Debaixodosceus.pt e Amazon.com: Uma parceria de sucesso
2017 Publicação "Daquele Além Marão"
2020 Foi criada a nova imagem
2017 Apresentação na Casa dos Transmontanos do Porto
2022, Pela primeira vez, publicação em capa dura além de capa mole
2017 Apresentação na Confeitaria Luso-brasileira
2020 Publicação "Entre o Preto e o Branco"
2017 Apresentação no CITICA de Daqueles Além Marão
2016 Apresentação no CITICA de "Lágrimas no Rio"
2016 Publicação de Lágrimas no Rio
2016 Apresentação no ISLA de "Lágrimas no Rio"
2015 "Terras de Xisto" - A primeira publicação
2022 Publicação de "A Caixa do Mal"
2022 Devido ao seu sucesso, "Lágrimas no Rio" tem 2ª edição
2022 Publicação "Na Sombra da Mentira"
2022 Publicação "Depois das Velas se Apagarem"

sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

Antologia Eternamente Enamorados



Mais uma participação numa antologia SUI GENERIS.


De: SUI GENERIS
Date: sexta, 13/12/2019 à(s) 11:49
Subject: ETE 014 - Manuel Amaro Mendonça - 1 Texto
To: Manuel Amaro Mendonça

Bom dia, Manuel Amaro Mendonça.

Obrigado pela submissão do seu texto com o título
LUÍS E ISABEL

à antologia «ETERNAMENTE ENAMORADOS».

Recebemos o seu ficheiro em boas condições.
O envio de qualquer texto para este projecto literário pressupõe conhecimento e aceitação de todos os pontos do Regulamento, que se encontra disponível neste endereço:


Se ainda tiver alguma dúvida, faça o favor de esclarecê-la. Estamos disponíveis para responder a qualquer questão.

Todos os textos recepcionados neste email serão submetidos ao processo de selecção para a antologia «ETERNAMENTE ENAMORADOS» e o resultado da selecção será divulgado (de acordo com o Ponto 5 do Regulamento) no prazo de duas semanas após a data limite para recepção dos trabalhos. Recordamos que este projecto colectivo é uma Antologia Sui Generis, organizada e coordenada por Isidro Sousa, responsável pela Colecção Sui Generis, e o livro será editado com a chancela Euedito.

Daremos notícias durante todo o processo de selecção.

Estaremos em permanente contacto com todos os autores participantes. Poderá acompanhar-nos através das redes sociais, das nossas páginas no Facebook, do blogue Edições Sui Generis e dos grupos «LETRAS SUI GENERIS» e «ISIDRO SOUSA E AUTORES».

Resta-me enviar-lhe um grande abraço.

E seja bem-vindo a este trabalho colectivo!

Isidro Sousa
ETERNAMENTE ENAMORADOS
Organização
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sexta-feira, 29 de novembro de 2019

O Natal de Miriam

Este texto é uma obra de ficção. Embora possa incluir referências a eventos históricos e figuras reais, a história, os diálogos e as interpretações são fruto da imaginação do autor. Qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, é mera coincidência.




