Debaixodosceus.pt e Amazon.com: Uma parceria de sucesso
2017 Publicação "Daquele Além Marão"
2020 Foi criada a nova imagem
2017 Apresentação na Casa dos Transmontanos do Porto
2022, Pela primeira vez, publicação em capa dura além de capa mole
2017 Apresentação na Confeitaria Luso-brasileira
2020 Publicação "Entre o Preto e o Branco"
2017 Apresentação no CITICA de Daqueles Além Marão
2016 Apresentação no CITICA de "Lágrimas no Rio"
2016 Publicação de Lágrimas no Rio
2016 Apresentação no ISLA de "Lágrimas no Rio"
2015 "Terras de Xisto" - A primeira publicação
2022 Publicação de "A Caixa do Mal"
2022 Devido ao seu sucesso, "Lágrimas no Rio" tem 2ª edição
2022 Publicação "Na Sombra da Mentira"
2022 Publicação "Depois das Velas se Apagarem"

sexta-feira, 15 de dezembro de 2006

O Encontro

Este texto é uma obra de ficção. Embora possa incluir referências a eventos históricos e figuras reais, a história, os diálogos e as interpretações são fruto da imaginação do autor. Qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, é mera coincidência.




Acordou com o calor imenso que sentia.
Estava completamente encharcado em transpiração e os lençóis, amarrotados aos pés da cama, mais pareciam trapos acabados de limpar a loiça.
-          Que coisa incrível – gemeu António – Terceira noite sem dormir com este calor infernal.
Desceu da cama, esgotado, e encaminhou-se para a janela apenas vestido com os boxeurs verde tropa.
Ainda era noite e a pequena praça em frente à decrépita pensão da vila estava completamente deserta. À luz da lua cheia, papeis dispersos brincavam com o vento aos pulos na calçada.
Abriu a janela procurando um pouco de frescura e recebeu em pleno rosto a aragem morna daquela noite alentejana de Setembro.
-          Mais uma noite. – Concluiu – Amanhã é Sexta e já irei embora deste calor dos infernos.
Há perto de duas semanas que circulava de terra em terra a instalar o novo sistema informático em cada uma das localizações da sua empresa e estava a começar a ficar farto. Não era definitivamente o tipo de trabalho que lhe agradava – Afinal, sou um técnico de informática ou um caixeiro-viajante? – Costumava lamentar-se.
Esta vilazita representava o final de uma etapa da sua ronda que cumpria já mais de dois mil quilómetros percorridos... – Pff, venham cá dizer-me que o nosso país é pequeno.
Tornou a fechar o vidro e encaminhou-se para o duche enquanto resmungava de si para si repetindo a ladainha da dona da pensão:
- O ar condicionado dos alentejanos são as portas e as janelas fechadas, se assim as mantiverem, o calor não entra no verão nem sai no Inverno.
Sentiu-se um pouco mais fresco após o banho e, após secar-se, envergou uma t-shirt amarela, uns jeans e uns pequenos sapatos de lona.
Desceu preguiçosamente as escadas desertas da estalagem adormecida.
Abandonou o edifício e caminhou na desolada calçada envolvido na brisa que não refrescava.
- Este é o Suão. O vento do deserto. – Concluiu para os seus botões. – Traz com ele os ares de África, onde repousam as saudades, as expectativas e as almas dos grandes heróis portugueses… Eh, que românticos que nós estamos hoje. – Resmungou enquanto vagueava pelas ruas, sem destino.
Um gato miou do cimo de um telhado lamentando-se, como ele, de estar sozinho num mundo esquecido. Um cão passou atravessando a rua apressado para um qualquer dos afazeres que os cães têm quando andam assim apressados.
- Parece impossível que consigam suportar o calor que está dentro das habitações, não se vê vivalma. – Ia apreciando a arquitetura das janelas e das frontarias das casas.
Havia edifícios para todos os gostos. Desde a casa de aspeto vetusto com fachadas de cantaria bem lavrada, até à típica alentejana com faixa de rodapé azul ou castanho a contrastar com o imaculado branco. Todas elas guardadas pela sombra protetora do castelo imponente no alto do morro.
No seu deambular chegou à porta do cemitério: Uma enorme porta de ferro com mais de 3 metros de altura encimada por uma inscrição em latim agradecendo a um qualquer nobre do século dezanove a construção do local.
A imensa entrada apresentava sinais de decrepitude; uma das laterais ligeiramente fora dos gonzos, vestígios de ferrugem aqui e além…
Empurrou-a. Com um lamento que ecoou em toda a rua, a vetusta porta obedeceu franqueando-lhe a passagem.
O calor abafado que se fazia sentir provocava um estranho efeito de condensação por entre a floresta de mármore e calcário que se adivinhava envolta num espesso caldo de algodão.
Não era o sítio mais alegre para se passear, mas parecia provir dali uma frescura que contrariava as emanações das paredes e das calçadas. Havia uma sensação de tempo suspenso naquele nevoeiro despropositado que já sentira por diversas vezes nos cemitérios e nas igrejas.
Afastando a névoa, caminhou por entre as lápides experimentando um prazer quase mórbido em ler os epitáfios que os que ficam dedicam aos que foram…
“José Ferreira Telles”, N-13-06-831, F- 25-05-897, “Pai do Céu, velai por vosso filho, como ele velou pelos dele”
“Ermelinda da Mata”, N- 01-02-907, F- 17-01-938, “Cedo Levaste Senhor o amor razão da minha vida”
O típico “Eterna saudade da mulher e filhos” e alguns bem originais: “Numa madrugada Deus contigo nos abençoou. Numa fatídica noite um anjo consigo te levou.”
Ausente, embrenhou-se cada vez mais na cidade dos que não acordam, focando com dificuldade os dizeres das lápides mal iluminados por uma lua agora mais ténue.
Foi então que ouviu o fraco soluçar… Estacou e olhou em volta. A tímida névoa parecia ter-se adensado e passado de bruma a nevoeiro baixo e mais cerrado.
Os soluços continuavam, baixinho, quase como um miar suave.
Seguiu o som e deparou com o Querubim de calcário, com uma asa partida, de joelhos, na pose de quem chora.
Um arrepio percorreu-o de alto abaixo enquanto o cabelo da nuca se eriçava de pavor.
