Debaixodosceus.pt e Amazon.com: Uma parceria de sucesso
2017 Publicação "Daquele Além Marão"
2020 Foi criada a nova imagem
2017 Apresentação na Casa dos Transmontanos do Porto
2022, Pela primeira vez, publicação em capa dura além de capa mole
2017 Apresentação na Confeitaria Luso-brasileira
2020 Publicação "Entre o Preto e o Branco"
2017 Apresentação no CITICA de Daqueles Além Marão
2016 Apresentação no CITICA de "Lágrimas no Rio"
2016 Publicação de Lágrimas no Rio
2016 Apresentação no ISLA de "Lágrimas no Rio"
2015 "Terras de Xisto" - A primeira publicação
2022 Publicação de "A Caixa do Mal"
2022 Devido ao seu sucesso, "Lágrimas no Rio" tem 2ª edição
2022 Publicação "Na Sombra da Mentira"
2022 Publicação "Depois das Velas se Apagarem"

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Traição II

Este texto é uma obra de ficção. Embora possa incluir referências a eventos históricos e figuras reais, a história, os diálogos e as interpretações são fruto da imaginação do autor. Qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, é mera coincidência.



Entrou cambaleante na casa de banho da discoteca e o cheiro intenso a urina e vómito atingiu-o com força.
Apoiou-se na laje molhada semeada de bocados de papel que servia de lavatório e enfrentou aquele rosto sério que o olhava todos os dias. O cabelo raiado de fios brancos estava molhado de chuva e de transpiração. Olheiras negras acentuavam-lhe a vista cansada.
As pernas tremiam-lhe, estava e sentia-se um trapo. Além de ligeiramente bêbado… ou completamente.
Já há muito tempo não bebia assim e a capacidade para dominar os efeitos da bebida há muito que vinha a reduzir.
Fez um trejeito de desprezo para ele próprio enquanto a cabeça oscilava ligeiramente num desequilíbrio mais ou menos controlado:
-        Na mesma noite desrespeitaste três das tuas regras essenciais. – A voz rouca e entaramelada sentenciou para o espelho enquanto erguia uma das mãos e contava pelos dedos – Bebeste de mais, fizeste sexo com uma desconhecida e essa desconhecida tinha quase idade para ser tua filha. Estás a ficar velho, a perder qualidades e o respeito pela tua própria forma de vida!
Inclinou-se e passou água no rosto por várias vezes. Limpou-se e atirou com os papéis para o lavatório.
Endireitou-se mirando-se numa caricatura de pose altiva sentenciando:
-        Quem te viu e quem te vê!
Trôpego, abandonou a divisão apalpando as chaves do carro no bolso do casaco molhado e dirigiu-se para a saída do edifício.
À porta foi abordado por uma jovem magra, molhada como ele, que tremia de frio e excitação com os braços envolvidos no corpo numa tentativa de se aquecer. O cabelo que de tão loiro era quase branco, escorria sobre a cabeça e pingava copiosamente sobre os ombros. Os olhos de um azul celeste olhavam-no com receio e admiração enquanto se lamentava:
-        Fechaste o carro enquanto fui fazer xixi e molhei-me toda quando regressei para dar com o nariz na porta.
Ele olhou-a como se fosse a primeira vez que a via, passou a mão pelo rosto e esfregou os olhos com força.
-        Estás bem? - Ela insistiu tentando espreitar por entre os dedos dele e soltando um risinho acriançado – Bebeste um bocadinho de mais não foi?
Simão, oscilante, olhou-a e devolveu-lhe um sorriso triste e cansado:
-        É, miúda, bebi um bocadinho demais. Foi isso. Agora vou-me embora.
-        Há pouco não me chamavas miúda. – Provocou a jovem em tom irritado.
-        Tens razão, há pouco não. Só que há pouco eu era um pouco mais cretino do que sou agora. Desculpa-me – Passou-lhe a mão pelo rosto numa carícia antes de se afastar em passos largos para a saída.
Desconcertada, deixou-se ficar um pouco a olha-lo saindo calmamente, mas com pouca confiança:
-        Já tens o que querias não é, filho da puta? – Explodiu ao mesmo tempo que as lágrimas irrompiam dos olhos claros. – Também não vales nada, não passas de um velho caquético e baboso. Nem conseguiste dar a segunda!
Correu para a casa de banho, furiosa, soltando uivos de indignação e deixando boquiabertos aqueles com quem se cruzou.
Ele não escutou, ou ignorou-a e saiu para a chuva forte não se preocupando sequer em acelerar o passo. As gotas que lhe castigavam o rosto eram bem vindas e já nem sentia a roupa encharcada.
Abriu a porta do BMW cinzento metalizado com alguns anos e atirou-se para o assento do condutor. Pousou a cabeça no volante tentando recompor-se.
Tinha saído com alguns colegas de trabalho para jantar e festejar o aniversário de um deles, no fim, com outros três, decidiu terminar a noite numa discoteca e assim fizeram. Com o passar das horas e o consumo de álcool em crescendo, um a um foram-se indo embora restando apenas ele.
