Debaixodosceus.pt e Amazon.com: Uma parceria de sucesso
2017 Publicação "Daquele Além Marão"
2020 Foi criada a nova imagem
2017 Apresentação na Casa dos Transmontanos do Porto
2022, Pela primeira vez, publicação em capa dura além de capa mole
2017 Apresentação na Confeitaria Luso-brasileira
2020 Publicação "Entre o Preto e o Branco"
2017 Apresentação no CITICA de Daqueles Além Marão
2016 Apresentação no CITICA de "Lágrimas no Rio"
2016 Publicação de Lágrimas no Rio
2016 Apresentação no ISLA de "Lágrimas no Rio"
2015 "Terras de Xisto" - A primeira publicação
2022 Publicação de "A Caixa do Mal"
2022 Devido ao seu sucesso, "Lágrimas no Rio" tem 2ª edição
2022 Publicação "Na Sombra da Mentira"
2022 Publicação "Depois das Velas se Apagarem"

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2005

Ciúme

Este texto é uma obra de ficção. Embora possa incluir referências a eventos históricos e figuras reais, a história, os diálogos e as interpretações são fruto da imaginação do autor. Qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, é mera coincidência.


 
Foto: Fernando Mafra - Flickr
Dsf

O céu estava de um cinzento opaco sem o mais pequeno espaço entre as nuvens ameaçadoras que rebuliam nas alturas.
Pingas grossas mas espaçadas caíam aqui e ali convidando os últimos resistentes do funeral a abandonarem o campo das últimas moradas.
E ali estava eu. Um pouco afastada da ação, junto a uma árvore. Misteriosa;
Casaco comprido negro ocultando as formas, cabelo preso na nuca disfarçando o seu volume luxuriante… Ninguém me reconheceria à primeira vista mas também não estava interessada em ser reconhecida, antes em passar despercebida.
Estava livre finalmente. Aquele amor que me sufocava e descontrolava, aquela paixão tresloucada que me dominava, acabava-se ali, naquele instante.
Afundava-se na terra que os coveiros atiravam para dentro do buraco lúgubre e negro que continha o corpo sem vida do homem que eu mais amei na minha existência…
Mas porque é que eu não me sentia melhor? Porque é que não tresandava alegria, não exalava liberdade, se era o que mais ansiava, o que mais pedia… Libertar-me daquela voz que me enlevava, daquele olhar insinuante, daquelas palavras hipnóticas.
Não sei como o pude amar assim… Ele era apenas um homem, apenas isso.
O cemitério estava quase vazio… Apenas uma mulher ficou parada junto à cova que o tragou.
Ficou-se vendo a sepultura que se enchia debaixo de vigorosas pazadas soterrando os restos de uma existência tão doce como cruel, tão carinhosa como indiferente, tão importante como inútil.
Deixou-se ali até ao fim convencendo-se do início de uma nova vida sem a presença que durante anos fez parte da sua.
Também ela deverá sentir a libertação que eu sinto, irmã da minha dor, fraterna no meu sofrimento. Também ela se libertou do seu encanto hipnótico que nos fazia aceitar o inaceitável, que nos fazia amar o odioso… Também ela sofre.
Maldito e louvado sejas meu amado.
Por fim abandonou a sepultura e encaminha-se para a saída passando próximo de mim. Os seus olhos castanhos vivos, húmidos, fitaram-me e reconheceram-me sem nunca me terem visto. Foi ódio que brilhou por instantes logo apagado pela dor que lá habitava.
Estacou mesmo em frente a mim:
- Eras tu então, não eras?
Enfrentei o olhar dela com dificuldade mas não consegui responder. Como as minhas pernas tremiam.
- Agora não interessa mais. – Continuou baixando os olhos – Nem é teu nem é meu. Acabou. Foi uma vida a alternar entre campos de rosas e imensos silvados, de torturas imensas de novo aos píncaros do céu. E eu perdoei sempre… Sabe Deus a que custo, não conseguia estar muito tempo zangada com ele… - Suspirou e olhou-me nos olhos novamente - Não foste a primeira, sabes? E acho que não serias a última, mas ele voltava sempre para mim.
Tentei falar mas havia um nó na garganta que não deixava sair som. Olhei-a e não consegui impedir que uma lágrima rebelde corresse dos meus olhos.
A expressão dela suavizou-se um pouco e com um ligeiro sorriso deu-me duas reconfortantes palmadas no braço enquanto dizia à laia de despedida:
- Não precisas dizer, eu sei... Também eu.
Seguiu o seu caminho afastando-se enquanto eu empurrava as costas contra a árvore, ofegante, apercebendo-me de que devia ter estado sem respirar todo este tempo.
Não entendo. Ela deveria sentir-se como se lhe tivessem tirado um peso de cima. Sem ter de estar constantemente a olhar por cima do ombro, há espera que aparecesse a rival que ganhasse a corrida e lhe tirasse o seu homem… o meu homem… Que sei eu?…
Não é possível que também ela se sentisse como eu, numa hora no céu e na outra no inferno. Num momento envolta em doçuras e no outro apertado em arame farpado. E continuasse a amá-lo… Era apenas um homem, que tinha de especial?
Caminhei timidamente até à terra revolvida de fresco coberta com as flores de gente que eu não conhecia… Desconhecidos de uma vida do meu amor que eu ignorava. Tantos. E eu por vezes achava que o conhecia muito bem para logo em seguida descobrir uma nova faceta que pensava não existir ou que parecia não lhe pertencer.
Aos poucos as memórias acudiam-me. Os momentos de doçura, de carinho, do amor que exalava como ninguém. Não era possível que ele pudesse transmitir tanto amor quando estava comigo… Não posso crer que alguma vez ele conseguisse fazer o mesmo com outras, ama-las como me amava a mim…