De novo o soluçar. Estava alguém para além da estátua que o assustara. Expirou lentamente apercebendo-se que tinha ficado sem respirar.
Aproximou-se passo a passo da figura frágil de negro debruçada numa laje. Sobre ela dominava, quase em tamanho natural, um Serafim em toda a sua pujança, de armadura Romana empunhando a espada em chamas ao longo da perna direita.
Parou junto da mulher, magra e pequena que suspendeu o pranto sem contudo levantar o rosto. Pressentira-o mas aguardava o seu movimento.
- Boa noite. – A voz saiu-lhe como um grasnido em conjunto com uma baforada de vapor.
Ela levantou o rosto para ele.
O cabelo negro ondulante emoldurava um rosto redondo decorado com duas estrelas por olhos, pequenos e vivos e um pequeno botão de rosa fogo por boca. O nariz, pequeno e afilado, complementava a obra de arte que Deus criara.
Pequenas manchas nas faces de mármore marcavam o traçado das lágrimas como pequenas pérolas que escorriam para o queixo pequeno e bem torneado.
O olhar que lhe devolveu tinha um misto de indignação e curiosidade:
- Que quer? – Brusquidão numa voz sussurrada.
- Nada, peço que me perdoe – Desculpou-se – Apenas pretendia saber se precisava de ajuda.
- E que pode fazer para me ajudar? – Ergueu-se revelando perto de um metro e sessenta bem torneado e cheio de atitude.
Um sorriso trocista e desafiador surgiu-lhe nos lábios perante o silêncio dele.
- Eh? – Insistiu – Vamos, diga como me pode ajudar.
- Para podermos ajudar uma pessoa temos de saber o que a atormenta, ou pelo menos o que necessita. – Recuperou a voz e a lucidez após um olhar demorado àquela pequena beleza morena que cruzava os braços numa atitude de desafio.
Ela mirou-o de alto a baixo apreciando o pouco à-vontade que lhe causava e que ele mal conseguia disfarçar:
- Não lhe pedi nada. – Sentenciou – Se quer ouvir histórias, arranje quem lhas leia, se não tem que fazer, vá procurar noutro lado.
- Assim farei.
Com o orgulho ferido, fez uma meia volta dramaticamente marcial e começou a afastar-se atirando para trás um “– Tenha uma boa noite.”
- Espere! – A voz dela ecoou, metálica.
Ele estacou mas não se voltou, aguardando.
- Espere, não vá. Peço que me desculpe. – Agora era toda suavidade.
António voltou-se lentamente. Estava sentada na campa onde estava debruçada há pouco, de perna cruzada, exibindo-a, bem torneada, um pouco acima do joelho.
A respiração dele soltava uma pequena nuvem de vapor a cada expiração… Como baixara a temperatura tão de repente.
- Estou muito nervosa – Recomeçou – Não sei o que digo, além de que não o conheço de lado nenhum, é normal que suspeite das suas intenções…
- Ok. Tentou ele. Vamos recomeçar. Peço que me desculpe mas não pude evitar de a ouvir chorar e como um bom idiota intrometido que sou, vim ver se necessitava de ajuda.
O seu sorriso foi como se a noite se tornasse dia.
- Obrigada. Eu não sou muito boa a lidar com pessoas, tenho pouco contacto e como tal pouco tato. Eu é que peço desculpas.
Sentiu-se a atmosfera a aliviar e embora o ar tivesse arrefecido imenso, havia calor nas palavras dela.
- Chamo-me António. – Instigou ele dando um passo na direção dela que se ergueu.
- Eu sou a Susana. – De novo o sorriso quente.
- Mas claro, “A Susana”. - Brincou ele. - Não uma Susana qualquer. Muito prazer. – A mão estendida amigavelmente ficou sem retribuição durante uns segundos, antes que ela se convencesse a aperta-la.
Por fim uma mão pequena e gelada tocou a dele. De leve e rapidamente.
- Que mão tão fria. Parece incrível como este local é frio enquanto lá fora há tanto calor.
- Como queres encontrar calor entre aqueles que o perderam há muito? – O rosto sério era de uma beleza clássica. – A morte é fria e negra.
Também António assumiu um rosto sério. – Mas veio procurar consolo junto dela.
- Não vim procurar consolo, estou para além de qualquer consolo. Aqui vai havendo alguma paz, entre aqueles que conseguem repousar.
- Com isto estou a esquecer a minha atitude cavalheiresca e não a estou a ajudar em nada, apenas a conversar.
As palavras foram bem recebidas pois o belo sorriso retornou. – Estar a conversar consigo já é uma boa ajuda. Há muito tempo que não falo com ninguém… Que valha a pena.
- Por vezes as coisas parecem melhores depois de falarmos sobre elas… Não parecem tão negras e muitas vezes acabamos por rir da nossa atitude. – Tentou o jovem sentando-se na laje onde ela se sentara anteriormente.
- Acredite que o meu… Chamemos-lhe problema, não é para rir e… Algo definitivo.
Sentou-se ao lado dele.
- Mas trata-se de algo que um estranho possa ajudar?
- Não. De todo.
- Assim, sem mais.
- Sem mais. E preferia não falar do assunto.
- Como queira.
Instalou-se um silêncio incómodo, de súbito interrompido por Susana. - Não fique aborrecido. Não quero parecer malcriada, mas incomoda-me falar do assunto.
- Podemos falar de outras coisas… Do tempo?
Ela devolveu-lhe um olhar crítico. Mesmo assim a beleza dela era impressionante.
- Pronto, está bem. Vamos falar da sua terra! É muito bonita, adoro estas casas… E o castelo? Qualquer coisa de impressionante. – A expressão de admiração dele provocou uma gargalhada curta mas que lhe soou como a mais bela melodia.
- Pare! Não seja assim, o castelo está em cacos e esta vila é terrivelmente aborrecida. Além de que esta não é a minha terra.
- Não?
- Não. Eu nasci e vivi longe daqui. Ao pé do mar. Figueira da Foz.
- Maravilha. Eu sou de Aveiro.
- Como tenho saudades do mar…
Por momentos o seu rosto pensativo e silencioso foi como uma pintura de um anjo de um qualquer mestre italiano.
- Também gosto muito do mar. Por vezes, mesmo no Inverno, passo horas a caminhar ao longo do areal. - Ele aproveitou
O rosto ausente pareceu despertar, como se só agora se apercebesse da sua presença, para logo se tornar absorto outra vez: - Também eu caminhei muitas vezes junto ao mar mas agora… Desde que casei e vim para aqui…