Quando estava quase para desistir também, reparou na miúda loira (não deveria ter mais de 18 anos... se os tivesse) que o olhava com insistência.
Não era muito bonita mas debaixo da intoxicação alcoólica os seus “instintos de macho caçador” foram ativados e num instante estavam a dançar na pista... tinha noção que poderia ter exagerado um pouco nos seus movimentos mas o que é certo é que pouco depois estavam aos beijos dentro do seu carro.
O sexo foi atrapalhado e louco como se lembrava ter sido noutras ocasiões semelhantes há mais anos do que gostava de reconhecer. Mas uma vez mais provou a si próprio que, ao contrario do que se diz, o álcool não tira a ereção... pelo menos não completamente. Enfim, não foi nenhum Kama Sutra, para ele chegava, se ela queria mais, temos pena. Talvez outro dia.
Agora, porém, sentia-se um pouco mais afetado pela bebida. Meteu a chave na ignição inclinando a cabeça por baixo do volante e viu um dos lenços de papel utilizados no chão. Com uma expressão de repulsa pegou-lhe com a ponta dos dedos e atirou-o pela janela.
Nesse preciso momento uma mão enorme entrou pela janela aberta, agarrou-o pelo cabelo curto e tentou puxa-lo pela abertura. Graças ao facto do cabelo ser curto conseguiu libertar-se para olhar, incrédulo para um homem baixo de olhar feroz que gritava algo e tentava agarra-lo novamente. Por trás dele, a miúda de há pouco exibia um ar de triunfo.
-        Mas que queres? Que é que te deu? - O assustado Simão afastava-se o mais que podia da mão sapuda que por sorte pertencia a um braço curto.
-        Vou partir-te as putas das ventas, filho da puta. Meteste-te com a minha irmã? - Gritava o energúmeno. - Sabes que é uma menor? Cabrão!
-        Eu?!? Ela é que se meteu comigo. - Enquanto isso conseguiu fechar o vidro e a mão precipitou-se rapidamente para o exterior para não ser trilhada.
Uma sequência de pontapés na porta e muros no vidro acompanhados de insultos foi a resposta do indivíduo.
Tremendo, debaixo da agressão teimosa que o veículo recebia, conseguiu por o motor a trabalhar e tentou abandonar o parque quase passando por cima agressor. A chuva no para brisas, a luz dos faróis e o chão molhado tornavam a tarefa de conduzir embriagado quase impossível.
Ao contornar a primeira fila de carros estacionados, o indivíduo, qual búfalo, saiu bufando do meio das viaturas e atirou-se sobre o capô. O aterrorizado condutor guinou algumas vezes atirando-o ao chão e acelerou.
-        Mas que sorte da merda. - Simão estava agora mais consciente, afastada a embriagues com o pavor que sentia – A cabra da gaja tinha que ter um filho da puta de um touro por irmão.
No inicio da nova fila de carros, uma vez mais a sua némesis surge à frente do veículo. Agora armado com um guarda chuva que atirou contra o para brisas ao saltar para o lado para evitar ser colhido.
-        Valha-me Deus! No que eu me meti. - Gemeu contemplando a racha no para brisas – Minha Nossa Senhora de Fátima! Se me livro desta não quero saber mais de gaja nenhuma. Só vou ter olhos para a minha mulher. Vou ser um modelo de virtude!
Já na chegada à cancela de saída do parque (que por acaso estava aberta) passou como um foguete para a estrada sem cuidados com o transito e ainda a tempo de perceber o vingativo individuo a sair do meio das viaturas estacionadas quase a apanha-lo outra vez.
Por sorte não havia veículos na estrada àquela hora tardia e conseguiu com alguma dificuldade e manobras perigosas a chiar os pneus estabilizar o automóvel para circular na faixa de rodagem certa.
-        Fonix! - Gemeu – O que me havia de calhar no “fim da festa”. Os olhos seguiam constantemente para o retrovisor com medo de divisar alguém a segui-lo. - Parecia o puto do Rocky. Cabrão!
Ainda com as mãos e as pernas a tremer, a velocidade a que se afastava do local fazia-o gradualmente sentir-se mais seguro.
Escapara de uma situação perigosa apenas com um para brisas estalado e algumas amassadelas na chapa. Muita sorte.
-        Só vou ter olhos para a minha mulher... - Reiterou – Modelo de virtude...
Segurava o volante com força reduzindo, mas não parando, nos semáforos vermelhos enquanto pensava na sua promessa.
-        Não posso começar já... amanhã é dia de estar com a doce Eduarda.
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sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Traição I

Este texto é uma obra de ficção. Embora possa incluir referências a eventos históricos e figuras reais, a história, os diálogos e as interpretações são fruto da imaginação do autor. Qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, é mera coincidência.



