutante, espreitou por entre a roupa, enfrentando a luz que inundava o quarto; aquela não era já a pobre habitação dos seus pais, mas a casa que ela e o marido construíram com grande esforço. Agora, que os filhos já tinham seguido cada um o seu próprio rumo, parecia maior que nunca. Recolheu-se de novo para debaixo das mantas e esticou a mão para o outro lado da cama, vazio e frio. “Poderia ser ele quem estava na cozinha.”, pensou, tendo a noção de ainda não ter despertado completamente, “E daqui a pouco vem aí, ver se já acordei.” No sono semiacordado viu-se vestida de noiva, cercada da família de ambos, saindo da igreja num dia de sol… tantos que eles eram… e quase todos já deixaram este mundo. Olhou a sua mão pálida e enrugada e teve a noção de que também ele, companheiro de uma vida inteira, se fora. Como todos os outros, não passava agora uns quantos fios que as Parcas fiaram e urdiram quando desenharam o seu destino, entrelaçado no dele.

A imagem do seu próprio rosto liso e pele macia, de longos cabelos negros ainda estava fresca na sua memória, quando a porta do quarto se abriu suavemente deixando espreitar uma sorridente senhora na casa dos cinquenta anos.

— Bom dia dona Rosa. — Saudou melodiosa a recém-chegada. — Então, não queremos acordar hoje? Já cá estou há um pedaço, mas estava a dormir tão bem, que não a quis acordar. Sente-se melhorzinha hoje? Vamos fazer a higiene e tomar o pequeno almoço?

Com esforço, Rosa sentou-se na cama e esfregou os olhos que fitou na imagem do espelho da comoda, mesmo em frente à cama: uma octogenária, de rosto enrugado e alvos cabelos revoltos, estava sentada numa cama em desalinho e devolvia-lhe o olhar.

— Vem almoçar à cozinha? — A cuidadora insistiu.

— Sim, vamos. — Respondeu com as lágrimas a correr no rosto. — Mas tape-me esses espelhos, que eu não quero ver essa velha!


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segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

Porto Cor-de-Roxo de Fernando Morgado

 


Encontra-se à venda desde o dia 7 de janeiro, o novo livro de Fernando Morgado, escritor e poeta portuense, que já nos habituou à divulgação do seu trabalho nas páginas do Facebook. A capa, de minha autoria, com imagens fornecidas pelo próprio, é um trabalho do qual me orgulho particularmente.



Fernando Morgado

Depois da sua participação como convidado na antologia "Heranças" do grupo Pentautores (Ana Paula Barbosa, Carlos Arinto, Jorge Santos, Manuel Amaro Mendonça e Suzete Fraga), sentiu que era a altura de ter uma obra apenas sua. O momento certo para publicar o seu amor pelo Porto, a sua história e as sua gentes, sem esquecer o sotaque que nos faz tão característicos e do qual se orgulha particularmente.

Ao longo de cerca de 260 páginas, o autor conta-nos histórias de amor e histórias tristes, que muitas vezes são uma e a mesma coisa, enquanto desfia o linho e tece um tapete em texturas de amor e dor.

Com prefácio de Suzete Fraga, a autora de "Almas Feridas",  este é um livro que vale a pena ler, para aqueles que amam o Porto e também para os que aprenderão a amá-lo.

Não deixe de ler "Porto Cor-de-Roxo"



Esta obra pode ser adquirida em qualquer sitio da Amazon na internet,  através do e-mail do autor ou poderá mesmo contacta-lo diretamente pelo Facebook.


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sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

Entre o Preto e o Branco no Minho Digital

 

Mais uma divulgação dos meus trabalhos. No semanário Minho Digital, editado pelo jornalista Manso Preto, foi publicada a entrevista que dei à revista Divulga Escritor sobre o lançamento do meu livro "Entre o Preto e o Branco" lançado em 2020, em plena pandemia.

