Debaixodosceus.pt e Amazon.com: Uma parceria de sucesso
2017 Publicação "Daquele Além Marão"
2020 Foi criada a nova imagem
2017 Apresentação na Casa dos Transmontanos do Porto
2022, Pela primeira vez, publicação em capa dura além de capa mole
2017 Apresentação na Confeitaria Luso-brasileira
2020 Publicação "Entre o Preto e o Branco"
2017 Apresentação no CITICA de Daqueles Além Marão
2016 Apresentação no CITICA de "Lágrimas no Rio"
2016 Publicação de Lágrimas no Rio
2016 Apresentação no ISLA de "Lágrimas no Rio"
2015 "Terras de Xisto" - A primeira publicação
2022 Publicação de "A Caixa do Mal"
2022 Devido ao seu sucesso, "Lágrimas no Rio" tem 2ª edição
2022 Publicação "Na Sombra da Mentira"
2022 Publicação "Depois das Velas se Apagarem"

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Nova antologia Sui Generis - Bendita Manjedoura



Mais uma participação em antologias. Desta vez sob o tema do Natal, foi incluído um conto inédito "O Natal de Miriam".

De: SUI GENERIS
Date: sábado, 12/10/2019 à(s) 12:12
Subject: BEN 007 - Manuel Amaro Mendonça - 1 Texto
To: Manuel Amaro Mendonça


Bom dia, Manuel Amaro Mendonça.

Obrigado pela submissão do seu texto com o título

à antologia «BENDITA MANJEDOURA!».

Recebemos o seu ficheiro em perfeitas condições.
O envio de qualquer texto para este projecto literário pressupõe conhecimento e aceitação de todos os pontos do Regulamento, que se encontra disponível neste endereço:


Se ainda tiver alguma dúvida, faça o favor de esclarecê-la. Estamos disponíveis para responder a qualquer questão.

Todos os textos recepcionados neste email serão submetidos ao processo de selecção para a antologia «BENDITA MANJEDOURA!» e o resultado da selecção será divulgado (de acordo com o Ponto 5 do Regulamento) no prazo de duas semanas após a data limite para recepção dos trabalhos. Recordamos que este projecto colectivo é uma Antologia Sui Generis, organizada e coordenada por Isidro Sousa, responsável pela Colecção Sui Generis, e o livro será editado com a chancela Euedito.

Daremos notícias durante todo o processo de selecção.

Estaremos em permanente contacto com todos os autores participantes. Poderá acompanhar-nos através das redes sociais, das nossas páginas no Facebook, do blogue Edições Sui Generis e dos grupos «BENDITA MANJEDOURA!», «LETRAS SUI GENERIS» e «ISIDRO SOUSA E AUTORES».

Resta-me enviar-lhe um grande abraço.

E seja bem-vindo a este trabalho colectivo!

Isidro Sousa
BENDITA MANJEDOURA!







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quarta-feira, 2 de outubro de 2019

Além - Novo projeto, para os mesmos autores

Depois de "Antes Quebrar que Torcer", Ana Paula Barbosa, Carlos Arinto, Jorge Santos, Manuel Amaro Mendonça e Suzete Fraga, resolvem juntar novamente os seus trabalhos, numa despretensiosa antologia.

Além é um tema que permite, a cada autor, uma liberdade de pensamento e, como é hábito, as mais diversas variações e interpretações da palavra. Mas ficam aqui algumas palavras de Carlos Arinto, num excerto da introdução à obra:


"Sendo o tema muito abrangente, ou pelo menos, suficientemente abrangente para permitir todas as interpretações, cada um dos autores criou aquilo que lhe parece ser demonstrativo desse espaço imaginado: um espaço onde se pode ir sempre mais além.

O além, não está aqui, mas além. E onde é esse além? Onde o quisermos situar, mas como somos nós que estamos “aqui” temos de nos esforçar por colocar em palavras o que pode existir além.
(...)
As histórias apresentadas são reais, elas existem, e, mesmo depois de apagadas da rede informática que as suporta, depois de ignoradas pelos leitores ou destruídas pelas chamas das catástrofes…continuarão a existir. Se existem, são reais, mesmo que duvidemos da sua existência, enquanto acontecimentos a que um reduzido número de testemunhas dá autenticidade factual. Afinal, a ilusão e o sonho, bem como a invenção e a imaginação, depois de libertos, são imparáveis e voam mais além."