- Ele disse-me uma vez que amava cada mulher como se fosse a primeira. - A voz a meu lado sobressaltou-me e fez-me ver uma outra mulher vestida de negro que parecia ter-se materializado naquele momento.
Mirei-a. Alta, morena, rosto firme e magro, elegante… Típica.
- Uma vez perguntei-lhe como conseguia ter várias mulheres ao mesmo tempo. – Nova “viúva” materializou-se ao outro meu lado. – Respondeu-me que cada uma era um universo que ele amava profundamente e sem cobranças.
Cabelo castanho, rosto pálido, marcado pelos anos, mas ainda bonito. Não me surpreendeu.
- Uma vez sussurrou-me ao ouvido – Desta vez a voz vinha de trás de mim - Que ele era como uma brisa. Acariciava todas suavemente mas deixando marcas profundas como a recordação de uma brisa fresca nas noites de calor.
Voltei-me. Não havia uma mas várias mulheres todas de negro que tinham vindo prestar homenagem ao homem de que eu me libertei, de quem elas se libertaram… De quem eu nos libertei…
Rostos, todos diferentes, tristes, mais cansados, menos cansados, mais idade menos idade. Pele limpa, sardas… Variedade… Pedaços da vida do meu amor, folhas que durante algum tempo vogaram ao sabor do mesmo vento que eu. Estrelas que por algum tempo da vida empalideceram com o brilho do ao sol que ele foi.
Um sol… Sim, acho que se podia chamar assim. Os risos eram poucos mas sinceros e convidativos… Nunca se zangava comigo... e eu zanguei-me tantas vezes com ele. Era desconcertante e fazia-me sentir confusa.
- Se ele me pedisse o mundo eu dar-lho-ia. – O murmúrio saiu do meio delas, não consegui distinguir qual.
- Nunca cobrou nada, sempre aceitou o que lhe dei e deu-se com grande intensidade. – Sobressaíram uns olhos verdes.
- Quando ele estava comigo, era comigo que estava, das outras eu não queria saber. – Um rosto magro aparentando ser mais velha que a maioria.
- Mas tu queria-lo só para ti. – A acusação pareceu um coro. – Não podias suportar partilhar a dádiva de amor que ele trazia com ele. Tinhas que acabar com tudo.
- Libertei-nos! – Gemi. – Libertei-vos.
- Livre era ele e deixava-nos viver em volta dele e saborear do seu amor e dedicação. Ainda que por pouco tempo. – Uma delas, elegante, de longos cabelos negros enfeitados com fios de prata, adiantou-se.
- Uma vez disse-me que a vida é tão curta e o amor tão vasto… – Disse outra cujo cabelo castanho curto e o rosto sardento davam-lhe um aspeto infantil – … que na hora em que pensasse amar apenas uma mulher estaria a morrer... ou já morto.
- Fazia-me sentir a mulher mais amada do mundo quando me abraçava, beijava e dizia coisas maravilhosas. – A pequena cicatriz debaixo da vista esquerda não a desfeava, antes dando um aspeto exótico – Outras vezes, era o meu amigo e confidente que me ouvia contar as minhas tristezas, incansável, atento, reconfortante.
- O sexo era extraordinário. – O piercing no nariz e as enormes argolas nas orelhas davam-lhe um ar de cigana – Calmo, decido, atento às minhas necessidades.
- Sim, mas mesmo que não quiséssemos sexo, - Rosto magro, nariz fino e óculos de hastes finíssimas – conseguia ter uma conversa inteligente…
- Sim, e tu destruíste tudo isso. Destruíste um homem que não te cobrou mas que tu cobraste, que não te exigiu mas que tu exigiste, que te amou e que tu sofregamente devoraste. – O rosto largo e fortemente bronzeado projetou um hálito quente e perfumado quando me fez a acusação quase nariz com nariz.
Fiquei-me, lágrimas nos olhos, de frente para o júri que já tinha dado o veredicto: Culpada.
Culpada de amar à loucura. Culpada de me descontrolar e achar que podia segurar a areia quente de um belo dia de praia na minha mão. Culpada de achar que ele só podia ser meu. Culpada de me deixar iludir por aquele anjo/monstro que durante tanto e tão pouco tempo encheu de amor a minha vida e infernizou o meu amor-próprio.
Findo o julgamento, todas se começaram a afastar, cada uma numa direção diferente. Cada uma para os seus próprios afazeres, quem sabe, à procura de um outro homem que consiga encher um pouco das suas existências como aquele fizera…