 





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quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

Saudades do Mar


Está este 2020 de má memória nas vascas dos últimos dias. 

Desde fevereiro que o mundo é reinado pela Peste, o primeiro dos cavaleiros do apocalipse, segui-lo-ão os outros três malditos? Quase posso escutar o seu tropel distante...

Cansado de recolhimento, fui ver o mar. Apesar de viver a poucos quilómetros, há uns meses que não ia à praia. 

As estátuas lá estavam, representando uma tragédia distante, num desespero sempiterno, imóveis em gestos impotentes e bocas hiantes em gritos mudos de quem gritou e chorou há tantos anos atrás.

O céu de chumbo repousa sobre o mar calmo e sereno com as ondas suaves que o perturbam de quando em quando. As nuvens que parecem repousar nas águas reluzentes da luz que parece prometer um sol distante. Lembrei-me das palavras Do Livro: 

 "E a terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo; e o Espírito de Deus movia-se sobre a face das águas.Gênesis 1:2

Neste cenário primevo, as gaivotas voam baixo, ou dão risadas, em grupos amontoados nas areias planas, junto à rebentação, sem respeitar o distanciamento social.

O calçadão está deserto e apenas um corredor, quase no limite das forças, passa por mim, ignorando-me no castigar do seu próprio corpo. No areal, uma mão cheia de surfistas prepara-se para cavalgar as ondas envergonhadas, talvez já arrependidos de terem saído da cama para um mar tão calmo.

Cheguei por fim à gigantesca "Anémona", que vigia o Castelo do Queijo, mais além.

Cheguei ao fim do meu passeio, às 8 da manhã, sozinho na praia vazia, com 5° de temperatura e a promessa de chuva. Acho que já chega para matar a saudade do mar.


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terça-feira, 29 de dezembro de 2020

Traição

Este texto é uma obra de ficção. Embora possa incluir referências a eventos históricos e figuras reais, a história, os diálogos e as interpretações são fruto da imaginação do autor. Qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, é mera coincidência.

 


Na penumbra da sala, reinava pesadamente o silêncio, apenas interrompido a espaços pelo crepitar do fogo na lareira. Lá fora o vento rugia, naquela temível manhã de janeiro, disparando gotas de chuva contra a vidraça.

Ele estava afundado no sofá individual ao pé da lareira, com os pés esticados sobre um pequeno banco e o olhar vidrado, perdido sobre o telemóvel que repousava na mesa de apoio. Estava já nos últimos anos dos quarenta, bastante magro e com olheiras profundas no rosto pálido. Os fios de prata no cabelo ondulavam à luz bruxuleante da chama. A sua mão esquerda brincava com o que parecia um pequeno cartão de visita.

Estremeceu com o súbito toque do telemóvel. Aquela melodia, escutada tantas vezes, trouxe-lhe memórias de ocasiões felizes... e outras nem tanto.

No ecrã do equipamento o rosto sorridente de um homem entre os trinta e os quarenta, de cabelos desgrenhados claros. O nome “Ricardo” piscava ao ritmo da música.

Após uns segundos de hesitação, ele soergueu-se, clicou para atender e encostou o telemóvel ao rosto. Do outro lado, uma voz grave e enérgica interpelou:

— Olá bom dia dorminhoca. Tudo bem?

— Bom dia... — A resposta foi rouca e arrastada. Do outro lado fez-se um silêncio, fruto da surpresa. — Desculpa, sei que esperavas a Sandra.

— Pois…, sim. Ela está? — A voz mudara de decidida para cautelosa.

— Não, ela não está. De facto, estava mesmo aqui a pensar se te deveria ou não ligar.

— Ligar-me?!? — Um tom de incredulidade. — Mas nós conhecemo-nos?

— Na verdade não e já agora, chamo-me Fernando e sou o marido da Sandra.

— Ricardo. — A resposta tardou um pouco. — Mas continuo sem perceber...