Brevemente, estará disponível no sítio da Amazon, em todo o mundo.

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quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Na Margem do Lago

Este texto é uma obra de ficção. Embora possa incluir referências a eventos históricos e figuras reais, a história, os diálogos e as interpretações são fruto da imaginação do autor. Qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, é mera coincidência.




Tabor avançou até ao tabuado do cais, pela terra amarela e poeirenta, que tudo invadia. Os pés, descalços e sujos, estavam calejados e nem se desviavam das pequenas e aguçadas pedras, que infestavam o chão. Debaixo do inclemente sol laranja, que dominava o céu sem nuvens, sentou-se no toco de madeira, que estava no fim do cais, de propósito para o efeito. À sua frente, a mesma terra amarela e poeirenta, estendia-se até às escarpas desoladas, quase no limite do horizonte, ocupando o lugar onde, ainda há alguns anos, estavam as águas cristalinas que matavam a sede e a fome, a muitas dezenas de famílias. O tablado do cais, erguia-se, como uma ponte inacabada, sobre a terra árida, mesmo ao lado dos esqueletos abandonados de barcos de pesca.
Era pouco mais do que uma criança, quando os pais se mudaram para a margem daquele lago. Sabia que fugiam da guerra, mas pouco mais. Ficaram a viver numa casa de adobe e telhado de junco, construída com as suas próprias mãos, numa comunidade piscatória.
Já devia ter uns dez anos, quando mudaram outra vez. Recordava-se de falarem, com preocupação, da descida alarmante do nível do lago, que diziam ser causada pela guerra, que secara ou desviara quase todos os rios. Como provas dessa guerra, só se recordava de ter visto, algumas vezes, ruidosas máquinas voadoras, cor de areia, ostentando um retângulo vermelho com uma lua branca. Sobrevoavam o lago e faziam todos procurar abrigo, apavorados. Nunca lhes fizeram mal, limitavam-se a rasgar o céu, com estrondo e até elas, com o tempo, deixaram de aparecer.
Foi necessário, nessa altura, construir novo cais, umas boas centenas de metros mais à frente e arrastar os barcos de volta às águas. Depois disso, cada verão que passava, parecia mais quente que o anterior e mais um ou dois metros de areia ficavam expostos… e o inverno, furioso de trovoadas secas e ventos ciclónicos, não o retornavam ao nível anterior. As árvores iam-se ficando para trás e apenas uma ou outra, se aventurava a crescer mais próximo da água, no solo arenoso e quase estéril. Ainda “perseguiram” o lago mais três vezes, antes dos pais morrerem, primeiro um e depois outro, com pouco tempo de diferença. A falta da água, suportaram-na, mas não conseguiram viver um sem o outro.
Ayla foi um ar de primavera que surgiu na sua vida. Sensivelmente da mesma idade, de amigos de infância tornaram-se um só e, por algum tempo, ambos conseguiram esquecer a vida amarga e dura, com a fome sempre à espreita.
De tempos em tempos, apareciam grupos de três ou quatro pessoas, mortos de fome e sede, provenientes do Norte, que contavam histórias terríveis de grandes cidades incendiadas, muitos mortos de fome e de doença. Poucos se quedavam; também ali não havia muito que os satisfizesse e por isso, rumavam ao Sul… exceto os demasiado doentes, que ficavam enterrados num qualquer sítio, próximo de onde tinha sido sepultado o último cadáver. O cemitério organizado, ficava já demasiado longe, para que valesse a pena a extenuante caminhada sob o sol inclemente.
O lento encolher do lago, obrigava a construção de um novo cais, de quatro em quatro anos. Começaram a construí-lo cada vez mais longo, para que se mantivesse mais tempo na água, mas isso obrigava a ir buscar mais madeira, cada vez mais longe, aos esquálidos bosques a sul, pelo que acabaram por reciclar os tabuados anteriores. Alguns aldeãos eram contra, reclamavam que o lago voltaria a encher e os demolidos cais, teriam de ser reerguidos.