Na penumbra da sala o silêncio impunha-se pesadamente apenas interrompido a espaços pelo crepitar do fogo na lareira.
Lá fora o vento rugia naquela tempestuosa manhã de Janeiro atirando as gotas de chuva com força contra a vidraça.
Ele estava afundado no sofá individual ao pé da lareira com os pés esticados sobre um pequeno banco e o olhar vidrado fixo perdido sobre o telemóvel que repousava na mesa de apoio.
O homem, já nos últimos anos dos quarenta, estava bastante magro e com olheiras profundas no rosto pálido. Os fios de prata no cabelo ondulavam na luz errática da fogueira.
Estremeceu com o súbito toque do telemóvel. Aquela melodia escutada tantas vezes trouxe-lhe memórias de ocasiões felizes... e outras nem tanto.
No ecrã do equipamento o rosto sorridente de um homem de cabelos desgrenhados claros. O nome “Ricardo” piscava ao ritmo da musica.
Após uns segundos de hesitação, soergueu-se, clicou para atender e encostou o telemóvel ao ouvido sem falar. Do outro lado uma voz grave e enérgica interpelou:
-        Olá bom dia dorminhoca. Tudo bem?
-         Bom dia... - A resposta foi rouca e arrastada e do outro lado fez-se um silêncio fruto da surpresa de não ser a pessoa esperada. - Desculpa, sei que esperavas a Sandra.
-        Hmm, sim. Ela está? - A voz passara de decidida a cautelosa.
-        Não, ela não está. De facto estava mesmo aqui a pensar se deveria ou não ligar-te.
-        Ligar-me?!? - Havia incredulidade no tom – Mas nós conhecemo-nos?
-        Na verdade não, já agora, eu sou o marido da Sandra, Fernando.
-        Ricardo. - A resposta tardou um pouco – Mas continuo sem perceber...
Um sorriso cansado perpassou nos seus lábios:
-        Queria ter uma pequena conversa contigo, não te importas que te trate por tu, pois não?
-        Como disse, não nos conhecemos, mas não, não me importo.
-        É verdade, não nos conhecemos, mas temos uma coisa muito importante em comum... a minha mulher Sandra.
A afirmação soou como um tiro que provocou um momento de silêncio nervoso antes de uma patética tentativa de ganhar tempo:
-        Como? Não estou a perceber.
-        Não adianta negar. - O sorriso alargou-se – Eu sei de tudo. Os encontros nos motéis, os jantares, os passeios nos jardins... até a conferência há dois meses atrás em Londres...
Nem o respirar se escutava no outro extremo da comunicação.
-        … de todas as formas não te posso censurar. Ela é uma mulher muito bela e inteligentíssima,  uma combinação irresistível.
-        Mas... quando soubeste? - Não adiantava negar.
-        Oh, já sei há muito tempo. Quase que posso dizer desde o início.
-        Não posso crer... e não disseste nem fizeste nada? Há quanto tempo achas que aconteceu?
-        Deverá fazer dois anos em Março. Estou certo?
O silêncio do interlocutor consentia.
-        No inicio não me apercebi de nada, claro. Nada pelo menos que me fizesse suspeitar disto. - Fernando continuou –  Apenas, de repente, a nossa relação morna de um casal da nossa idade com muitos anos de casamento, tornou-se muito mais ativa sexualmente. Como já não era há muitos anos. - Limpou uma lágrima que correu no rosto – Ela procurava-me mais frequentemente e não se negava tantas vezes aos meus “avanços”.
A chuva parara entretanto e o latido de um cão ouviu-se trazido pelo vento que amainara.
-        Eu estava feliz, ela estava feliz, como poderia suspeitar? Nem reparava nas frequentes trocas de SMS, no falar mais baixo ao telemóvel em algumas circunstancias... estava cego.
O suspiro que se seguiu saiu mais audível do que pretendera:
-        Até que um dia, ao chegar a casa mais tarde que eu e a tirar as coisas da carteira, vi que trazia amarrotado um pano negro... onde consegui divisar as rendas. Mesmo através da sua atrapalhação fiquei sem qualquer dúvida que trazia, amarrotadas na carteira as calcinhas que vestira naquela manhã... Porque traria ela as calcinhas na carteira? Porque as tiraria?
-        Poderiam haver outros motivos para além de... - Ricardo tentou ajudar.
-        Pois poderia. Por isso não poderia ficar com a duvida. Ela disfarçou e escondeu... e eu fingi não ter reparado.
-        Ela deve ter pensado que não viste...
-        Mas vi. E andei louco de dor e confusão por uns dias atento a todos os seus movimentos, atitudes e horários... cada vez se aprofundavam mais as minhas suspeitas. Até que um dia à hora do almoço fui para a rua em frente à escola onde ela trabalha e esperei. Não tardou que a visse... e te visse com ela.
-        Sim, almoçamos muitas vezes juntos.
-        Para saber a extensão “do problema” contratei uma pessoa para a seguir durante uma semana e dar-me um relatório; fiquei a saber mais do que o que queria, o relatório era extenso o suficiente para incluir fotos, horários, os motéis e restaurantes que frequentavam e a altura aproximada em que começaram a ser vistos juntos. Um bom trabalho em suma.
-        Nunca nos apercebemos de nada...
-        Como eu disse, um bom trabalho. Mas o que me deixava louco era a sua naturalidade, a facilidade e o prazer com que fazíamos amor, a sua vontade e carinho. Parecia que continuava apaixonada por mim...
-        E continua. Ela disse-mo várias vezes. Sempre que lhe pedia para te deixar e vir viver comigo. Nunca o quis, dizia que te amava demais para poder viver sem ti e que o que existia entre nós era uma paixão que ela esperava que passasse um dia.
Foi a vez de Fernando ficar em silêncio por uns minutos. Ambos os homens calados a escutar a respiração do outro através do telemóvel.
-        Por fim acabei por me conformar. - Retomou a narrativa. - Aceitei que ela seria discreta o suficiente para me envergonhar e aceitei que deveria apreciar cada minuto da sua atenção, cada beijo e cada carícia como dádivas que poderia perder a qualquer momento.
-        Foi precisa muita coragem para uma decisão dessas.
-        Não não foi. Muita covardia isso sim, medo de ficar sem ela, sem a mulher que amo. Medo que se fosse e não tornasse mais. A vida sem ela seria insuportável. Mas nos últimos tempos é assim que tem sido mesmo com ela, insuportável.
-        Daí esta chamada. - Ricardo concluiu – Concluíste que não consegues viver assim e vens pedir-me que me afaste.
-        Falo-ias?
-        Se isso for o melhor para ela... sim. Também vou sofrer imenso. Deixei a minha mulher há uns meses porque achei que facilitaria a decisão da Sandra mas ainda não lhe disse.
-        Temes pressiona-la?
-        Sim, ela é adorável mas sob pressão é imprevisível. - Sentiu-se o sorriso na voz.
-        Consigo perceber que também a amas, não se trata apenas de um caso.
-        Não, não é. Desde o início, desde o primeiro riso, as primeiras palavras, fiquei completamente preso a ela. Julgava que depois de uma certa idade já não era possível uma paixão com tal intensidade.
-        E aqui estamos nós os dois... apaixonados pela mesma mulher.
-        Não tenho coragem de continuar a fazer-te o mal que temos andado a fazer. Até aqui achava que não sabias...
-        Que era um corno feliz...?
-        Não, nunca pensamos, pensei, em ti nesses termos. Eras apenas o outro que a impedia de vir para mim de vez.
-        Agora não interessa mais, não vale a pena estarmos a discutir sobre isto.
-        Que se passa? Zangaram-se? - O tom de voz não conseguia disfarçar a esperança.
As lágrimas corriam agora livremente pelo rosto de Fernando.
-        Não, caro amigo, a Sandra teve um acidente de automóvel esta noite quando regressava de tua casa. Faleceu de madrugada no hospital... O funeral é às 9h de amanhã e o corpo encontra-se na capela do hospital. Se quiseres podes aparecer... todas as pessoas que a amavam são bem-vindas.
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sábado, 29 de novembro de 2014