— Bem sei. — Um sorriso cansado perpassou nos seus lábios, algo divertido. — Queria ter uma pequena conversa contigo, não te importas que te trate por tu, pois não?

— Como disse, não nos conhecemos, mas não, não me importo.

— É verdade, não nos conhecemos, mas temos uma coisa muito importante em comum... a minha mulher Sandra.

A afirmação soou como um tiro e provocou um longo momento de silêncio nervoso

— Como? Não estou a perceber. — Era uma patética tentativa de ganhar tempo. — Que quer dizer com isso? A Sandra sabe que está a falar comigo? Que é que ela lhe disse?

— Não adianta negar. — O sorriso alargou-se. — Eu sei de tudo: os encontros nos motéis, os jantares, os passeios nos jardins... até mesmo a conferência há dois meses em Londres... — Não se ouvia o respirar do outro lado da linha. — … de todas as formas, não te posso censurar. Ela é uma mulher muito bela e inteligentíssima, uma combinação irresistível.

— Mas... quando soubeste? — Rendeu-se, percebendo que não adiantava negar.

— Oh, já sei há muito tempo. Quase que posso dizer desde o início.

— Não posso crer... e não disseste nem fizeste nada? — Ricardo tentou passar ao ataque. — Há quanto tempo achas que aconteceu?

— Deverá fazer dois anos em Março. Estou certo?

O silêncio do interlocutor era o assumir da culpa.

— Inicialmente não me apercebi de nada, claro. Pelo menos, nada que me fizesse suspeitar disto. — Fernando continuou. — De repente, a relação morna de um casal da nossa idade com muitos anos de casamento, tornou-se muito mais ativa sexualmente. Como já não era há muitos anos. — Limpou uma lágrima que correu no rosto. — Ela procurava-me mais frequentemente e não se negava tantas vezes aos meus “avanços”.

A chuva parara, entretanto e o latido de um cão ouviu-se longe, trazido pelo vento que amainava.

— Eu estava feliz, ela estava feliz, como poderia suspeitar? Nem reparava nas frequentes trocas de SMS, no falar mais baixo ao telemóvel em algumas circunstâncias... estava cego. — O suspiro que se seguiu saiu mais audível do que pretendera. — Até que um dia, ela chegara a casa mais tarde que eu. Estava a tirar as coisas da carteira e vi que trazia amarrotado um pano negro... onde consegui divisar pequenas rendas. Mesmo depois da sua atrapalhação em esconder, fiquei sem qualquer dúvida que trazia na carteira as calcinhas que vestira naquela manhã... Porque traria ela as calcinhas amarrotadas na carteira? Porque as tiraria?

— Há milhares de outros motivos para além de... — Ricardo tentou defendê-la.

— Pois há. Por isso não poderia ficar com a dúvida. Ela disfarçou e escondeu... e eu fingi não ter reparado.

— Ela deve ter pensado que não viste... — Pareciam dois amigos a conversar.

— Mas vi. E, louco de dor e confusão, andei atento a todos os seus movimentos, atitudes e horários... que cada vez aprofundavam mais as minhas suspeitas. Até que um dia, à hora do almoço, fui para a rua em frente à escola onde ela trabalhava e esperei. Não tardou que a visse... que vos visse juntos.

— Sim, encontrávamo-nos ao almoço muitas vezes.

— Para saber a extensão “do problema”, contratei uma pessoa para a seguir durante uma semana e dar-me um relatório; com isso fiquei a saber mais do que queria: o relatório era extenso o suficiente para incluir fotos, horários, os motéis e restaurantes que frequentavam e a altura aproximada em que começaram a ser vistos juntos. Um bom trabalho em suma.

— Nunca nos apercebemos de nada...

— Como eu disse, um bom trabalho. Mas o que me deixava louco era a sua naturalidade, a facilidade e o prazer com que fazíamos amor, a sua vontade e carinho. Parecia que continuava apaixonada por mim...