Mas até os vizinhos iam reduzindo. Os lavradores tinham cada vez mais dificuldade em produzir as suas colheitas no solo seco e o que nascia, era débil e mirrado, os pescadores apanhavam cada vez menos peixe e mais pequeno. Por vezes, enormes cardumes de peixes mortos inundavam as praias e ele estavam semanas sem pescar. O vento norte, carregado de areia, visitava-nos frequentemente durante o inverno e fustigava as folhas tenras das plantas destruindo as colheitas. A caça foi desaparecendo também, procurando água noutras paragens. Poucos eram já os aldeãos, que continuavam a reconstruir a casa a cada dez anos, perseguindo a fugidia água, onde os peixes eram cada vez mais pequenos. Todos os meses havia uma família que ia embora, ou o último elemento de outra, que falecia.
Brincou com o buraco nas calças, que lhe deixava o joelho quase exposto, enquanto lágrimas pingavam sobre o tecido empoeirado. Mesmo quando nasceu Raíssa, ele não acedeu a procurarem novas paragens. Primeiro porque a mãe estava frágil, depois, porque a criança era frágil… era melhor ficarem, ali tinham o sustento ainda certo e os pescadores eram cada vez menos. Fizeram uma festa na aldeia, quase não nasciam crianças e aquela, era uma promessa de que tudo poderia voltar a ser como antes.
Raíssa acabou por morrer. Tinha pouco mais de um ano… sempre fora débil e não aguentou a dieta de peixe e os poucos legumes desidratados, que se conseguiam arranjar. A pequena tumba, ficara lá para trás, ao pé da última casa que ocuparam antes desta.
Mesmo assim, ele não se decidiu a abandonar aquele local desolado e mantiveram-se lá, cada vez mais sozinhos. Ela não o culpava pela morte da filha, mas olhava-o com ressentimento. Não lhe respondeu, da última vez que lhe disse que tinham de mudar novamente, como já estavam a fazer os últimos quatro vizinhos que restavam. Dois deles partiram, mas de vez, para Sul e só três novas casas de adobe foram erguidas nas novas margens do lago, que tinha nessa altura já pouco mais de um quilometro de largo.
Foi com dificuldade que conseguiu convencer os vizinhos a construir o novo cais, mas fizeram-no. Uma vez mais, desmontaram o anterior e acartaram-no, tábua por tábua, até o montarem no novo local … há quantos anos isso fora…
Tabor não se lembrava já quando partira o último vizinho. Quando fora que ele pegara nos parcos haveres, na mulher e nos dois filhos quase adultos e partira ao longo do leito seco do rio, que em tempos alimentara o lago. Todos se foram e nenhum voltou… apenas ele, teimoso, insistira com a mulher, Ayla, que o lago haveria de voltar, quando a natureza fizesse as pazes com os homens.
Quando precisava de alguma coisa que não possuía, caminhava mais de meio dia, até à aldeia mais próxima e regressava, já noite muito escura, guiado pela fogueira que Ayla acendia na aridez da planura e ali ficava, até que ele regressasse.
Há cerca de um mês, fizera a extenuante caminhada até à aldeia… encontrara-a vazia. Chorara, no regresso, ao ver a pobre velha, em pé, ao lado da fogueira, suportada pela esperança do seu regresso. Teve a certeza que, se não voltasse, ela ficaria ali a esperá-lo, até que a luz dos seus dias se apagasse.
Agora, como nunca antes, sentia-se velho e vencido. A natureza não iria, nunca, perdoar aos Homens e Deus, era mais que certo, ou morrera, ou abandonara-nos para sempre.
Nas noites geladas, sentava-se em frente a Ayla, com a esquálida fogueira pelo meio, olhando aquele rosto vincado pelas rugas, que em tempos fora jovem e belo e perguntava-se se conseguiria suportar o dia em que ela partiria, ou como seria para ela, se ele se fosse primeiro.
Eram esses os seus pensamentos ali, no cais de um lago seco, sentado no toco de madeira a olhar o sol laranja que, do alto seu trono, zombava da desgraça dos orgulhosos humanos. As lágrimas corriam-lhe pelo rosto, deixando sulcos lamacentos. O vento picava-o com areia, enquanto assobiava fortemente e foi empurrado por ele, que tomou a decisão e levantou-se do toco, que era o seu local de espera.
No outro dia de manhã, Tabor e Ayla, com os seus parcos haveres, numa padiola que arrastavam pelo chão, deixaram a casa de adobe, junto ao cais.
 Partiram, em direção a Sul, sem saber se seriam os últimos humanos da Terra.

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quinta-feira, 29 de agosto de 2019

Participação na revista digital SAMIZDAT





Iniciou-se hoje a minha participação na revista digital SAMIZDAT, o objetivo é contribuir com um texto mensal para este excelente grupo de autores.