Devoção



És uma santa que leva à perdição
e eu um anjo completamente caído
Sempre que falamos
deixo de ser eu,
ou pelo menos
o eu que mostro aos outros.
Deixo cair o escudo,
ponho de lado a mascara
e sinto-me como uma criança
que anseia por se aconchegar
encostar a cabeça no teu seio
e deixar-se embalar.
Por comodismo deixo as canções falar
por mim
beneficiar do impacto maior
que traz a música.
Mas as palavras estão aqui
à boca do coração
caladas,
amordaçadas,
mas pesadas e sentidas,
Esperando o dia em que as solte
faça o que não quis fazer
e seja o que não quis ser.
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quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Solidão

Este texto é uma obra de ficção. Embora possa incluir referências a eventos históricos e figuras reais, a história, os diálogos e as interpretações são fruto da imaginação do autor. Qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, é mera coincidência.

 

Com o cotovelo derrubei o copo sobre a mesa....
Um rio de leite correu parcialmente sobre o tampo antes de cair para o chão.
- Merda. - Lamentei-me - Só faço porcarias.
Com um pano limpei rapidamente o que ainda restava na mesa enquanto, de soslaio, vigiava o olhar reprovador e silencioso da minha mulher.
Olhei para os pés. Os chinelos de pano aos quadrados estavam algo velhos e agora empapados em leite. Tenho que me lembrar de comprar outros.
Arrastei os pés pela cozinha deixando pegadas brancas até chegar à esfregona estrategicamente colocada no balde a um canto.
Silenciosamente limpei todo o chão e retornei a esfregona ao seu descanso.
Com novo copo de leite voltei a sentar-me e provei uma bolacha. Está mole, tenho que ir comprar mais um dia destes.
Ela continuava a observar-me, de rosto inexpressivo, do outro lado da mesa.
Agora nunca me falava, limitava-se a estar simplesmente ali. Não me respondia às perguntas apenas, uma vez ou outra, esboçava um sorriso ou uma careta de desagrado. Praticamente deixei de lhe falar também.
Cheguei a assustar-me a primeira vez que dei de caras com ela ali, assim parada.
Perguntei o que se passava, se se sentia bem, se precisava alguma coisa. Limitou-se a devolver-me um sorriso triste e acho que correu uma lágrima... mas não me deu uma palavra.
Desde então, quando me levanto já está acordada e sentada à mesa, à minha espera acho.
Há vários anos que não dormimos juntos, desde que ela começou a ficar doente e os meus movimentos na cama a faziam sofrer. Tratamentos e mais tratamentos, mas os ossos não se conseguiam curar e ela foi ficando, cada vez com menos mobilidade, cada vez saía menos do quarto... Agora aparece assim, veste-se sozinha e vem sentar-se ali à minha espera... não sei porquê.
Agora que penso nisso, não me lembro a ultima vez que entrei no quarto dela, que conversamos. Não me recordo mesmo. Se calhar é por isso que está zangada.
Olhei-a pelo canto do olho, continuava lá a impávida.
O chão não ficou muito limpo e viam-se as marcas da sola dos chinelos aqui e ali.
Não tem mal... hoje vem a minha filha trazer-me algumas coisas e fazer a limpeza. Ela diz que é minha filha, mas a minha filha é ainda uma criança não pode ser aquela mulher que aparenta uns quarenta e tal anos. Coitada, não deve ser boa da cabeça.
Molhei uma bolacha no leite e saboreei a textura mole e doce que me enchia a boca e parecia trazer à memória doces e antigas recordações... o meu pai na longínqua aldeia transmontana, de calça de cotim e camisola grossa de lã, com o inseparável chapéu na cabeça à minha espera para me levar à carreira que me levaria à escola, a minha mãe sempre com um "Despacha-te rapaz que o teu pai está à espera." ou "Acorda, não durmas em pé, não vês o que estás a fazer?".
Não pude evitar um sorriso, já lá vão tantos anos... sessenta, setenta? Hmmm, deixa ver, eu tenho... bolas quantos anos tenho? Também não interessa, já foi há muitos anos e os pobres coitados devem estar no céu, que Deus os tenha, porque aturar-me não deve ter sido fácil.
Estão a mexer na porta, deve ser ela, a Julia. Sim, tem o mesmo nome da minha filha, mas não pode ser ela, porque ela é ainda uma criança... deve estar na escola talvez, não sei. Por aqui não está agora.