Fiquei-me ali recordando aquela hora há duas noites atrás… A discussão, invariavelmente sobre um potencial caso. A calma dele a refutar os meus argumentos, a astúcia dele a fazer-me crer no incrível, a argúcia dele a fazer-me aceitar o inaceitável.
Por fim, os beijos. As palavras doces que me tiravam a sensatez, o toque suave que me excitava à loucura.
Não me podia perder mais e tinha de me libertar daquele inferno quente/frio, daquele céu fresco/escaldante que era a minha existência nos últimos tempos ao lado do homem que amava.
Soltei-me. Abri o porta-luvas onde sabia que ele guardava a arma e, sem pensar, descarreguei o carregador naquele peito carregado de amor que não era só meu.
É horrível que aquele rosto não mostrou, nem aí, fúria. Após a expressão de surpresa inicial, deixou-se descair, sem um gemido, com um ar de tristeza, de pena. De deixar esta vida, de me deixar, de mim… a elas... Sei lá.
Libertei-me de um pesadelo ou estarei agora a viver um?

Ao fundo do cemitério, à saída, começavam a juntar-se alguns polícias que apontavam para mim… Assim ia acabar tudo. Presa por libertar o mundo de um monstro, libertar o mundo de um anjo do amor e do engano…
Os polícias chegam ao pé de mim e agarram-me os braços com força e prendem-me as mãos atrás das costas com as algemas apertadas e frias e eu sinto-me sufocar…

Dou um salto na cama. Os meus olhos levam algum tempo a habituar-se à semi-obscuridade do quarto. A meu lado, meu marido dorme placidamente com um respirar rítmico e pesado.
Tudo está normal… Era apenas um pesadelo, está tudo bem e eu estou aqui no meu quarto. Forço-me a começar a respirar normalmente enquanto recupero de tão violento pesadelo.
Encosto-me calmamente ao meu marido evitando acorda-lo e procurando um pouco de segurança para o medo que senti neste sonho.
Amanhã será outro dia, vai amanhecer, sairei de casa e irei ter com o meu amor.



FIM

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quinta-feira, 1 de abril de 2004

Mitologia




Queria prender o Tempo numa garrafa
Escondê-la algures onde não me lembrasse mais.
Perder-lhe completamente o tino,
Esquecê-la e não mais a procurar.
Queria poder segurar o Sol,
Conter a Sua luz em minhas mãos
Para a poder levar junto de ti
E mostrar-lhe como esmorece face ao teu brilho.
Queria poder transportar a Lua,
Encastra-la numa joia,
Num colar de valor incalculável
Sabendo que sua graça
Ficaria assombrada por ti
Ao adornar o teu pescoço.
Queria ser mágico
E conjurar os Poderes,
Invocar os Anjos e os Deuses
Para poder mudar o Mundo
E ajustá-lo só para nós.
Convocaria Marte
Para fazer guerra às vozes maldosas que nos odeiam.
Vulcano,
Para fazer espadas e ripostar com ferro à inveja.
Chamaria Baco,
Para embriagar os felizes e distraídos
Mantendo-os na Santa Ignorância
Sem quererem mal a ninguém nem saberem o que os rodeia.
Invocaria Vénus,
Para que te servisse
E te tratasse com o respeito que a tua divindade merece.
Apelaria a Mercúrio,
Para que corresse a todos os cantos do mundo
Gritando o nosso Amor e ameaçando quem tentasse ver mal nele.
Imploraria a Cronos que parasse o tempo
De cada vez que estivéssemos juntos
Para que cada momento durasse uma eternidade.
Lembrar-me-ia de Morfeu,
Toda a vez que o sono pesasse em meus olhos
E pudesse pousar a cabeça em teu colo aconchegante e convidativo.
Seria enfim Zeus ou Júpiter,
Quem comandaria esta hoste divina
Que velaria por nós não permitindo que nada de mal nos acontecesse.
Mas eu não posso tocar os Astros nem invocar os Deuses
E o tempo escoa-se-me por entre as mãos
Como a areia corre na ampulheta.
Mercúrio não corre em meu auxilio,
Cronos não quer parar o tempo,
Marte está ocupado em outras guerras...
Só Afrodite ficou...
Encarcerada em ti num corpo de Deusa,
Olhos de diamante
E rosto de Anjo
Lembrando a este pobre mortal
Que a vida é curta e o paraíso está muito longe.
Dando um pequeno vislumbre
Da beleza da Criação de Deus
E de como o Mundo pode ser perfeito e belo.
E o tempo corre inexoravelmente
Arrastando atrás de si farrapos de vidas incompletas,
Trazendo a neve aos cabelos e a tortura aos ossos.
Tiquetaqueando segundo após segundo.
E eu fico sempre
Vendo-te a meu lado
Sorrindo como o Sol no teu rosto de Lua.
Sou como uma criança pendurada num muro intransponível
Assombrado pela beleza da ninfa que dança do outro lado.
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sábado, 27 de março de 2004