— Mãe? O que é o Natal?
A mulher, que preparava alguns legumes, sobre a mesa, olhou para baixo, para a filha, com cerca de sete anos. De seguida olhou para o marido, Josh, que se debatia com uma agulha, a coser uma peça de couro. Este devolveu-lhe a mirada, com uma expressão enfastiada, como que percebendo o que vinha por aí.
— Nunca ouviste essa palavra, Miriam? — A mãe sentou-se num bloco de madeira, junto à lareira que crepitava e iluminava-lhe o rosto em tons de dourado.
Percebendo que aquele era o prenuncio de uma das fantásticas histórias da sua progenitora, a criança aconchegou-se no colo dela.
— Não. Apenas agora, quando a disseste. — Os enormes olhos da criança reluziam, expectantes. — Festejar o Natal? É uma festa, então.
O irmão da criança, pouco mais velho, interrompeu as suas brincadeiras e veio sentar-se junto deles.
— Já vi que hoje, vamos comer tarde… — Resmungou Josh, quase de si para si. — Podias deixar essas crendices para depois, Yara.
— Sim, é uma festa. Uma festa de aniversário. — A mulher ignorou o esposo, enquanto começava. — Há muitos, muitos anos atrás, numa terra, muito, muito longe, chamada Belém, nasceu uma criança. Era, porém, uma criança muito especial.
— Porquê? — Os enormes olhos de Miriam estavam fitos no rosto da mãe.
— O povo dessa criança, estava a sofrer muito, com uns homens chamados romanos. Eles estavam a escravizá-los e havia uma lenda que dizia que ia nascer um rei, que iria expulsar esses homens.
 — Ora! — Romi, o mais velho dos filhos criticou. — Se ia nascer ainda, bem podiam esperar que ele se tornasse rei. Já estariam todos velhos! E os romanos podiam matá-lo logo que nascesse, ou à mãe do rei.
— O problema, — Yara continuou, imperturbável. — era que ninguém sabia quem seria a mãe, nem onde nasceria esse rei. Mas as pessoas esperavam-no e desejavam muito a sua vinda.
— E quem eram os pais desse rei? — A curiosidade insaciável de Miriam não dava tempo para explicar.
— Ninguém sabia, como eu disse, mas foram escolhidas duas pessoas humildes, com poucos haveres, que viviam numa região chamada Nazaré.
— Humildes?!? Poucos haveres?!? — Romi não conseguia acreditar. — Um rei não nasce de pessoas assim! Quem os escolheu?
— Quando a mulher engravidou, veio um anjo, que lhe disse que iria trazer ao mundo um rei. — A mãe continuou pacientemente. — O casal escolhido era Miriam e Joshua.
— Como eu e o papá! — A menina estava felicíssima.
— Que é um anjo? — O rapaz estava interessado noutros temas.
— Anjos, são seres de luz, que habitam noutra dimensão. Sós os vemos, se eles quiserem.
— Yara. — Josh censurou, sem, no entanto, deixar o trabalho. — Vais assustar as crianças.
— Não fazem mal a ninguém. — A mãe sossegou-os. — São mensageiros do Senhor dos Céus e foi Ele, quem escolheu e mandou o anjo avisar Miriam.
— Não foi muito esperto, esse Senhor dos Céus. — Afirmou Romi com desdém. — Se escolhesse alguém rico e poderoso, era muito mais fácil para o rei.
Josh e Yara olharam-se rapidamente e riram-se do comentário.
— Tens razão, meu filho. — Concordou a mãe. — Mas Ele preferiu alguém que não estivesse habituado a uma vida boa e sem dificuldades. Queria alguém que não sentisse falta dos luxos e andasse entre os pobres e doentes a consolá-los e a ver o que precisavam. Este, não seria um rei que comanda exércitos, mas o rei do amor e da compaixão.
— Então! — O rapaz ficou perplexo. — Eles não queriam um rei para lutar contra os romanicos?
— Romanos! — Yara corrigiu, sorrindo. — Sim, queriam, mas o Senhor dos Céus achou que eles precisavam era de amor e compaixão, numa altura em que se morria por qualquer coisa e os homens lutavam por tudo e por nada.