A mulher magra de cabelo escuro e casaco comprido cumprimentou-me com um "Olá pai." e um beijo na face como de costume. Coitada, deve sentir-se sozinha, ao menos eu ainda tenho a Celeste, não fala, mas pelo menos está ali e ouve-me.
- Então? Como está hoje? - Perguntou-me na voz musical que as mulheres que nos têm carinho conseguem fazer - Como estão os ossos? Dormiu bem?
- Sim estou bem, obrigado. - Assenti enquanto ela vestia a bata que usa para fazer a limpeza à casa e que representava o passo inicial antes do ataque frenético que fazia à sujidade e desarrumação que eu, por muito que me esforçasse, não conseguia evitar.
Acabei o meu leite e o copo e o prato desapareceram da minha frente como que por magia.
- E então? - Recomeçou ela enquanto lavava a loiça que estava amontoada no balcão da cozinha - Pensou no que lhe disse?
Não me recordava de nada da ultima conversa, nem de alguma pergunta que me tivesse feito... fiquei a cismar.
- Não se lembra? - A voz entristeceu de repente - Sobre ter alguém que cuidasse de si a tempo inteiro, ir para um sitio onde as pessoas estão treinadas para o ajudar no que é preciso e lhe mantivessem a roupa limpa e o ajudassem nos banhos... enfim, melhor que eu que só posso vir uma vez por semana e a muito custo.
Franzi o sobrolho... não me lembrava nada daquela conversa e não me agradava nada a ideia:
- Sair daqui? Que queres dizer com isso, porque deixaria a minha casa?
- Oh, pai, falamos disso na semana passada. Não percebe que precisa de uma ajuda maior do que a que eu lhe posso dar? - Insistiu.- O pai não consegue cuidar de si sozinho, já tem 90 anos.
- Não, não me lembro de nada disso. - Retorqui deixando a cadeira e avançando para a a janela onde me quedei de costas voltadas para ela. - De resto, como me iria embora daqui? Deixava a tua... mãe sozinha?
- Oh meu Deus. - Havia lágrimas na voz dela mas continuava a lavar furiosamente a loiça - Outra vez isso? A mãe morreu há quase dez anos! Por favor!
- Morreu?!? - Indignei-me voltando-me para Júlia - Como,  morreu? Não a vês ali sentada? - Voltei-me para a mesa e instiguei - Celeste, diz alguma coisa... - Ela não estava lá.
Senti uma tontura e uma pressão no peito, o ar parecia faltar-me, estava sempre ali e agora não estava, uma sensação terrivel de estar a reviver algo que já tinha acontecido atingiu-me com violência.
- Pai? - A voz de Julia estava preocupada - Pai, está bem? Está muito branco, venha sente-se, desculpe falar assim, ...
Afastei os braços que me estendia e caminhei o mais rápido que podia para o quarto da minha mulher.
A porta estava fechada à chave mas com a chave do lado de fora.
Tremendo, abri-a de par em par e entrei como um furacão.
Um cheiro a naftalina invadiu-me as narinas enquanto olhava em volta; a cama estava apenas com uma coberta por cima do colchão, a arca que estava sempre aos pés da cama coberta com roupa para costurar, estava sem nada.
Abri o guarda-fatos. Vazio!
Sem forças deixei-me cair pesadamente sobre o cadeirão à cabeceira da cama... onde passei tantas horas e tantas noites a velar o sono inquieto e o respirar pesado dela nos seus últimos dias...
Agora recordava-me de tudo, as memórias vinham em catadupas dolorosas e as lágrimas corriam-me livremente no rosto. Sentia o sabor salgado na boca enquanto chorava mansamente um choro velho de anos já chorado tantas vezes.
Júlia, encostada no umbral da porta, chorava comigo a repetição da dor da perda da mãe, já tantas vezes repetida por mim.
- Pai. - Pediu - Não chores por favor.
Mas as lágrimas não paravam e eu só tinha olhos para aquela cama vazia onde em tempos esteve a mulher que amei e que foi minha companheira durante tantos.
- Deixa-me, deixa-me. - Solucei - Vai embora por favor.
Ela retornou à cozinha num passo arrastado e eu deixei-me ficar parado a tentar limpar a minha mente de todas as recordações, de toda a tristeza que me sufocava em catadupas de dor. Deixei-me ficar à espera que ela se fosse e eu pudesse ficar novamente em paz... entregue ao doce oblivio.
Deixei-me ficar, com dores na alma à espera que o Alzheimer retomasse conta de mim... e talvez então ela voltasse... mesmo sem falar.








