quinta-feira, 23 de outubro de 2025

Entre Ecos e Pegadas


Como são difíceis os dias, após a partida daqueles que nos são queridos.

Parado no tempo, era assim que tudo estava; os mesmos quadros, as mesmas fotos, as divisões, envelhecidas, mas iguais... toda a casa era uma gigantesca máquina do tempo que me levou anos e anos atrás, ao período em que também eu fiz parte daquele ambiente.

Entrei para arrumar o quarto que ele habitara até partir.

Os objetos do dia a dia continuavam em cima da mesa de cabeceira, aguardando o regresso do seu proprietário. A caixa dos medicamentos, meio preenchida, sugeria uma continuidade que não aconteceria.

As paredes ainda mostravam as marcas de ter sido a biblioteca de que o meu pai tanto se orgulhava. Fora movida, anos depois do desaparecimento dele, para se transformar num quarto para quem já não conseguia subir escadas.

Ao retirar os casacos pendurados atrás da porta, um objeto caiu com estrondo no chão de cerâmica. Fiquei uns segundos para a olhar para a bengala castanha de verniz reluzente e cabo decorado.

Apanhei-a e olhei-a de perto, como se fosse a primeira vez que a via... mas não era.

"Quem és tu?" Perguntei-me. "És quem suportou o meu pai, quando as forças lhe começaram a faltar e os dias eram curtos por entre o oblívio dos longos sonos... que acabaram por o levar."

"Talvez sejas aquela que acompanhou a minha mãe, quando as quedas lhe minaram a confiança e lhe deste um pouco de equilíbrio até as pernas a não susterem mais."

"Não, já sei, eras a companheira do meu irmão, que se arrastou até ao último momento, a vontade férrea a contrariar a maleita cruel que o devorava."

Não pude evitar um sorriso enquanto a pendurava no seu lugar, suspensa no tempo, entre ecos e pegadas, à espera do próximo companheiro.

Voltei a pegar-lhe, pensativamente e dei por mim a experimentá-la na minha mão.



sábado, 11 de outubro de 2025

Apresentação de Pseudocontos 1 de Jorge Santos


Há encontros que começam com palavras e acabam em amizade.

Foi assim com o Jorge Santos, que conheci pessoalmente no dia em que fundámos os Pentautores, naquele já lendário 14 de janeiro de 2017, em Porto D’Ave, na Póvoa de Lanhoso.
A Suzete Fraga, incansável como sempre, levou-nos nessa pequena odisseia literária que incluiu castelo, santuário e boa mesa.
Foi um dia frio, sim, mas cheio de calor humano — o dia em que percebi que as pessoas por trás das palavras são ainda mais interessantes do que os textos que escrevem.


Volvidos estes anos, tive o privilégio de voltar a partilhar um momento literário com o Jorge, que me convidou — como amigo e cofundador dos Pentautores — para escrever o prefácio e apresentar o seu livro Pseudo-contos 1.

Foi um convite especial, feito com a generosidade e a confiança que sempre caracterizaram a nossa amizade.

Pseudo-contos 1 é, como o próprio título sugere, uma brincadeira séria com a forma e o conteúdo.
São contos que desafiam convenções, cruzam o humor com o drama, o quotidiano com o insólito, o real com o fantástico.
Jorge Santos escreve com liberdade e ironia, mas também com uma ternura escondida entre as entrelinhas.
É o tipo de livro que nos faz rir num parágrafo e pensar profundamente no seguinte — e é precisamente isso que o torna tão humano.


A sessão contou também com a presença e participação da Fabíola Lopes, professora, bibliotecária e autora de obra publicada.

A Fabíola é uma voz literária plural — publicou poesia (As vozes em mim), contos (Sombras sonâmbulas) e livros infantis como O que há na barriga do meu pai? e O que há nos cabelos da minha mãe?.
Colabora ainda na comunidade literária bracarense, nomeadamente na tertúlia A Velha Escrita, da qual o Jorge é um dos fundadores.
A sua intervenção trouxe um olhar sensível e cúmplice sobre o livro, enriquecendo o diálogo entre autores e leitores.


Entre o público, estiveram também Suzete Fraga, autora de Almas Feridas e Almas Rebeldes, cofundadora dos Pentautores e presença constante no nosso percurso literário; Ana Maria Monteiro, membro honorário dos Pentautores e participante ativa da Velha Escrita; e JP Felix da Costa, autor de Casa de Sant’Anna, obra publicada pela Cordel d’Prata, que se juntou a nós nesta celebração da palavra.


A presença de todos tornou o momento ainda mais especial — uma verdadeira reunião de amigos das letras, onde a escrita foi, mais do que tema, o elo de ligação.

Durante a apresentação, não resisti a uma piada: disse que aceitara o convite com algum receio — afinal, o Jorge é bem capaz de me transformar em personagem de um conto… e matar-me logo no segundo parágrafo!
Mas, se fosse ele a escrever a minha morte, seria certamente com elegância, humor e uma boa metáfora — e não há maneira mais bonita de partir numa história.

O Jorge é, como eu, autor independente, e é essa independência que lhe permite escrever com tanta liberdade e autenticidade.
Além de escritor, é também fotógrafo talentoso e fundador da tertúlia A Velha Escrita, onde a palavra e a imagem se cruzam num mesmo olhar curioso e atento.


Pseudo-contos 1 é um livro plural, como o próprio Jorge: nele convivem o riso, a crítica social, a fantasia e a ternura.

Entre os meus preferidos estão “Ode à Lua”, “Romeu”, “A Louca e o Mar” e “Nunca à Terça-feira” — cada um deles uma pequena surpresa, uma janela aberta para o imaginário e para o humano.

Foi uma apresentação especial — feita com amizade, admiração e aquele prazer raro de ver alguém fazer o que mais gosta: contar histórias.