— Iiihh! Eles vão ficar zangados! — Concluiu Romi.
— Sim, ficaram, mas isso é outra história e agora estamos a contar a história do Natal. — A mãe teve de cortar as perguntas para poder continuar. — Um dia, Joshua e Miriam, tiveram de ir à cidade grande, Belém, porque tinham de resolver uns problemas lá e foram muito preocupados, porque a criança estava quase a nascer. Mesmo assim, fizeram a longa viagem entre as duas terras, naquele tempo andava-se quase sempre a pé e quando chegaram lá, já era de noite e não arranjavam um sítio para dormir. Andaram de porta, em porta, mas ninguém os ajudava e acabaram por sair da cidade, onde encontraram um barracão de uns pastores para ficar.
As duas crianças estavam penduradas das palavras da mãe, de olhos vivos e atentos.
— Foi assim que o rei dos homens nasceu. Num monte de palha, dentro de uma barraca de pastores, aquecido pelo bafo dos animais que lá se abrigavam. Chamaram-lhe Yeshua. — Não se ouvia um ruído, enquanto ela continuava a narrativa. — Passado algum tempo, começaram a chegar pastores e alguns agricultores com roupa e comida, que ofereceram ao casal e ao recém-nascido. Por fim, até uns reis, vindos de terras distantes, trouxeram prendas valiosas que lhes ofereceram também.
— Como é que essa gente soube? — Miriam estranhou. — Se eram pobres e ninguém sabia que estavam para ali?
— O Senhor dos Céus mandou um anjo avisar as pessoas em volta. E os reis que vinham de longe, já há vários dias seguiam uma enorme estrela brilhante, que atravessava o céu e pareceu parar exatamente por cima do barracão. Todos souberam que aquela criança iria ser muito importante na história da humanidade. Desde essa altura e por muitos, muitos anos, neste dia, o do nascimento de Yeshua, as pessoas davam prendas umas às outras para lembrar o nascimento desse grande rei. Por isso, hoje também vocês vão receber uma prenda. — Dito isso, ergueu-se e presenteou ambas as crianças com um pequeno prato com duas fatias de pão com mel, sorrindo de satisfação perante a alegria deles. — Até o resmungão do vosso pai tem. — Ela apresentou a mesma iguaria ao homem, que pousou imediatamente o trabalho.
— Onde arranjaste isto? — Quis saber o esposo, por entre gulosas dentadas.
— Parece que finalmente, a colmeia que o nosso vizinho tantos se tem esforçado para recuperar, está a ter resultado. — Também Yara se deliciava com o petisco. — Finalmente as pequeninas abelhas se estão a adaptar à atmosfera e a produzir esta doçura.
— Porque é que agora não se festeja o Natal, mãe? E não se fala do rei Yeshua? — Miriam havia devorado a sua porção e estava pronta para mais perguntas.
— Os homens foram-se esquecendo destas histórias e preocuparam-se com outras coisas. — O rosto da mãe era triste. — Durante algum tempo, diziam até, que Yeshua era o culpado das coisas más que lhes aconteciam e que eram apenas consequências das ações deles. Mas isso não interessa agora, mas sim que devemos lembrar que todos os anos, neste dia, é como se Yeshua nascesse outra vez e os pecados dos homens são perdoados.
Como um raio, Miriam correu porta fora e perscrutou avidamente o céu, em busca da estrela brilhante que assinalaria o local onde nascia Yeshua. A abóboda celeste estava imperturbável, continuava coberta de pequenos pontos brilhantes onde, a espaços, um risco veloz aparecia e desaparecia. Sentindo-se um pouco desiludida, sentou-se na entrada da porta. Quem sabe, a estrela ainda apareça, para lhe indicar o caminho. Talvez estivesse, ainda escondida, por trás de uma das três enormes luas, quase alinhadas, que lhe iluminavam a noite.