Ela estava a abrir-se e ele optou pelo silêncio, escutando:
- No início estava tudo bem e nós gozávamos a vida e vivíamos um para o outro. Mas um dia convenceu-me a virmos para cá cuidar da mãe, sozinha e doente.
O rosto belo estava absorto como se revivesse cada um daqueles momentos passados uma vez mais.
- Também aqui tudo pareceu correr bem durante algum tempo até que a velha, lenta, mas firmemente começou a “envenená-lo” contra mim. Fazia-lhe queixas, a maior parte das vezes infundadas ou maldosamente interpretadas.
Uma lágrima teimosa correu ficando a tremeluzir no queixo como uma pedra preciosa.
- Conseguia traduzir os erros que eu cometia inocentemente em maquiavélicos atos destinados a humilha-la ou a fazer troça dele, do filho dela, meu marido. Pouco a pouco a minha vida foi-se tornando num inferno onde eu era incessantemente castigada sem culpa.
Ele pousou o braço sobre os ombros dela e apertou-a sentindo o seu corpo gelado de encontro ao seu.
Susana ergueu-se soltando-se nervosamente do abraço.
Ficou parada olhando-o nos olhos. Ele manteve-se sentado, com a respiração pausada transformada em colunas de vapor…
- Desculpe-me. – O sorriso dela era uma desculpa encantadora – Vou passar a noite a pedir desculpas.
Ele retribuiu o sorriso e ergueu-se também:
- Você é que tem que me desculpar. Não a conheço de lado nenhum e já estava a abraça-la. No entanto acredite que se tratava apenas de a acalmar um pouco. Não se tornará a repetir.
- Não, a sério. Eu deveria ter entendido e não reagido desta maneira…
- Não falemos mais do assunto. Já nos desculpamos um ao outro.
Um silêncio comprometido ocupou o exíguo espaço entre ambos enquanto os olhares se cruzavam intensamente.
- Voltamos a sentar nesta pedra gélida? – Foi a sugestão dele que ela aceitou sem responder.
Novamente ao lado um do outro, António sentia o frio penetrante que vinha da laje e perguntava-se como conseguia ela aguentar aquele frio e estar assim gelada.
- Eu não vou aguentar esta vida muito mais tempo. – Susana concluiu ao fim de algum tempo de meditação. – Vou ter que fazer alguma coisa antes que ela dê conta de mim.
- Já tentou falar com ele?
- Sim. Acabamos sempre a discutir. Ele acha que eu só quero pô-lo contra ela e que quero realmente humilha-la… Por várias vezes a discussão foi tão violenta que chegou a bater-me.
- Não é possível que ele tenha assim uma confiança tão cega na mãe que não consiga perceber que as coisas não podem ser todas como lhe são contadas. Nem ao menos o beneficio da dúvida?
- Não, nada! Obediência cega e confiança absoluta.
Ele acariciou lentamente o rosto dela enquanto limpava outra pérola que corria livremente pela face:
- Como há homens que não sabem aproveitar o amor de um anjo do céu… – O sorriso triste dela era como se um raio de sol o atingisse – Tivesse eu a sorte de ter o amor de uma mulher maravilhosa como você.
- O destino não é justo. Também eu sinto como deveria ser doce a vida ao seu lado, embalada no seu carinho…
De repente o rosto de Susana escureceu numa onda de preocupação e sobressalto enquanto olhava atentamente para a parte mais distante do cemitério.
- Que foi? – Preocupação nele.
- Já deram pela minha falta. Chamaram-me, tenho de ir!
- Espera! – Segurou-lhe o braço – Voltas ainda?
- Não. Não posso.
- Amanhã. A esta hora?
- Não sei. – Ela estava a ficar ansiosa. – Não sei se posso. Tenho de ir, deixa-me.
Soltou-se com um gesto brusco e começou a correr.
- Onde moras? – Ele gritou com as mãos em concha.
A jovem parou e olhou-o indecisa.
Por fim ergueu um braço e indicou o vulto de uma casa encostada ao muro do cemitério onde uma janela tinha a luz acesa.
- Amanhã? – Insistiu ele.
- Veremos! – Gritou ainda enquanto recomeçava a correr.
António percorreu o caminho de volta à pensão com uma alegria imensa enquanto o calor da noite se fazia sentir novamente a cada passo que dava para longe daqueles muros que guardavam a morte.
Chegado à pensão, deitou-se sobre os lençóis completamente vestido e adormeceu com um sorriso no rosto.
Na manhã seguinte, após umas poucas horas de sono, estava fresco e renovado como não se sentia há muitos anos.
Passou uma boa hora a convencer o chefe que precisava de mais um dia para concluir o trabalho após o que telefonou para a pensão a confirmar que ficaria mais esta noite e Sábado.
O resto das horas pareceram uma eternidade.
Pela meia-noite já António trotava alegremente para o mesmo local onde encontrara Susana na noite anterior.
Localizou rapidamente o anjo da asa partida, sentou-se na mesma campa onde se sentaram anteriormente e ali esperou olhando na direção onde ela desaparecera no dia anterior.
A noite estava completamente diferente. Desta vez não havia nevoeiro nem frio e a lua dominava todo o céu sem nuvens.
A espera tornou-se longa e os minutos tornaram-se em horas e as horas em tristeza.
Acabou por dormitar encostado à estela da campa e a claridade da madrugada já ameaçava um dia abrasador quando tornou a abrir os olhos.
Ergueu-se entorpecido e, sem disfarçar o seu desalento, caminhou em passo arrastado de volta à pensão.
De novo se deitou completamente vestido mas não havia alegria e caiu num sono pesado povoado de pesadelos que pouco ou nada o descansou.
Quando acordou já era perto do meio-dia e, após o banho matinal, desfazia a barba enquanto questionava o indivíduo com olheiras profundas e rosto sério que o enfrentava ao espelho:
- Que faço? Vou procurar por ela? De certeza que lhe arranjo problemas.
Só depois do almoço tomado no restaurante em frente à pensão tomou uma decisão; Iria rondar a casa mas não sairia do carro e esconder-se-ia se a visse, não fosse ela trair-se e meter-se em sarilhos ainda maiores.
Assim enfrentou o calor da tarde de Sábado e conduziu na direção daquela parte da vila que mal conhecia.