— E continuava. Ela disse-mo várias vezes. Sempre que lhe pedia para te deixar e vir viver comigo. Nunca o quis, dizia que te amava demais para poder viver sem ti e que o que existia entre nós era uma paixão que ela esperava que passasse um dia.

Foi a vez de Fernando ficar em silêncio por uns minutos. Ambos os homens calados a escutar a respiração do outro através do éter.

— Por fim acabei por me conformar. — Fernando retomou a narrativa. — Aceitei que ela seria discreta o suficiente para não me envergonhar e aceitei que deveria apreciar cada minuto da sua atenção, cada beijo e cada carícia, como dádivas que poderia perder a qualquer momento.

— Foi precisa muita coragem para uma decisão dessas.

— Não, não foi. Muita covardia isso sim, medo de ficar sem ela, sem a mulher que amo. Medo que se fosse e não tornasse mais. A vida sem ela seria insuportável. Mas nos últimos tempos é assim que tem sido mesmo com ela, insuportável.

— Daí esta chamada. — Ricardo sentenciou. — Concluíste que não consegues viver assim e vens pedir-me que me afaste.

— Serias capaz?

— Se isso for o melhor para ela... sim. — Suspirou audivelmente. — Também vou sofrer imenso. Deixei a minha mulher há uns meses, achando que facilitaria a decisão da Sandra, mas ainda não lhe disse que o tinha feito.

— Temes pressioná-la?

— Sim, ela é adorável, mas sob pressão é imprevisível. — Sentiu-se o sorriso na voz.

— Consigo perceber que também a amas, não se trata apenas de um caso.

— Não, não é. Desde o início, desde o primeiro riso, as primeiras palavras, fiquei completamente preso a ela. Julgava que depois de uma certa idade já não era possível uma paixão com tal intensidade.

— E aqui estamos nós os dois... apaixonados pela mesma mulher.

— Não tenho coragem de continuar a fazer-te o mal que temos andado a fazer. Até aqui achava que não sabias...

— Que era um corno feliz...?

— Não, nunca pensamos, pensei, em ti nesses termos. Eras apenas o outro que a impedia de vir para mim de vez.

— Agora não interessa mais, não vale a pena estarmos a discutir sobre isto.

— Que se passa? Zangaram-se? — Ricardo não conseguiu disfarçar a esperança.

As lágrimas corriam agora livremente pelo rosto de Fernando.

— Não, caro amigo, a Sandra teve um acidente de automóvel na noite passada, quando regressava de tua casa. Faleceu de madrugada no hospital... O funeral é às 9h de amanhã e o corpo encontra-se na capela do hospital. Se quiseres podes aparecer... todas as pessoas que a amavam são bem-vindas.



* Revisão de um conto de 2014 publicado no livro Terras de Xisto e Outras Histórias

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terça-feira, 22 de dezembro de 2020

Revista Divulga Escritor - Homenagem a Isidro Sousa

 



A edição de dezembro de 2020 da revista Divulga Escritor resolveu homenagear o escritor e editor Isidro Sousa desaparecido nos últimos meses deste terrível ano de 2020.  Para o fazer, utilizou o meu trabalho com o mesmo tema, o que me deixou muito orgulhoso. 
Logo nas primeiras páginas, o meu trabalho na singela homenagem a este meu amigo, é colocado em destaque junto com a fotografia que tiramos no dia em que nos conhecemos em 2016. Ali estamos eu, ele e a minha esposa, na sessão de lançamento da obra icónica que foi "A Bíblia dos Pecadores".


A editora da revista "Divulga Escritor", Shirley Cavalcante, não quis deixar passar em branco este triste acontecimento e juntar-se a mim e centenas de outros amigos a lamentar a perda desta tão jovem figura das letras.


Com este desaparecimento, cria-se mais um vazio no panorama dos escritores iniciantes, que participaram nas muitas dezenas de antologias patrocinadas pela editora Sui Generis.