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quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Pentautores - Cinco Maneiras de Contar Histórias


Num sábado de inverno, fez no dia 19 de novembro, três anos, um grupo de cinco contadores de histórias, reuniu-se na Póvoa de Lanhoso. Os seus elementos, estavam decididos conhecerem-se pessoalmente e conversarem sobre o amor que os unia: a escrita.

Durante um almoço bem disposto, alguém atirou "para o ar" um desafio: "E se escrevêssemos um livro, nós os cinco?" Se bem o pensaram, melhor o fizeram e seis meses depois (não, não foram nove), nascia "Antes Quebrar Que Torcer": quase 250 páginas de interpretações do tema As Invasões Francesas no Norte de Portugal, em 1809.

Passaram-se dois anos e meio, desde esse lançamento inicial e já há nova obra nas bancas: "Além", palavra vaga e aberta às mais diversas interpretações, que deu rédea solta aos nossos autores, durante 265 páginas.

Depois de obra feita e um sentimento de pertença a este grupo cada vez mais coeso, não podíamos deixar de pensar, que se impunha a criação de um símbolo, um emblema, que nos representasse.

Depois de analisar vários formatos e imagens, a escolha caiu sobre este aqui exibido.

Engana-se, quem pensar que se trata de uma imagem avulsa, sem qualquer significado. A fonte escolhida, é semelhante ao tipo da máquina de escrever, para lembrar outros tempos, mais manuais e menos digitais.

Pentautores, porque somos cinco, assim como os dedos da mão: todos diferentes, mas com um interesse comum.

A mão aberta, oferece uma caneta, porque é com a caneta que se escrevem as histórias.

Como disse um dia Virginia Wolf: "Escrever é que é o verdadeiro prazer; ser lido é um prazer superficial".


As obras do grupo Pentautores:

Além - Outubro 2019


Antes Quebrar Que Torcer - Maio 2017

Futuramente teremos outros!



Os Pentautores, em 19 de novembro de 2016.
 Da esquerda para a direita:



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terça-feira, 29 de outubro de 2019

Inácio

Este texto é uma obra de ficção. Embora possa incluir referências a eventos históricos e figuras reais, a história, os diálogos e as interpretações são fruto da imaginação do autor. Qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, é mera coincidência.