Após contornar o cemitério apercebeu-se da Igreja que não conseguira divisar na noite anterior e, na tentativa de localizar a casa de Susana, apercebeu-se não existir nenhuma casa encostada aos muros, nem perto o suficiente para ser vista de dentro.
Estacionou o carro do outro lado da rua e atravessou ainda confundido com a situação e parou junto do adro do pequeno templo, pensativo.
Resolveu continuar a pé ao longo do muro sem dar conta que estava a ser observado pelo velho padre que, curioso, acompanhava todos os passos do jovem.
Ao dobrar a esquina encontrou as paredes derrubadas de uma ou duas casas que em tempos existiram ali. Vestígios negros anunciavam que o fogo poderá não ter sido estranho ao abandono e ruína destas casas.
Ao voltar-se para contornar as ruínas quase chocou com o pequeno e rotundo padre de ar simpático, cabelos brancos e batina preta:
- Hei. – Exclamou surpreendido.
- Oh. – Também ele se assustou – Desculpe-me, estava curioso com a sua curiosidade.
Uma gargalhada bem disposta sublinhou a frase.
- Parece que saiu do nada. – Riu António – Nem me tinha apercebido de si.
- Já estou a observa-lo desde que saiu do carro. Eu sei que ser curioso é feio, mas estava com um ar tão enigmático e pensativo que me deixou muito intrigado.
- Realmente estou aqui muito cismado. – Concordou – Tanto que lhe vou fazer uma pergunta; Conhece uma jovem aí de uns vinte e poucos, com mais ou menos um metro e sessenta, cabelo escuro e curto?
- Assim com essa descrição não há muitas por aqui. A vila não é assim tão grande…
- Chama-se Susana.
- Com esse nome, não. – O padre foi categórico.
- Não conhece nenhuma moça com esse nome?
- Não. Estou certo que não. Acho que não conheço cá nenhuma Susana, só se for de alguma das aldeias vizinhas.
- Não. Ela disse-me que vivia aqui na vila mas que era da Figueira da Foz.
O ar permanentemente risonho do padre desapareceu do seu rosto.
- Susana? Da Figueira da Foz?
- Sim, foi o que ela disse.
- A única que eu conheci, sim correspondia a essa descrição, morava aí na casa onde agora estão essas ruínas.
António devolveu o rosto sério ao sacerdote:
- Está a brincar comigo?
- Acha-me com cara de brincar com coisas sérias?
- Ela morava aqui nesta casa?
- Sim morava aí até que a casa ardeu.
- E agora onde mora?
- Agora mora dentro destes muros. Morreu no incêndio junto com a sogra e o marido. Deve estar a fazer um ano por estes dias. – Rapidamente agarrou o braço do jovem quando ele oscilou com o choque – Que se passa? Está a sentir-se bem?
- Sim, estou bem, obrigado. Foi só uma tontura.
- Venha comigo, vamos até à Igreja que está mais fresco e sair deste sol que nos abrasa a cabeça.
Caminharam lado a lado com o velho sacerdote apoiando o braço de António.
Dentro do pequeno templo estava realmente mais fresco e sentados em frente ao altar, ele contou todos os pormenores do seu encontro na noite passada com a doce Susana e da forma abrupta como terminou.
O abade confirmou que a pobre jovem muitas vezes tinha chorado junto a ele com o sofrimento que passava nas mãos da sogra e consequentemente do seu próprio marido.
- Uma noite de Setembro, – Os olhos do padre vidrados no vazio pareciam reviver a tragédia – os gritos das pessoas acordaram-me e, quando cheguei à rua, a imensa casa onde eles viviam era uma gigantesca tocha, como se o próprio demónio atiçasse as brasa para manter um lume forte.
Ficou imóvel e pensativo durante uns segundos: - Quando os bombeiros chegaram já nada podiam fazer. Era impossível tirar fosse quem fosse daquele inferno e limitaram-se a apagar o fogo. Só no outro dia se resgataram três corpos completamente carbonizados dos escombros.
- É incrível.
- Diz-se que um dos cadáveres, o da sogra, tinha uma faca espetada e achavam que o fogo fora provocado.
- Foi a Susana?
- Suspeita-se que sim. Mas os mortos não falam.
- Normalmente não. – Alertou António.
- Sim, meu filho. – Concordou o padre. – Normalmente não.
O jovem levantou-se bruscamente: - Quero ver a campa.
Entraram pela mesma porta de ferro que ele usara anteriormente e caminharam pelo meio das sepulturas, contornaram o anjo com a asa partida e o sacerdote apontou a campa em frente com um enorme Serafim de armadura Romana empunhando uma espada em chamas ao longo da perna direita.
Sobre a campa havia três placas de mármore e, numa delas, o rosto inconfundível de Susana: Susana Moreira – N.13.05.1977 F. 28.09.2005
- Fez ontem um ano. - Concluiu o padre – A ideia do Serafim foi da irmã. Disse que queria um anjo que representasse a vingança do sofrimento que ela viveu.
- Foi aqui que estivemos anteontem… Precisamente nesta campa.
- Há ainda muitas coisas na terra que não sabemos explicar…
- Ela era maravilhosa, senhor padre.
- Vem, meu filho, vamo-nos daqui. Deixa descansar os mortos. Deixa o reino deles em paz e dedica-te ao dos vivos que é aquele onde pertences.
Seguiram até ao carro em passo arrastado com António sustendo uma dor do tamanho do mundo sobre as suas costas.
Abriu a porta, sentou-se e lamentou:
- Porque tem que ser assim? Porque me apareceu justamente a mim?
- Quem pode saber? Talvez a sua alma vagueie por aí sem sossego porque tirou a sua própria vida e a de outros. Talvez porque procure ainda o amor a que acha que tem direito… E conseguiu regressar temporariamente no aniversário da sua morte.
- Não é justo! – Lamentou-se antes de agradecer tristemente ao padre e fechar a porta.
O velho sacerdote ficou imóvel vendo o veiculo afastar-se e sentindo a mágoa e dor que transportava dentro de si e que se espalhava em volta como algo invisível mas sensível.
As últimas casas da vila ficavam já para trás quando António, regressando a casa, ainda subjugado por uma dor intensa, tomou uma decisão:
- Vou voltar Susana! Dentro de um ano estarei aqui novamente. Hei-de voltar aqui todos os anos da minha vida até conseguir encontrar-te uma vez mais.