Vai ser para mim uma honra, publicar os meus humildes trabalhos, ao lado dos diversos escritores lusófonos que aqui participam.

As razões para este nome, estão devidamente explicadas na sua página de apresentação "Por que SAMIZDAT?" e só me fazem sentir solidário e irmão nos sentimentos e objetivos. Não é sem significado que, os meus três livros publicados, foram-no sem recurso aos serviços de qualquer editora, para além dos de impressão.

"A indústria cultural - e o mercado literário faz parte dela - também realiza um processo de exclusão, baseado no que se julga não ter valor mercadológico. Inexplicavelmente, estabeleceu-se que contos, poemas, autores desconhecidos não podem ser comercializados, que não vale a pena investir neles, pois os gastos seriam maiores do que o lucro.
A indústria deseja o produto pronto e com consumidores. Não basta qualidade, não basta competência; se houver quem compre, mesmo o lixo possui prioridades na hora de ser absorvido pelo mercado.
E a autopublicação, como em qualquer regime excludente, torna-se a via para produtores culturais atingirem o público."

A industria cultural, nomeadamente a literária, não quer arriscar e pretende que o seu negócio se faça às custas do autor... ele deve financiar a impressão e venda do seu trabalho e por isso são pedidas grandes somas para a impressão de um X número de exemplares, uma parte dos quais será entregue ao próprio. Os outros, espera-se que se vendam e se tal acontecer, será só lucro, porque foi tudo pago "à cabeça" pelo esperançoso candidato a escritor. Com muito talento ou pouco, vítima da falta de uma divulgação capaz, o "seu negócio" está falido à nascença, vítima de um investimento que não tem hipóteses de rentabilizar. Longe vão os tempos em que não se publicava isto ou aquilo por falta de qualidade literária, ou porque se afastava da "política editorial da editora"; agora, basta ter dinheiro (ou querer gasta-lo) e publica-se qualquer coisa.

Mas já me estou a afastar do tema desta publicação, que apenas pretende anunciar a minha primeira "postagem" nesta revista, onde pretendo publicar todos os dias 29.

Para os que gostam de ler e para os que identificam com aquilo que é ser escravo da imaginação, aqui vai:

Prioridades



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segunda-feira, 3 de junho de 2019

O conto "A Capela" nomeado para o prémio Adamastor do fantástico

 



Sem que soubesse o meu conto "A Capela" que venceu o passatempo da revista Bang, foi nomeado, entre muitos outros, como candidato ao prémio Adamastor do Fantástico 2019.





https://forumfantastico.wordpress.com/2019/06/03/estao-abertas-as-nomeacoes-para-os-premios-adamastor-2019/

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quarta-feira, 27 de março de 2019

Antologia "Sol de Inverno" conto selecionado






De: SUI GENERIS
Enviado: 27 de março de 2019 11:06
Para:
Manuel Amaro
Assunto: SOL 002 - Manuel Amaro Mendonça - Selecção


Bom dia,

Manuel Amaro Mendonça  


Comunicamos que os textos de sua autoria com os títulos




que submeteu ao processo de selecção para integrar a antologia «SOL DE INVERNO» foiram seleccionados.

Agradecemos a sua participação nesta (nova) obra colectiva da Colecção Sui Generis, cuja relação de autores seleccionados – cerca de sessenta – será divulgada, a qualquer momento, nas nossas páginas e grupos da rede social Facebook e nos nossos blogues.

Esta informação não é definitiva, por enquanto. É a selecção inicial, estando ainda sujeita a confirmação.

A selecção final (definitiva) de autores que integram este projecto literário será divulgada em momento oportuno, após ter-se dado cumprimento aos Pontos 7 e 8 do Regulamento subscrito, que se encontra publicado neste endereço:


Continuaremos a dar notícias sobre «Sol de Inverno» durante todo o processo de selecção, produção e edição da obra. Tornaremos a comunicar brevemente, com informações (mais) concretas sobre o andamento desta Antologia.

Outras informações sobre os diversos projectos Sui Generis podem ser acompanhadas através das nossas páginas e grupos do Facebook e do blogue Edições Sui Generis.

Grato pela sua atenção.