Inácio olhou para o espelho. Havia um rosto cansado e macilento, com olheiras profundas e barba por cortar.
Sentia-se a mais miserável das criaturas, quando atirou a água fria para a cara, numa vã tentativa de expulsar os vapores do álcool do dia anterior.
Abandonou a toalha descuidadamente, em cima do lavatório e tropeçou para fora da casa de banho.
O mortiço sol de inverno parecia apostado em ferir-lhe os olhos, através das lentes coloridas, enquanto se arrastava pela calçada, em direção ao emprego, de que estava farto.
Não tomara banho, nem desfizera a barba... não conseguira convencer-se a entrar no chuveiro, mesmo sabendo que se iria sentir melhor.
Parou no pequeno quiosque da esquina e não precisou de pedir o maço de tabaco, pois este foi de imediato colocado em cima do balcão, pela mulher rechonchuda, de ar maternal.
— Bom dia Inácio. — Sorriu-lhe de trás do balcão.
Oscilante, procurou nos bolsos o dinheiro para o tabaco, que contou na mão direita.
Sem responder, mas esboçando um sorriso que mais parecia um esgar, pousou as moedas em cima do balcão enquanto grasnava:
— Dê-me uma raspadinha de um euro. Quem sabe se a minha sorte não mudou de ontem para hoje.
Com um ar de reprovação, a mulher pousou o impresso sobre o maço de cigarros. Recolheu as moedas, sem contar, mesmo sabendo que não eram suficientes, enquanto perguntava:
— Foste para as cartas ontem, outra vez, não foste?
A raspar o impresso, ele deitou-lhe um olhar de soslaio enquanto respondia:
— Que quer, mãe? Já sabe como eu sou...
— Perdeste muito? — Ela tinha lágrimas nos olhos.
— O costume... demasiado.
— Meu filho... não ganhas juízo, valha-te Deus. Que queres fazer da tua vida?
Ele atirou raivosamente com a raspadinha inútil para o chão, mesmo ao lado do cesto dos papeis.
— Recebi o ordenado anteontem e já f** tudo. — Lamentou-se. — Parecia estar a correr tão bem. Tinha duplicado o dinheiro, mas, de repente, foi como me fizessem um mau-olhado e não ganhei mais... foi-se o relógio também… Não vou conseguir pagar a prestação da casa outra vez.
— A Alice já sabe?
— Não… estava a dormir quando cheguei e quando acordei, já tinha saído para o trabalho... — Ele atirou-lhe com aquele olhar de criança perdida, que lhe recordava as tropelias, que ela não conseguira castigar.
— Meu filho, amo-te muito, mas não vou emprestar mais dinheiro.
O rosto de Inácio transfigurou-se numa máscara de desdém.
— Quem pediu dinheiro? — Vociferou.
— Ias acabar por pedir. — A mãe tinha os olhos com lágrimas.
— Não te ponhas com choraminguices! — Gritou-lhe virando as costas enquanto tirava um cigarro do maço e o acendia, com as mãos trementes. — É por causa disso que até vou comprar o tabaco a outro lado!
Não, meu filho. — A mulher assoou-se ruidosamente. — Vens aqui quando não tens dinheiro que chegue. — Fez-se um silêncio pesado entre ambos, enquanto ela retorcia a revista que tinha sobre o balcão e tentava espreitar-lhe o rosto. — Como vais fazer então?
— Não sei. — Inácio soltou uma baforada, sem se voltar, o olhar perdido na avenida que se estendia à sua frente. — Pedi um adiantamento no emprego, no mês passado. Não posso pedir outra vez.
— Já te emprestei mais de mil euros, meu filho. Que pensas fazer da tua vida? Eu não sou rica!
— Vais-me atirar com isso à cara, agora? — Inácio voltou-se, de repente, erguendo os braços em impotência. — Que queres que faça? A sorte não me ajuda! Olha que já ganhei muito dinheiro às cartas…
— Nunca vi nenhum! — Respondeu a mãe amargamente, enquanto abria a máquina registadora. — Quanto precisas para a renda da casa?
Ele atirou-se sobre o balcão e deu-lhe dois sonoros beijos no rosto, mas quando tentou chegar à caixa, foi uma palmada decidida que lhe estalou na mão.
— São trezentos e oitenta "paus" do mês passado e outro tanto deste mês. — Sorriu divertido, fingindo-se envergonhado, enquanto esfregava a manápula.
— Tens aqui quatrocentos, vai pagar o do mês passado, ante que te tirem a casa. — Ela pousou as notas em cima do balcão, sentindo-se imensamente velha. — A culpa de seres como és, é principalmente minha. Sempre tentei esconder as tuas velhacarias do teu pai, pobre coitado, que se matou a trabalhar.
— Deixa lá estar o velhote sossegado. — O homem fez uma careta. — Podia ser muito trabalhador, mas as mãos não eram para fazer carícias, mas para me moerem o lombo.
— Nunca tas deu, que as não merecesses! — Ela defendeu o marido com ardor. — E não levaste mais, porque escondi eu muita coisa e tirei dinheiro de casa para pagar os teus estragos. Nunca fizeste por melhorar, tentavas corrigir uma patifaria com outra ainda maior. Agora que deixaste os bandidos dos teus amigos, gastas o que tens e o que não tens, em cerveja, tabaco e jogo!
— Ora, mãe, deixa-me! Pareces a porra da Alice, sempre a moer-me o juízo! — Ele contou as notas de vinte euros e meteu-as ao bolso, com um sorriso de satisfação.
— Essa pobre criança também tem sofrido bastante nas tuas mãos… — Por uns instantes, o aspeto maternal tornou ao rosto dela.
— Deixa-te disso! Nunca gostaste dela!
— Nunca gostei do aspeto dela, é verdade, de saia curta e sempre pintada, se tem marido em casa, não precisa de se arranjar como se andasse "à caça". — A mulher apontou o dedo acusador ao filho. — Mas ela e o emprego mal pago que tem, é o que vos tem valido para corrigir os teus constantes desatinos! Se te ajudo, não é por ti, nem por ela, é para o meu netinho, que vai passar necessidades, se vocês não tiverem dinheiro.
— Oh, pá, pronto, vai começar a ladainha. Vou-me embora, que vou chegar atrasado ao trabalho.
— Não te dou mais dinheiro, ouviste? — A matriarca gritou-lhe enquanto ele se afastava.
— Sim, sim, ouvi! Até pode ser que hoje já não precise dele! — Ele parou junto da passadeira. — Posso ter sorte!
— Ah, bandalho, que dás cabo de mim! — Gritou a mãe. — Só levas o da renda deste mês, quando vier cá a Alice dizer-me que está pago o atrasado, ouviste?
— A Alice, não sei onde para. — Inácio respondeu-lhe, com uma expressão revoltada, antes de se afastar em passos largos.  — Foi-se embora na semana passada e não voltou mais.
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segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Nova antologia Sui Generis - Bendita Manjedoura



Mais uma participação em antologias. Desta vez sob o tema do Natal, foi incluído um conto inédito "O Natal de Miriam".