FIM
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quinta-feira, 10 de fevereiro de 2005

Ciúme

Este texto é uma obra de ficção. Embora possa incluir referências a eventos históricos e figuras reais, a história, os diálogos e as interpretações são fruto da imaginação do autor. Qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, é mera coincidência.


 
Foto: Fernando Mafra - Flickr
Dsf

O céu estava de um cinzento opaco sem o mais pequeno espaço entre as nuvens ameaçadoras que rebuliam nas alturas.
Pingas grossas mas espaçadas caíam aqui e ali convidando os últimos resistentes do funeral a abandonarem o campo das últimas moradas.
E ali estava eu. Um pouco afastada da ação, junto a uma árvore. Misteriosa;
Casaco comprido negro ocultando as formas, cabelo preso na nuca disfarçando o seu volume luxuriante… Ninguém me reconheceria à primeira vista mas também não estava interessada em ser reconhecida, antes em passar despercebida.
Estava livre finalmente. Aquele amor que me sufocava e descontrolava, aquela paixão tresloucada que me dominava, acabava-se ali, naquele instante.
Afundava-se na terra que os coveiros atiravam para dentro do buraco lúgubre e negro que continha o corpo sem vida do homem que eu mais amei na minha existência…
Mas porque é que eu não me sentia melhor? Porque é que não tresandava alegria, não exalava liberdade, se era o que mais ansiava, o que mais pedia… Libertar-me daquela voz que me enlevava, daquele olhar insinuante, daquelas palavras hipnóticas.
Não sei como o pude amar assim… Ele era apenas um homem, apenas isso.
O cemitério estava quase vazio… Apenas uma mulher ficou parada junto à cova que o tragou.
Ficou-se vendo a sepultura que se enchia debaixo de vigorosas pazadas soterrando os restos de uma existência tão doce como cruel, tão carinhosa como indiferente, tão importante como inútil.
Deixou-se ali até ao fim convencendo-se do início de uma nova vida sem a presença que durante anos fez parte da sua.
Também ela deverá sentir a libertação que eu sinto, irmã da minha dor, fraterna no meu sofrimento. Também ela se libertou do seu encanto hipnótico que nos fazia aceitar o inaceitável, que nos fazia amar o odioso… Também ela sofre.
Maldito e louvado sejas meu amado.
Por fim abandonou a sepultura e encaminha-se para a saída passando próximo de mim. Os seus olhos castanhos vivos, húmidos, fitaram-me e reconheceram-me sem nunca me terem visto. Foi ódio que brilhou por instantes logo apagado pela dor que lá habitava.
Estacou mesmo em frente a mim:
- Eras tu então, não eras?
Enfrentei o olhar dela com dificuldade mas não consegui responder. Como as minhas pernas tremiam.
- Agora não interessa mais. – Continuou baixando os olhos – Nem é teu nem é meu. Acabou. Foi uma vida a alternar entre campos de rosas e imensos silvados, de torturas imensas de novo aos píncaros do céu. E eu perdoei sempre… Sabe Deus a que custo, não conseguia estar muito tempo zangada com ele… - Suspirou e olhou-me nos olhos novamente - Não foste a primeira, sabes? E acho que não serias a última, mas ele voltava sempre para mim.
Tentei falar mas havia um nó na garganta que não deixava sair som. Olhei-a e não consegui impedir que uma lágrima rebelde corresse dos meus olhos.
A expressão dela suavizou-se um pouco e com um ligeiro sorriso deu-me duas reconfortantes palmadas no braço enquanto dizia à laia de despedida:
- Não precisas dizer, eu sei... Também eu.
Seguiu o seu caminho afastando-se enquanto eu empurrava as costas contra a árvore, ofegante, apercebendo-me de que devia ter estado sem respirar todo este tempo.
Não entendo. Ela deveria sentir-se como se lhe tivessem tirado um peso de cima. Sem ter de estar constantemente a olhar por cima do ombro, há espera que aparecesse a rival que ganhasse a corrida e lhe tirasse o seu homem… o meu homem… Que sei eu?…
Não é possível que também ela se sentisse como eu, numa hora no céu e na outra no inferno. Num momento envolta em doçuras e no outro apertado em arame farpado. E continuasse a amá-lo… Era apenas um homem, que tinha de especial?
Caminhei timidamente até à terra revolvida de fresco coberta com as flores de gente que eu não conhecia… Desconhecidos de uma vida do meu amor que eu ignorava. Tantos. E eu por vezes achava que o conhecia muito bem para logo em seguida descobrir uma nova faceta que pensava não existir ou que parecia não lhe pertencer.