Saudações literárias

Isidro Sousa
SOL DE INVERNO
Organização


--
Cumprimentos
ISIDRO SOUSA

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terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Manhã de Domingo

Este texto é uma obra de ficção. Embora possa incluir referências a eventos históricos e figuras reais, a história, os diálogos e as interpretações são fruto da imaginação do autor. Qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, é mera coincidência.

Photo by Ivan Oboleninov from Pexels

Naquela manhã de domingo, o rádio despertador começou a tocar, às 7:30h, como o fazia todos os dias. A música de Miguel Gameiro, “Dá-me um abraço”, encheu o espaçoso quarto, dançando nas paredes ainda cheias de sombras.

Dá-me um abraço que seja forte
E me conforte a cada canto
Não digas nada que o nada é tanto
E eu não me importo

Ainda sonolenta, Irene não conseguiu deixar de esboçar um sorriso, ao mesmo tempo que estendeu a mão para desligar o aparelho. O gesto ficou suspenso no ar por uns segundos e acabou por deixar cair, sem interromper a música.

Dá-me um abraço fica por perto
Neste aperto tão pouco espaço
Não quero mais nada, só o silêncio
Do teu abraço

Adorava aquela melodia, sabia-a até toda de cor. Fora a música de fundo de muitas e boas cenas da sua vida.
Entreabriu os olhos ao sentir a pressão de algo quente contra as suas costas. A luz da manhã filtrava-se através dos pequenos espaços da persiana em focos de partículas de pó, douradas e flutuantes, estendendo-se até ao chão. Ajeitou as costas contra a pressão, espreguiçando-se voluptuosamente… é domingo e o braço de João nas suas costas estava a lembrar-lhe algumas “urgências”. Um calor invadiu o seu baixo ventre, sem, no entanto, afastar o sono.

Já me perdi sem rumo certo
Já me venci pelo cansaço
E estando longe, estive tão perto
Do teu abraço

Com os olhos fechados e um sorriso malicioso, esfregou ainda mais as costas contra o braço do adormecido companheiro, esperando que ele acordasse e quisesse fazer o mesmo que ela desejava naquele momento. Empurrou os seus braços entre as coxas e apertou com força enquanto se espreguiçava. Deixou-se dormir mais um pouco, mas a vontade não ia embora. Há quanto tempo não faziam amor…? Há quanto tempo não sentia aquele corpo musculado em cima dela, não o apertava com as suas coxas ávidas…? “Desde que a cabra da Isaura começara a rondá-lo” lembrou-se com raiva, “Maldita seja, que acabou por o levar...”

Dá-me um abraço que me desperte
E me aperte sem me apertar
Que eu já estou perto abre os teus braços
Quando eu chegar

Imagens dolorosas de João e da ex-amiga alternaram-se com as suas próprias recordações dos momentos de carinho com ele.
Ela não merecia aquilo! O seu companheiro e a sua melhor amiga...
Abriu os olhos de espanto para a penumbra do quarto: “Acabou por o levar? Então quem está atrás de mim?”
Mal se atrevendo a voltar-se, atirou o cotovelo para o lado da cama que devia estar desocupado, rodando rapidamente. Um miado indignado fez-se ouvir, logo seguido de patas fofas fugindo sobre o soalho.

É nesse abraço que eu descanso
Esse espaço que me sossega
E quando possas dá-me outro abraço
Só um não chega

“Coitadinho do bolachinha...”, pensou, “Esqueci-me completamente do pobre bichaninho.”
Encolheu-se novamente em posição fetal.
João deixara-a. Trocou-a pela Isaura. Uma lágrima teimou em correr ao longo do nariz e pingou sobre o travesseiro.

Já me perdi sem rumo certo
Já me venci pelo cansaço
E estando longe, estive tão perto
Do teu abraço

“Foi-se embora e não arranjou a porta do armário da cozinha, que está solta há meses e nem substituiu o prego do quadro do corredor que está sempre a cair… imprestável!” Revoltou-se.

Já me perdi sem rumo certo
Já me venci pelo cansaço
E estando longe, estive tão perto
Do teu abraço
.. ..
E estando longe, estive tão perto
Do teu abraço

Ergueu-se de um salto e deu uma forte pancada, para desligar o rádio despertador, enquanto lhe gritava:
— Cala-te, monte de esterco! É domingo!
Tornou a enrolar-se nos lençóis desalinhados e limpou as lágrimas com raiva.
“Ele foi-se embora? Quem perdeu foi ele! Raio que o parta, não faz cá falta nenhuma!”
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