De: SUI GENERIS
Date: sábado, 12/10/2019 à(s) 12:12
Subject: BEN 007 - Manuel Amaro Mendonça - 1 Texto
To: Manuel Amaro Mendonça


Bom dia, Manuel Amaro Mendonça.

Obrigado pela submissão do seu texto com o título

à antologia «BENDITA MANJEDOURA!».

Recebemos o seu ficheiro em perfeitas condições.
O envio de qualquer texto para este projecto literário pressupõe conhecimento e aceitação de todos os pontos do Regulamento, que se encontra disponível neste endereço:


Se ainda tiver alguma dúvida, faça o favor de esclarecê-la. Estamos disponíveis para responder a qualquer questão.

Todos os textos recepcionados neste email serão submetidos ao processo de selecção para a antologia «BENDITA MANJEDOURA!» e o resultado da selecção será divulgado (de acordo com o Ponto 5 do Regulamento) no prazo de duas semanas após a data limite para recepção dos trabalhos. Recordamos que este projecto colectivo é uma Antologia Sui Generis, organizada e coordenada por Isidro Sousa, responsável pela Colecção Sui Generis, e o livro será editado com a chancela Euedito.

Daremos notícias durante todo o processo de selecção.

Estaremos em permanente contacto com todos os autores participantes. Poderá acompanhar-nos através das redes sociais, das nossas páginas no Facebook, do blogue Edições Sui Generis e dos grupos «BENDITA MANJEDOURA!», «LETRAS SUI GENERIS» e «ISIDRO SOUSA E AUTORES».

Resta-me enviar-lhe um grande abraço.

E seja bem-vindo a este trabalho colectivo!

Isidro Sousa
BENDITA MANJEDOURA!







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quarta-feira, 2 de outubro de 2019

Além - Novo projeto, para os mesmos autores

Depois de "Antes Quebrar que Torcer", Ana Paula Barbosa, Carlos Arinto, Jorge Santos, Manuel Amaro Mendonça e Suzete Fraga, resolvem juntar novamente os seus trabalhos, numa despretensiosa antologia.

Além é um tema que permite, a cada autor, uma liberdade de pensamento e, como é hábito, as mais diversas variações e interpretações da palavra. Mas ficam aqui algumas palavras de Carlos Arinto, num excerto da introdução à obra:


"Sendo o tema muito abrangente, ou pelo menos, suficientemente abrangente para permitir todas as interpretações, cada um dos autores criou aquilo que lhe parece ser demonstrativo desse espaço imaginado: um espaço onde se pode ir sempre mais além.

O além, não está aqui, mas além. E onde é esse além? Onde o quisermos situar, mas como somos nós que estamos “aqui” temos de nos esforçar por colocar em palavras o que pode existir além.
(...)
As histórias apresentadas são reais, elas existem, e, mesmo depois de apagadas da rede informática que as suporta, depois de ignoradas pelos leitores ou destruídas pelas chamas das catástrofes…continuarão a existir. Se existem, são reais, mesmo que duvidemos da sua existência, enquanto acontecimentos a que um reduzido número de testemunhas dá autenticidade factual. Afinal, a ilusão e o sonho, bem como a invenção e a imaginação, depois de libertos, são imparáveis e voam mais além."

Brevemente, estará disponível no sítio da Amazon, em todo o mundo.

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quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Na Margem do Lago

Este texto é uma obra de ficção. Embora possa incluir referências a eventos históricos e figuras reais, a história, os diálogos e as interpretações são fruto da imaginação do autor. Qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, é mera coincidência.