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domingo, 24 de novembro de 2013

Desolação

Este texto é uma obra de ficção. Embora possa incluir referências a eventos históricos e figuras reais, a história, os diálogos e as interpretações são fruto da imaginação do autor. Qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, é mera coincidência.

De olhos fechados, trincou com força a maçã vermelha sentindo-a explodir na boca numa volúpia de açúcar.
Mastigou calmamente saboreando cada gota do fruto e, desejando manter uns segundos mais aquela sensação, engoliu, quase contrariado.
Entre dentadas, espreitou de olhos semicerrados as nesgas de sol que logravam romper por entre as nuvens escuras, trazendo uma vaga lembrança do calor de outras eras.
Deixou-se ficar sentado nas enormes pedras da ruina onde descansava fazendo durar a maçã enquanto escutava as vozes algo longínquas dos companheiros no exterior.
Pouco restava do descomunal edifício que escolhera para descansar. Apenas as paredes erguidas para o céu onde já não existia telhado, numa caricatura de mãos que imploravam aos céus.
O chão, pejado de escombros negros, era a evidência de um longínquo crime do qual este edifício fora testemunha e vitima.
Ergueu-se finalmente, com o uniforme camuflado já a ficar puído e enfrentou os restos do altar que ocupavam completamente uma das paredes. Com a maçã quase comida numa mão e a espingarda automática na outra, acenou um adeus respeitoso à cruz queimada que teimosamente resistia no meio da desolação.
Caminhou em passos indolentes e atravessou o pórtico, de onde a enorme porta desaparecera, para o exterior onde várias dezenas de homens e mulheres de uniforme igual se afadigavam com braçados de armas, munições e outras cargas.
O cenário deixara de ser o de um edifício em ruinas para se converter num mundo de destruição a perder de vista. Prédios com janelas sem vidros, como olhos sem vida, inclinavam-se em ângulos improváveis sobre outros reduzidos a escombros.
Aqui e ali, na praça que se estendia à sua frente, misturados com pedras e detritos, repousavam restos calcinados de automóveis arrumados para os lados para rasgar uma passagem para os veículos militares.
Um dos soldados aproximou-se e com uma continência desleixada anunciou “Meu sargento, o nosso comandante deu a ordem de reunir no ponto de encontro para partida imediata.”. Com a velocidade com que aparecera assim se afastou.
O sargento deu a ultima mordida na maçã e começou a caminhar na mesma direção que o soldado tomara, contornando a ruina da igreja.
Parou uns segundos a olhar a gigantesca cratera que engolira metade da cidade. A pouca água que ainda corria do rio caía desamparada numa suja cascata para qualquer lado prometendo que a enorme depressão se tornaria um lago em breve.
“Este primeiro ano é apenas o princípio de muitos outros de morte e destruição antes de podermos recomeçar a pôr ordem no mundo. Mas um dia havemos de conseguir. – Pensou – Havemos de trazer a ordem e a paz e taparemos estes buracos hediondos.”
Como que para começar o que prometia, arremessou o caroço roído da última maçã do mundo para a cratera que levara parte de Paris.
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sexta-feira, 20 de julho de 2012