Tens razão




Tens razão, aliás como sempre,
Que há para dizer mais?
Depois de tanto tempo sem falar,
Tantas palavras que não foram ditas,
Outras tantas que não foram preciso dizer.
Durante tanto tempo, uma eternidade, me parece,
Foste a minha Estrela da Manhã,
A brilhar na génese do meu dia,
Aqueceste-me e ofuscaste-me
Com o teu calor e a tua luz
Ao ser o meu Sol de meio-dia.
E até pela noite estavas comigo,
Lua cheia distante,
Iluminando os meus passos noturnos.
E eu estava sempre contigo,
E via-te sempre comigo, cabeça com cabeça,
Olhos nos olhos.
E era só fechar os olhos para sentir,
O calor do teu rosto no meu,
O toque aveludado dos teus lábios nos meus.
Mas como sempre tens razão,
Que há para dizer mais?
Exceto que as minhas manhãs,
São um de um ar sombrio,
Porque as estrelas não estão lá.
As minhas tardes ensolaradas,
Estão sem cor,
Dominadas por um teto de nuvens
Que ameaça chuva.
E as minhas noites…
As minhas intermináveis noites,
São vazias e sem luz,
Com o veludo negro do céu
Manchado por cúmulos errantes e negros.
E eu sinto-te sempre comigo,
Pensamento com pensamento,
Ora odeias-me, ora sofres comigo.
E eu fecho os olhos,
E parece que te encontro,
Algures entre meus conturbados pensamentos,
Voltando para mim o teu olhar triste…
Mas como sempre tens razão,
Que há para dizer mais?
Exceto que te amo e amarei,
Que ficou marcado a fogo no meu coração
O amor que tenho por ti
E que tu deliciosamente correspondeste.
Que está incrustado em minha Alma,
Cada momento que passamos juntos.
Que cada olhar que me consegues dar
É um sol radioso que rompe as nuvens.
Cada sorriso que me dedicas,
É o brilho e a cor que regressam,
Cheias de Esperança.
Conseguimos enfim arrastar o calor do Verão,
Até ao pino do Inverno.
E agora o vento frio e a chuva,
Imperam nos nossos dias,
Porque os deixamos colocar-se entre nós.
E o Estio é uma lembrança distante,
Que eu quero conservar comigo,
Na esperança de algum dia cumprir o meu destino.
Mas como sempre tens razão,
Que há para dizer mais?
Exceto que bons ou maus momentos,
Voltaria viver cada um dos que vivi contigo.
Voltaria a sofrer quando sofri
E a rir quando ri, a amar quando amamos,
Sempre sabendo como tudo iria terminar,
Vivendo um minuto de cada vez.
Mas como sempre tens razão,
Que há para dizer mais?
Exceto que valeu cada minuto,
E que não quero que termine nunca…
Obrigado por existires.