Tabor avançou até ao tabuado do cais, pela terra amarela e poeirenta, que tudo invadia. Os pés, descalços e sujos, estavam calejados e nem se desviavam das pequenas e aguçadas pedras, que infestavam o chão. Debaixo do inclemente sol laranja, que dominava o céu sem nuvens, sentou-se no toco de madeira, que estava no fim do cais, de propósito para o efeito. À sua frente, a mesma terra amarela e poeirenta, estendia-se até às escarpas desoladas, quase no limite do horizonte, ocupando o lugar onde, ainda há alguns anos, estavam as águas cristalinas que matavam a sede e a fome, a muitas dezenas de famílias. O tablado do cais, erguia-se, como uma ponte inacabada, sobre a terra árida, mesmo ao lado dos esqueletos abandonados de barcos de pesca.
Era pouco mais do que uma criança, quando os pais se mudaram para a margem daquele lago. Sabia que fugiam da guerra, mas pouco mais. Ficaram a viver numa casa de adobe e telhado de junco, construída com as suas próprias mãos, numa comunidade piscatória.
Já devia ter uns dez anos, quando mudaram outra vez. Recordava-se de falarem, com preocupação, da descida alarmante do nível do lago, que diziam ser causada pela guerra, que secara ou desviara quase todos os rios. Como provas dessa guerra, só se recordava de ter visto, algumas vezes, ruidosas máquinas voadoras, cor de areia, ostentando um retângulo vermelho com uma lua branca. Sobrevoavam o lago e faziam todos procurar abrigo, apavorados. Nunca lhes fizeram mal, limitavam-se a rasgar o céu, com estrondo e até elas, com o tempo, deixaram de aparecer.
Foi necessário, nessa altura, construir novo cais, umas boas centenas de metros mais à frente e arrastar os barcos de volta às águas. Depois disso, cada verão que passava, parecia mais quente que o anterior e mais um ou dois metros de areia ficavam expostos… e o inverno, furioso de trovoadas secas e ventos ciclónicos, não o retornavam ao nível anterior. As árvores iam-se ficando para trás e apenas uma ou outra, se aventurava a crescer mais próximo da água, no solo arenoso e quase estéril. Ainda “perseguiram” o lago mais três vezes, antes dos pais morrerem, primeiro um e depois outro, com pouco tempo de diferença. A falta da água, suportaram-na, mas não conseguiram viver um sem o outro.
Ayla foi um ar de primavera que surgiu na sua vida. Sensivelmente da mesma idade, de amigos de infância tornaram-se um só e, por algum tempo, ambos conseguiram esquecer a vida amarga e dura, com a fome sempre à espreita.
De tempos em tempos, apareciam grupos de três ou quatro pessoas, mortos de fome e sede, provenientes do Norte, que contavam histórias terríveis de grandes cidades incendiadas, muitos mortos de fome e de doença. Poucos se quedavam; também ali não havia muito que os satisfizesse e por isso, rumavam ao Sul… exceto os demasiado doentes, que ficavam enterrados num qualquer sítio, próximo de onde tinha sido sepultado o último cadáver. O cemitério organizado, ficava já demasiado longe, para que valesse a pena a extenuante caminhada sob o sol inclemente.
O lento encolher do lago, obrigava a construção de um novo cais, de quatro em quatro anos. Começaram a construí-lo cada vez mais longo, para que se mantivesse mais tempo na água, mas isso obrigava a ir buscar mais madeira, cada vez mais longe, aos esquálidos bosques a sul, pelo que acabaram por reciclar os tabuados anteriores. Alguns aldeãos eram contra, reclamavam que o lago voltaria a encher e os demolidos cais, teriam de ser reerguidos.
Mas até os vizinhos iam reduzindo. Os lavradores tinham cada vez mais dificuldade em produzir as suas colheitas no solo seco e o que nascia, era débil e mirrado, os pescadores apanhavam cada vez menos peixe e mais pequeno. Por vezes, enormes cardumes de peixes mortos inundavam as praias e ele estavam semanas sem pescar. O vento norte, carregado de areia, visitava-nos frequentemente durante o inverno e fustigava as folhas tenras das plantas destruindo as colheitas. A caça foi desaparecendo também, procurando água noutras paragens. Poucos eram já os aldeãos, que continuavam a reconstruir a casa a cada dez anos, perseguindo a fugidia água, onde os peixes eram cada vez mais pequenos. Todos os meses havia uma família que ia embora, ou o último elemento de outra, que falecia.