Frustração

Este texto é uma obra de ficção. Embora possa incluir referências a eventos históricos e figuras reais, a história, os diálogos e as interpretações são fruto da imaginação do autor. Qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, é mera coincidência.




Furioso e atordoado, José abandonou o átrio do edifício forçando a porta a bater com estrondo.

Em passo largo caminhou pela rua cheia de transeuntes. Dentes cerrados, sobrolho franzido, caminhou fazendo as pessoas desviarem-se frente à decisão que se notava no rosto crispado de olhos escondidos atrás dos óculos escuros.

Era o fim de mais uma tarde de calor e o cimento do passeio ainda expelia indolentemente o efeito do sol tornando todo o ar abrasador e difícil de respirar.

Chegou ao automóvel, abriu a porta, precipitou-se violentamente para dentro e fechou-a com estrondo. Deu três murros no volante:

— Merda, merda, merda!

Deixou cair a cabeça sobre o volante e quedou-se um pouco com a respiração entrecortada.

Em seguida, num gesto brusco, deu à ignição e fez o veículo arrancar com violência sem sequer verificar se havia outro veículo na faixa para onde se precipitou.

Conduziu agressivamente pelas ruas, desviando-se e fazendo com que se desviassem durante todo o caminho até entrar no estreito caminho de terra que atravessava o canavial em frente do elegante café junto à praia.

Chegara à praia. Ao seu mar. Aquele que está sempre pronto a recebê-lo, a ouvir os seus pensamentos e que lhe fala mansamente, calmamente, trazendo-lhe a paz que tantas vezes ali vem buscar para acalmar os seus demónios interiores.

De novo os passos largos até sentar à mesa da esplanada mais distante do edifício mas mais perto do areal.

Estava longe do guarda-sol mas não fez nenhum movimento para se tapar do astro rei que ainda dominava o céu sem concorrência.

Recostou a cabeça e fechou os olhos… o som cavo das ondas, hipnótico, distraiu-lhe os maus pensamentos… por alguns segundos…

— Boa tarde. Posso ter o seu pedido?

Espreitou apenas com um dos olhos sobre as lentes escuras e mirou o empregado a toda a altura, irritado com a interrupção. Era um jovem alto de rosto tisnado do sol e ar de gozo. Respondeu-lhe:

— Croft.

— Fresco?

— Céus, não!

O empregado afastou-se com um aceno segundos antes dele acrescentar mais alto:

— E café!

De novo se recostou de olhos fechados… O corpo nu de Mariana estava perante ele em todo o seu esplendor… Os seios de mamilos eretos e desafiadores, ventre liso e suave, quase púbere. Os olhos semicerrados, felinos e felizes sob efeitos das caricias que a excitavam e dos beijos que a enlouqueciam…

O som do seu pedido a ser depositado na mesa trouxe-o de volta à realidade. Soergueu-se, pegou no copo, sorveu-o de um gole e com um arrepio devolveu-o ao empregado que o observava atónito:

— Outro.

Logo que ele se afastou, começou a tomar o café. Estava amargo e o seu aroma forte parecia queimar ainda mais a garganta ofendida pelo brandy.

Poisou os cotovelos na mesa e esfregou os cabelos curtos com ambas as mãos deixando-se estar naquela posição uns segundos até o ruido de novo copo a pousar sobre a mesa o despertar.

Tornou a deitar um olhar ameaçador ao empregado que se perfilava frente a ele, esperando.

Levou a mão ao bolso das calças e atirou uma nota para cima da mesa de onde foi prontamente recolhida e substituída pelo troco.

Imediatamente desligou a sua atenção dele, sorveu um gole da nova bebida enquanto se recostava novamente com a cabeça para trás. Os músculos das costas protestaram sob a forma de dores em diversos pontos… as costas, as pernas, os braços… tinha corpo um pouco maçado. Já não era um jovem, embora não fosse um velho. Tinha quase cinquenta anos e não lhe pesavam normalmente, senão em alturas como aquele fim de tarde.