Aos poucos as memórias acudiam-me. Os momentos de doçura, de carinho, do amor que exalava como ninguém. Não era possível que ele pudesse transmitir tanto amor quando estava comigo… Não posso crer que alguma vez ele conseguisse fazer o mesmo com outras, ama-las como me amava a mim…

- Ele disse-me uma vez que amava cada mulher como se fosse a primeira. - A voz a meu lado sobressaltou-me e fez-me ver uma outra mulher vestida de negro que parecia ter-se materializado naquele momento.
Mirei-a. Alta, morena, rosto firme e magro, elegante… Típica.
- Uma vez perguntei-lhe como conseguia ter várias mulheres ao mesmo tempo. – Nova “viúva” materializou-se ao outro meu lado. – Respondeu-me que cada uma era um universo que ele amava profundamente e sem cobranças.
Cabelo castanho, rosto pálido, marcado pelos anos, mas ainda bonito. Não me surpreendeu.
- Uma vez sussurrou-me ao ouvido – Desta vez a voz vinha de trás de mim - Que ele era como uma brisa. Acariciava todas suavemente mas deixando marcas profundas como a recordação de uma brisa fresca nas noites de calor.
Voltei-me. Não havia uma mas várias mulheres todas de negro que tinham vindo prestar homenagem ao homem de que eu me libertei, de quem elas se libertaram… De quem eu nos libertei…
Rostos, todos diferentes, tristes, mais cansados, menos cansados, mais idade menos idade. Pele limpa, sardas… Variedade… Pedaços da vida do meu amor, folhas que durante algum tempo vogaram ao sabor do mesmo vento que eu. Estrelas que por algum tempo da vida empalideceram com o brilho do ao sol que ele foi.
Um sol… Sim, acho que se podia chamar assim. Os risos eram poucos mas sinceros e convidativos… Nunca se zangava comigo... e eu zanguei-me tantas vezes com ele. Era desconcertante e fazia-me sentir confusa.
- Se ele me pedisse o mundo eu dar-lho-ia. – O murmúrio saiu do meio delas, não consegui distinguir qual.
- Nunca cobrou nada, sempre aceitou o que lhe dei e deu-se com grande intensidade. – Sobressaíram uns olhos verdes.
- Quando ele estava comigo, era comigo que estava, das outras eu não queria saber. – Um rosto magro aparentando ser mais velha que a maioria.
- Mas tu queria-lo só para ti. – A acusação pareceu um coro. – Não podias suportar partilhar a dádiva de amor que ele trazia com ele. Tinhas que acabar com tudo.
- Libertei-nos! – Gemi. – Libertei-vos.
- Livre era ele e deixava-nos viver em volta dele e saborear do seu amor e dedicação. Ainda que por pouco tempo. – Uma delas, elegante, de longos cabelos negros enfeitados com fios de prata, adiantou-se.
- Uma vez disse-me que a vida é tão curta e o amor tão vasto… – Disse outra cujo cabelo castanho curto e o rosto sardento davam-lhe um aspeto infantil – … que na hora em que pensasse amar apenas uma mulher estaria a morrer... ou já morto.
- Fazia-me sentir a mulher mais amada do mundo quando me abraçava, beijava e dizia coisas maravilhosas. – A pequena cicatriz debaixo da vista esquerda não a desfeava, antes dando um aspeto exótico – Outras vezes, era o meu amigo e confidente que me ouvia contar as minhas tristezas, incansável, atento, reconfortante.
- O sexo era extraordinário. – O piercing no nariz e as enormes argolas nas orelhas davam-lhe um ar de cigana – Calmo, decido, atento às minhas necessidades.
- Sim, mas mesmo que não quiséssemos sexo, - Rosto magro, nariz fino e óculos de hastes finíssimas – conseguia ter uma conversa inteligente…
- Sim, e tu destruíste tudo isso. Destruíste um homem que não te cobrou mas que tu cobraste, que não te exigiu mas que tu exigiste, que te amou e que tu sofregamente devoraste. – O rosto largo e fortemente bronzeado projetou um hálito quente e perfumado quando me fez a acusação quase nariz com nariz.
Fiquei-me, lágrimas nos olhos, de frente para o júri que já tinha dado o veredicto: Culpada.
Culpada de amar à loucura. Culpada de me descontrolar e achar que podia segurar a areia quente de um belo dia de praia na minha mão. Culpada de achar que ele só podia ser meu. Culpada de me deixar iludir por aquele anjo/monstro que durante tanto e tão pouco tempo encheu de amor a minha vida e infernizou o meu amor-próprio.
Findo o julgamento, todas se começaram a afastar, cada uma numa direção diferente. Cada uma para os seus próprios afazeres, quem sabe, à procura de um outro homem que consiga encher um pouco das suas existências como aquele fizera…