Brincou com o buraco nas calças, que lhe deixava o joelho quase exposto, enquanto lágrimas pingavam sobre o tecido empoeirado. Mesmo quando nasceu Raíssa, ele não acedeu a procurarem novas paragens. Primeiro porque a mãe estava frágil, depois, porque a criança era frágil… era melhor ficarem, ali tinham o sustento ainda certo e os pescadores eram cada vez menos. Fizeram uma festa na aldeia, quase não nasciam crianças e aquela, era uma promessa de que tudo poderia voltar a ser como antes.
Raíssa acabou por morrer. Tinha pouco mais de um ano… sempre fora débil e não aguentou a dieta de peixe e os poucos legumes desidratados, que se conseguiam arranjar. A pequena tumba, ficara lá para trás, ao pé da última casa que ocuparam antes desta.
Mesmo assim, ele não se decidiu a abandonar aquele local desolado e mantiveram-se lá, cada vez mais sozinhos. Ela não o culpava pela morte da filha, mas olhava-o com ressentimento. Não lhe respondeu, da última vez que lhe disse que tinham de mudar novamente, como já estavam a fazer os últimos quatro vizinhos que restavam. Dois deles partiram, mas de vez, para Sul e só três novas casas de adobe foram erguidas nas novas margens do lago, que tinha nessa altura já pouco mais de um quilometro de largo.
Foi com dificuldade que conseguiu convencer os vizinhos a construir o novo cais, mas fizeram-no. Uma vez mais, desmontaram o anterior e acartaram-no, tábua por tábua, até o montarem no novo local … há quantos anos isso fora…
Tabor não se lembrava já quando partira o último vizinho. Quando fora que ele pegara nos parcos haveres, na mulher e nos dois filhos quase adultos e partira ao longo do leito seco do rio, que em tempos alimentara o lago. Todos se foram e nenhum voltou… apenas ele, teimoso, insistira com a mulher, Ayla, que o lago haveria de voltar, quando a natureza fizesse as pazes com os homens.
Quando precisava de alguma coisa que não possuía, caminhava mais de meio dia, até à aldeia mais próxima e regressava, já noite muito escura, guiado pela fogueira que Ayla acendia na aridez da planura e ali ficava, até que ele regressasse.
Há cerca de um mês, fizera a extenuante caminhada até à aldeia… encontrara-a vazia. Chorara, no regresso, ao ver a pobre velha, em pé, ao lado da fogueira, suportada pela esperança do seu regresso. Teve a certeza que, se não voltasse, ela ficaria ali a esperá-lo, até que a luz dos seus dias se apagasse.
Agora, como nunca antes, sentia-se velho e vencido. A natureza não iria, nunca, perdoar aos Homens e Deus, era mais que certo, ou morrera, ou abandonara-nos para sempre.
Nas noites geladas, sentava-se em frente a Ayla, com a esquálida fogueira pelo meio, olhando aquele rosto vincado pelas rugas, que em tempos fora jovem e belo e perguntava-se se conseguiria suportar o dia em que ela partiria, ou como seria para ela, se ele se fosse primeiro.
Eram esses os seus pensamentos ali, no cais de um lago seco, sentado no toco de madeira a olhar o sol laranja que, do alto seu trono, zombava da desgraça dos orgulhosos humanos. As lágrimas corriam-lhe pelo rosto, deixando sulcos lamacentos. O vento picava-o com areia, enquanto assobiava fortemente e foi empurrado por ele, que tomou a decisão e levantou-se do toco, que era o seu local de espera.
No outro dia de manhã, Tabor e Ayla, com os seus parcos haveres, numa padiola que arrastavam pelo chão, deixaram a casa de adobe, junto ao cais.
 Partiram, em direção a Sul, sem saber se seriam os últimos humanos da Terra.

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