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domingo, 29 de novembro de 2020

Expiação

Este texto é uma obra de ficção. Embora possa incluir referências a eventos históricos e figuras reais, a história, os diálogos e as interpretações são fruto da imaginação do autor. Qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, é mera coincidência.


A extensa nave da igreja encontrava-se em semipenumbra. Apenas a luz do luar se coava preguiçosamente através da claraboia setecentista, muitos metros acima. Todo o espaço estava repleto de sombras e as imagens dos santos e mártires, imobilizadas no seu mutismo eterno, eram testemunhas e guardiões do silêncio.

O padre Ramiro, rondando os sessenta anos, assomou à porta que conduzia à sacristia, antes de se mostrar completamente. Envergava um pijama e roupão e calçava uma chinelas de tecido, surradas. Estava já deitado e dormia a sono solto, quando uma urgência, que não sabia bem explicar, o fez levantar-se, deixar a cama e vir até à igreja.

Na segunda fila de assentos, divisou o vulto ajoelhado, rosto escondido entre mãos implorantes. O silêncio intimidante, impunha-se pesadamente.

Após um minuto de hesitação, o sacerdote soprou uma pequena coluna de vapor e apertou mais o roupão, para se defender do ar gelado que repousava no templo. Arrastou as chinelas até junto do vulto e, com um profundo suspiro, ajoelhou a seu lado, imitando a pose implorante, frente ao altar.

O estranho levantou a cabeça ao perceber o recém-chegado. Aparentava uns trinta anos e tinha o cabelo comprido e desgrenhado e a barba negra e crescida, quase tapando o rosto pálido e macilento, onde brilhavam dois olhos pequenos, cor de carvão.

— Também tem pecados a expiar, padre? — Grasnou o homem, ecoando na nave.

Surpreendido, o sacerdote fitou o inusitado companheiro.

— Todos somos pecadores, meu filho. — Esclareceu-o ele. — Todos cometemos pecados, uns mais graves que outros. O importante, é a forma como lidamos com eles. — O estranho olhou-o pensativamente, avaliando-o e sopesando as suas palavras, enquanto o padre continuava. — Temos de reconhecer que erramos e devemos pedir perdão a Deus por eles. Teremos de prometer que tudo faremos para não voltar a pecar.

— E se o pecado não tiver perdão? — O outro insistiu.

— Todos os pecados têm perdão! — O sacerdote foi perentório. — Há pecados mortais, é certo, mas a misericórdia de Deus é infinita e até o mais vil dos pecadores, terá uma oportunidade, se se arrepender do fundo do coração.

— O meu pecado não pode nunca ser perdoado. — O homem fez um esgar amargo.

— Já disse, Filipe, que Deus pode perdoar todos os pecados. — O padre Ramiro reafirmou.

— Como sabe o meu nome? — O estranho estremeceu, muito sério.

— Conheço-te há muitos anos… — Uma lágrima refulgiu nos olhos do sacerdote. — Não me reconheces mesmo?

O chamado Filipe pareceu incomodado com a pergunta e levantou-se, dando uma volta sobre si mesmo, hesitante. Passou a mão pelo cabelo e cofiou a barba fitando o interlocutor com intensidade. Por uns segundos, um pesado manto de silêncio pesou entre os dois; um, em pé, recurvado e o outro de joelhos no suporte do banco da igreja.

— Devia reconhecê-lo? — A voz do estranho tremia, como que acometido do frio, que há muito mordia o padre.

— Não só a mim, como todo este templo, onde estiveste tantas vezes… — Acusou o ministro da igreja.

— Sim, venho aqui de vez em quando… pedir perdão pelos meus pecados… — Filipe arrastava a voz, puxando pela memória.

— E sabes quais foram os teus pecados? — Ramiro sentou-se, observando-o. — Recordas o que tanto precisas que te seja perdoado, que te não deixa descansar e te traz aqui amiúde? Tiveste sequer a noção de quantas vezes me ajoelhei, como hoje, ao teu lado a rezar? Em todas essas vezes nunca me falaste, porém, talvez não estivesses preparado.