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quinta-feira, 5 de fevereiro de 2004

Sal da Vida


Ao fim e ao cabo tudo se resume
À chama que arde
Ao lume que consome o nosso coração.
Calor intenso que em todo o dia que se perde,
Em toda a hora que se esvai,
Queima e cresta a sensível Alma.
Mas não deixes o desespero dominar,
Não desprezes o Sal da Vida
E abana a Árvore da Tentação.
Prova dos seus frutos, aprecia a sua doçura,
E vive ao sabor da vida,
Remando sempre contra a maré.
Não te deixes cair no desânimo
E deixa a Chama arder bem forte no peito.
Assim terás sempre a certeza,
Enquanto a sentires queimar,
Enquanto a adrenalina correr nas tuas veias,
Será certamente porque estás viva.
Mas não deixes o desespero dominar,
Não desprezes o Sal da Vida
E abana a Árvore da Tentação.
Embaraça o empregado do café,
Escandaliza a vizinha da frente,
Inferniza a vida dos teus colegas.
Sente-te viva e sacode a tua vida,
Bem como a daqueles que te rodeiam.
Não te deixes sufocar e agride-os com teu sorriso,
Atordoa-os com teu gargalhar,
Mostra-lhes que a vida deve ser vivida
E que tu fazes questão de o fazer.
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sexta-feira, 23 de janeiro de 2004

Angústia



Não é possível descrever a angustia,
Do querer e não poder ter.
A dor do rasgar da Alma porque,
Ao fincar o pé não me deixo arrastar.
A consciência é o flagelo que Deus nos deixou,
O coração, o instrumento enganador que bate quando não deve.
E a Alma…
A Alma sofre com a antítese constante dos dois.
Mas não é por isso que tudo passa.
Não é pela consciência nos flagelar,
Que o coração deixa de se partir
E a nossa mente voa perdida.
Também eu vagueio pelas recordações,
Suspirando à mais pequena memória tua.
Sinto o coração saltar,
De cada vez que o telemóvel dá mensagem.
A minha respiração sustém-se,
Cada vez que te vejo ou ouço.
As musicas doem ao ouvir porque,
Cada lamento é de uma alma gémea,
Que sentiu e sabe o que eu sinto.
Resta sonhar durante o tempo que resta,
Esperar que passe o tempo que não passa,
Desejar o que não devo desejar
E pedir a Deus o que não devo ter.
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quarta-feira, 12 de novembro de 2003

Até que chegues


O vento gelado queima o meu rosto
E os olhos choram com o frio,
Ao olhar a imensidão do mar.
O troar continuo das ondas,
Batendo eternamente nas rochas,
Lembra a inevitabilidade da dor
Associada à força dos sentimentos.
Também ela bate continuamente em nós,
Furiosamente, macerando, quebrantando,
Destruindo a força de vontade.
As gaivotas gritam estridentemente
Procurando algures entre as águas,
Um pouco de alimento físico.
Também eu busco neste horizonte imenso
Um pouco de alimento, espiritual.
De olhos estendidos ao céu,
Pensamentos perdidos no anjo que és.
Ao longe um navio demanda o cais,
Cidadela iluminada, consciente do destino,
Enquanto eu erro à deriva na vida.
Sonhos esfarrapados como as nuvens no céu,
Olhos semicerrados, cegos aos erros,
Pensamentos dispersos sem rumo definido.
E aqui ficaria horas desfiadas em dias,
Semanas em linha desdobradas em meses,
Não fosse tu chegares…
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quinta-feira, 2 de outubro de 2003

Criação



O mundo era jovem e as estrelas crianças reluzentes,
E nós, os Primeiros daquela raça.
Éramos luz e promessa de vitória,
A Esperança tornada vida.
Os rios eram cristalinos cheirando a alfazema,
Cantando histórias das suas viagens.
Os animais, nossos companheiros,
Acompanhavam-nos e falavam-nos com alegria.
Naquele tempo, o mundo era virgem,
E nós os futuros donos.
Naquele tempo em que o mundo era jovem,
Éramos apenas crianças,
Vigiadas ternamente pelo Bom Pastor,
Que olhava carinhosamente a sua Criação.
Mas não seriamos crianças para sempre
E o brilho do Conhecimento
Refulgiu nos nossos olhos ingénuos,
Abrindo-os e enchendo-os de Sabedoria,
De Bondade e de Maldade.
E de repente sabíamos quem eramos,
Quem poderíamos ser...
E queríamos mais.
O Bom Pastor cobriu a face e chorou,
Ao dar-nos o Conhecimento pretendia tornar-nos melhores...
Mas também Ele comete erros.
E o mundo agora é velho e as estrelas baças e mortiças.
Os rios sem vida
Onde as águas que não são mais cristalinas,
Já não chilreiam mais histórias.
Os animais temem-nos e não nos falam,
Chocados com a nossa mudança.

Desde então que a esperança temo-la nós,
Em cada um dos nossos filhos,
Que seja melhor do que somos,
Que faça mais do que fizemos,
Que tenha mais felicidade que a que temos.
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