Fiquei-me ali recordando aquela hora há duas noites atrás… A discussão, invariavelmente sobre um potencial caso. A calma dele a refutar os meus argumentos, a astúcia dele a fazer-me crer no incrível, a argúcia dele a fazer-me aceitar o inaceitável.
Por fim, os beijos. As palavras doces que me tiravam a sensatez, o toque suave que me excitava à loucura.
Não me podia perder mais e tinha de me libertar daquele inferno quente/frio, daquele céu fresco/escaldante que era a minha existência nos últimos tempos ao lado do homem que amava.
Soltei-me. Abri o porta-luvas onde sabia que ele guardava a arma e, sem pensar, descarreguei o carregador naquele peito carregado de amor que não era só meu.
É horrível que aquele rosto não mostrou, nem aí, fúria. Após a expressão de surpresa inicial, deixou-se descair, sem um gemido, com um ar de tristeza, de pena. De deixar esta vida, de me deixar, de mim… a elas... Sei lá.
Libertei-me de um pesadelo ou estarei agora a viver um?

Ao fundo do cemitério, à saída, começavam a juntar-se alguns polícias que apontavam para mim… Assim ia acabar tudo. Presa por libertar o mundo de um monstro, libertar o mundo de um anjo do amor e do engano…
Os polícias chegam ao pé de mim e agarram-me os braços com força e prendem-me as mãos atrás das costas com as algemas apertadas e frias e eu sinto-me sufocar…

Dou um salto na cama. Os meus olhos levam algum tempo a habituar-se à semi-obscuridade do quarto. A meu lado, meu marido dorme placidamente com um respirar rítmico e pesado.
Tudo está normal… Era apenas um pesadelo, está tudo bem e eu estou aqui no meu quarto. Forço-me a começar a respirar normalmente enquanto recupero de tão violento pesadelo.
Encosto-me calmamente ao meu marido evitando acorda-lo e procurando um pouco de segurança para o medo que senti neste sonho.
Amanhã será outro dia, vai amanhecer, sairei de casa e irei ter com o meu amor.



FIM

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quinta-feira, 1 de abril de 2004

Mitologia




Queria prender o Tempo numa garrafa
Escondê-la algures onde não me lembrasse mais.
Perder-lhe completamente o tino,
Esquecê-la e não mais a procurar.
Queria poder segurar o Sol,
Conter a Sua luz em minhas mãos
Para a poder levar junto de ti
E mostrar-lhe como esmorece face ao teu brilho.
Queria poder transportar a Lua,
Encastra-la numa joia,
Num colar de valor incalculável
Sabendo que sua graça
Ficaria assombrada por ti
Ao adornar o teu pescoço.
Queria ser mágico
E conjurar os Poderes,
Invocar os Anjos e os Deuses
Para poder mudar o Mundo
E ajustá-lo só para nós.
Convocaria Marte
Para fazer guerra às vozes maldosas que nos odeiam.
Vulcano,
Para fazer espadas e ripostar com ferro à inveja.
Chamaria Baco,
Para embriagar os felizes e distraídos
Mantendo-os na Santa Ignorância
Sem quererem mal a ninguém nem saberem o que os rodeia.
Invocaria Vénus,
Para que te servisse
E te tratasse com o respeito que a tua divindade merece.
Apelaria a Mercúrio,
Para que corresse a todos os cantos do mundo
Gritando o nosso Amor e ameaçando quem tentasse ver mal nele.
Imploraria a Cronos que parasse o tempo
De cada vez que estivéssemos juntos
Para que cada momento durasse uma eternidade.
Lembrar-me-ia de Morfeu,
Toda a vez que o sono pesasse em meus olhos
E pudesse pousar a cabeça em teu colo aconchegante e convidativo.
Seria enfim Zeus ou Júpiter,
Quem comandaria esta hoste divina
Que velaria por nós não permitindo que nada de mal nos acontecesse.
Mas eu não posso tocar os Astros nem invocar os Deuses
E o tempo escoa-se-me por entre as mãos
Como a areia corre na ampulheta.
Mercúrio não corre em meu auxilio,
Cronos não quer parar o tempo,
Marte está ocupado em outras guerras...
Só Afrodite ficou...
Encarcerada em ti num corpo de Deusa,
Olhos de diamante
E rosto de Anjo
Lembrando a este pobre mortal
Que a vida é curta e o paraíso está muito longe.
Dando um pequeno vislumbre
Da beleza da Criação de Deus
E de como o Mundo pode ser perfeito e belo.
E o tempo corre inexoravelmente
Arrastando atrás de si farrapos de vidas incompletas,
Trazendo a neve aos cabelos e a tortura aos ossos.
Tiquetaqueando segundo após segundo.
E eu fico sempre
Vendo-te a meu lado
Sorrindo como o Sol no teu rosto de Lua.
Sou como uma criança pendurada num muro intransponível
Assombrado pela beleza da ninfa que dança do outro lado.
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sábado, 27 de março de 2004