O estranho parecia cada vez mais perturbado e acenava negativamente com a cabeça enquanto balbuciava: “Não me lembro…”

— Há quase quarenta anos, entraste nesta igreja com uma mulher sem vida nos braços. — Lembrou o sacerdote. — A mulher que nós amávamos!

— Armanda! — Filipe apertou as mãos contra a boca, o rosto retorcido numa máscara de dor. — Fui eu! Oh, meu amor, fui eu quem a matou! — Depois, num súbito reconhecimento, fitou padre nos olhos. — Ramiro? És tu, Ramiro? Estás tão velho!

— Passaram-se muitos anos, querido irmão. — As lágrimas assomaram com força aos olhos do ancião.

— Perdoa-me, meu irmão! — Implorou o outro atirando-se ao chão, quase junto aos pés do sacerdote.

— Eu é que te peço perdão, por ter permitido que ela se aproximasse de mim, depois de estar casada contigo. Peço perdão a Deus todos os dias, por ser o causador de toda desgraça que nos atingiu. — O padre enclavinhou as mãos numa oração. — Amaldiçoo-me eternamente por me ter deixado possuir por aqueles belos olhos, durante as férias do seminário em tua casa.

— Eu não podia suportar! — Gemeu Filipe, caminhando até ao meio da igreja, no espaço entre os bancos e ajoelhando no tabuado, em pranto. — Foi aqui que a deitei, depois de a ter estrangulado no carro! Eu não queria matá-la, mas não podia suportar que a mulher que eu mais amava no mundo me trocasse por outro homem… ainda que fosse o meu próprio irmão!

Com visível esforço, Ramiro aproximou-se e ajoelhou no chão, junto do outro, os olhos cheios de lágrimas: “Perdoa-me!”, gemeu.

Os dois, ajoelhados no soalho, não passavam de sombras na vastidão da nave do templo.

— Achas que Deus me perdoa? — Ao fim de uns segundos, Filipe estendeu as mãos para o padre. — Achas que ela me pode alguma vez perdoar? E tu, meu irmão, perdoas-me?

— Alguma vez Lhe deste essa possibilidade? A qualquer um de nós? — O sacerdote rouquejou. — A tua solução foi atirares-te ao rio e desaparecer para sempre. O teu espírito vagueou sempre por aqui, incapaz de assumir o mal que fizeste, escondido do julgamento, assim como de qualquer forma de perdão.

Aparentando agora ter mais quarenta anos às costas, Filipe ergueu-se a custo, com os olhos rasos de lágrimas fitos no chão onde em tempos repousou a mulher ambos amaram. Soluçou audivelmente e pousou a mão direita sobre o coração.

Ramiro chorava com ele, mas engoliu em seco e o seu rosto tornou-se uma máscara cheia de majestade e levantou-se apoiando-se nas costas do banco mais próximo. Ergueu os dedos indicador e médio da mão direita, numa autoridade que o seu cargo lhe permitia, enquanto sentenciava “Ego te absolvo, in nomine Patris, et Filii, et Spiritus Sancti. Amen”.

Filipe, atordoado, cambaleou na direção da porta que levava ao exterior da igreja e que abriu de par em par. Uma onda de luz imensa ofuscou todo o espaço, rebrilhando no ouro dos altares, iluminando os rostos tristes das imagens neles contidas, ressaltando nos cristais dos candelabros e nos vitrais das janelas, como uma onda de esperança que Ramiro, tombando de joelhos no meio do templo, recebeu de braços abertos.

Foi de manhã bem cedo, que a equipa de limpeza encontrou o velho abade da freguesia, tombado no soalho frente ao altar. Aparentemente, sofrera um ataque fulminante que lhe levara a vida, antes mesmo de se aperceber do que estava a acontecer, pois o seu rosto exibia um sorriso, sinal de que partira em paz.



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