De novo Mariana na sua mente… não era fácil esquecer aquele corpo maravilhoso que ainda há poucos minutos estivera nos seus braços, esquecer aquela boca ávida que o devorava enquanto beijava, aquele ventre que sofregamente o exigia… e que ele não fora capaz de satisfazer… outra vez.

O som do mar embalava-o e uma lágrima obstinada correu ao longo da haste dos óculos perdendo-se atrás da orelha. O som do mar e o efeito que o brandy começava a fazer sobre as cervejas que bebera em casa dela.

Pela segunda vez conseguira convencê-la a ter algo com ele… conseguira ir até sua casa para fazer aquilo que ambos desejavam… pela segunda vez a sua ereção lhe faltou quando mais dela precisava.

Uma onda de raiva, vergonha e frustração correu o seu corpo enquanto recordava a sensação de pânico enquanto sentia a flacidez tomar conta de si quando a tentou penetrar depois de alguns minutos de excitadas brincadeiras.

A sua respiração tornou-se mais rápida enquanto revivia aquele pesadelo que lhe sucedera pela segunda vez… que se passava? Que estava a acontecer com ele? Era a idade? Ainda nessa mesma semana tinha estado com outra mulher sem dificuldades. Cansado, sim, dorido, com certeza mas não flácido.

Era o seu pior pesadelo a tornar-se realidade pela segunda vez com ela, agora que achava que iria eliminar a vergonha que sentira da primeira vez, que a iria fazer sentir feliz e desejar outra e outra vez…

Não podia suportar a humilhação…

Abriu os olhos e acenou o copo vazio ao empregado que passava perto.

De novo recostado deixou-se envolver pelo som do mar e das gaivotas que gritavam ofendidas umas com as outras.

De novo o copo a pousar sobre a mesa… sem abrir os olhos, colocou algumas moedas no tampo e tateou em busca da bebida que pareceu ter sido empurrada para a sua mão.

Sorveu uns goles… o sol parecia já não aquecer tanto mas o seu rosto ardia ainda de fúria…

Aquele corpo maravilhoso… sentiu que algo crescia dentro das suas calças… agora que é tarde.

Mariana era sempre uma querida… riu, brincou, tentou todos os encantos femininos e todos os truques que em qualquer outra altura (ou pessoa) teria resultado… sem resultado.

Acabou a bebida e respirou fundo tentando acalmar o coração que insistia em bater com força.

Ergueu-se de um salto e sentiu-se cambalear.

Olhou em volta… a esplanada estava agora vazia e o sol havia desaparecido atrás do mar deixando uma luz irreal de um vermelho carregado que o envolvia como nevoeiro.

Agora como seria? Estava arrumado? Estava… velho? Não!

Com a afirmação mental a martelar no cérebro em ondas de raiva afastou-se a passos largos da esplanada em direção ao veículo.

Estava um “arrumador” junto do automóvel apenas um vulto escuro de roupas sujas. Como ele odiava essa espécie.

Passou por ele ignorando-o e abriu a porta preparando-se para entrar quando a figura falou:

— Dá-me uma moedinha?

— Vai trabalhar, pá. — Rosnou-lhe.

— Vai tu, cabrão! — A resposta foi pronta.

Ato contínuo, José saltou do automóvel com as mãos crispadas para o pescoço do provocador e apertou-o com toda a força. A cara do homem fazia um barulho estranho ao bater por várias vezes contra a longarina de suporte do vidro traseiro onde deixava espirros de cor incerta que escorriam na chapa.

Largou-o e ele caiu quase sem sentidos a seus pés onde levou mais dois pontapés no estômago.

Quando se voltou para entrar de novo no veículo, encarou um novo facínora que, sem uma palavra, o socou no estomago duas vezes com toda a força. Uma onda de fogo começou a revolver-lhe as entranhas enquanto era empurrado para o chão e despojado da carteira, que tinha no bolso traseiro das calças, sem qualquer cerimónia.

Uma lâmina ensanguentada foi limpa na manga do seu casaco.

Enrolado sobre si próprio, olhou com pavor para a sua mão empapada num líquido escuro que parecia correr da sua barriga.

O recém-chegado ajudou a levantar o companheiro, entraram ambos no carro que começou a trabalhar e se afastou rapidamente…

José gemeu e deixou as lágrimas correram no rosto enquanto sentia a vida a escoar-se entre as suas mãos…

Na sua mente começaram a desfilar, uma a uma, aquelas que com ele viveram bons momentos e partilharam um pouco de felicidade…

Belas mulheres que umas após outra passavam na sua memória e sorriam-lhe felizes. Ele recordava cada uma delas, cada recôndito do seu corpo, cada sorriso, cada beijo. O calor da paixão que os movia a felicidade da partilha do prazer… E Mariana… que o olhava com um rosto triste e cheio de pena enquanto ele murmurava, já no fim:

— Não sei o que tenho… não é culpa minha…

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