Tens razão




Tens razão, aliás como sempre,
Que há para dizer mais?
Depois de tanto tempo sem falar,
Tantas palavras que não foram ditas,
Outras tantas que não foram preciso dizer.
Durante tanto tempo, uma eternidade, me parece,
Foste a minha Estrela da Manhã,
A brilhar na génese do meu dia,
Aqueceste-me e ofuscaste-me
Com o teu calor e a tua luz
Ao ser o meu Sol de meio-dia.
E até pela noite estavas comigo,
Lua cheia distante,
Iluminando os meus passos noturnos.
E eu estava sempre contigo,
E via-te sempre comigo, cabeça com cabeça,
Olhos nos olhos.
E era só fechar os olhos para sentir,
O calor do teu rosto no meu,
O toque aveludado dos teus lábios nos meus.
Mas como sempre tens razão,
Que há para dizer mais?
Exceto que as minhas manhãs,
São um de um ar sombrio,
Porque as estrelas não estão lá.
As minhas tardes ensolaradas,
Estão sem cor,
Dominadas por um teto de nuvens
Que ameaça chuva.
E as minhas noites…
As minhas intermináveis noites,
São vazias e sem luz,
Com o veludo negro do céu
Manchado por cúmulos errantes e negros.
E eu sinto-te sempre comigo,
Pensamento com pensamento,
Ora odeias-me, ora sofres comigo.
E eu fecho os olhos,
E parece que te encontro,
Algures entre meus conturbados pensamentos,
Voltando para mim o teu olhar triste…
Mas como sempre tens razão,
Que há para dizer mais?
Exceto que te amo e amarei,
Que ficou marcado a fogo no meu coração
O amor que tenho por ti
E que tu deliciosamente correspondeste.
Que está incrustado em minha Alma,
Cada momento que passamos juntos.
Que cada olhar que me consegues dar
É um sol radioso que rompe as nuvens.
Cada sorriso que me dedicas,
É o brilho e a cor que regressam,
Cheias de Esperança.
Conseguimos enfim arrastar o calor do Verão,
Até ao pino do Inverno.
E agora o vento frio e a chuva,
Imperam nos nossos dias,
Porque os deixamos colocar-se entre nós.
E o Estio é uma lembrança distante,
Que eu quero conservar comigo,
Na esperança de algum dia cumprir o meu destino.
Mas como sempre tens razão,
Que há para dizer mais?
Exceto que bons ou maus momentos,
Voltaria viver cada um dos que vivi contigo.
Voltaria a sofrer quando sofri
E a rir quando ri, a amar quando amamos,
Sempre sabendo como tudo iria terminar,
Vivendo um minuto de cada vez.
Mas como sempre tens razão,
Que há para dizer mais?
Exceto que valeu cada minuto,
E que não quero que termine nunca…
Obrigado por existires.


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quinta-feira, 5 de fevereiro de 2004

Sal da Vida


Ao fim e ao cabo tudo se resume
À chama que arde
Ao lume que consome o nosso coração.
Calor intenso que em todo o dia que se perde,
Em toda a hora que se esvai,
Queima e cresta a sensível Alma.
Mas não deixes o desespero dominar,
Não desprezes o Sal da Vida
E abana a Árvore da Tentação.
Prova dos seus frutos, aprecia a sua doçura,
E vive ao sabor da vida,
Remando sempre contra a maré.
Não te deixes cair no desânimo
E deixa a Chama arder bem forte no peito.
Assim terás sempre a certeza,
Enquanto a sentires queimar,
Enquanto a adrenalina correr nas tuas veias,
Será certamente porque estás viva.
Mas não deixes o desespero dominar,
Não desprezes o Sal da Vida
E abana a Árvore da Tentação.
Embaraça o empregado do café,
Escandaliza a vizinha da frente,
Inferniza a vida dos teus colegas.
Sente-te viva e sacode a tua vida,
Bem como a daqueles que te rodeiam.
Não te deixes sufocar e agride-os com teu sorriso,
Atordoa-os com teu gargalhar,
Mostra-lhes que a vida deve ser vivida
E que tu fazes questão de o fazer.
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